Pera ferroviária ocupará área de empresa em Outeirinhos (Sílvio Luiz/AT) O atraso de pelo menos um ano em relação ao prazo prometido para a entrega da pera ferroviária de Outeirinhos, na Margem Direita do Porto de Santos, prejudica o desenvolvimento do cais santista, adiando a expansão na movimentação e a maior eficiência do modal. É o que dizem especialistas consultados por A Tribuna. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! A obra, que ficou para o início do ano que vem, consiste em um pátio circular que possibilitará o transbordo da carga sem a necessidade de desmembramento do trem, agilizando o escoamento de mercadorias. A construção da estrutura é de responsabilidade da Associação Gestora da Ferrovia Interna do Porto de Santos (AG-Fips), consórcio formado pelas empresas Rumo, MRS e VLI, e envolve o valor total de R\$ 257 milhões. “A pera é fundamental para a expansão da operação de grãos e a melhoria em todas as manobras. Hoje, a quebra (divisão) de trens gera custos maiores, tanto para a Fips quanto para os terminais, com mais demora na operação de descarga porque os trens têm de ser quebrados. Então, qualquer atraso nessa obra atrasa o desenvolvimento de Santos”, argumenta o diretor da Graf Infra Consulting, Rodrigo Paiva. O consultor ferroviário e diretor da Mallard Consulting, Alan Jones Tavares, explica que, caso a pera ferroviária estivesse em operação, seis benefícios estariam sendo percebidos: maior utilização da ferrovia, menor dependência do transporte rodoviário, redução das filas ferroviárias internas, maior número de trens atendidos por dia, redução dos tempos de permanência dos vagões dentro do Porto e consequente redução de custo nas operações. “Quando estiver pronta, permitirá que um trem de grande porte entre inteiro ou com número maior de vagões, percorra o circuito em menos tempo - e não por aumento de velocidade - e saia já orientado para retornar à malha de acesso. Na prática, ela transforma a ferrovia interna do Porto em um sistema de fluxo mais fluido”, projeta. Consequências do adiamento Tavares observa quatro consequências causadas pelo adiamento. Uma é a de que o complexo portuário santista deixa naturalmente de movimentar mais carga ferroviária. “É, provavelmente, o maior impacto. A capacidade adicional prevista pela obra simplesmente não entra em operação. Na prática, continua existindo um gargalo operacional. Isso significa que parte do crescimento da demanda precisa continuar utilizando caminhões, alguns fluxos ferroviários deixam de ser ampliados e terminais trabalham abaixo da capacidade operacional”, explica. Outra é a manutenção dos altos custos logísticos, pois, lembra Tavares, sem a pera locomotivas trabalham mais tempo e, por consequência, vagões permanecem por períodos maiores no Porto. Com isso, os ciclos ferroviários aumentam e o custo por tonelada transportada cresce. “A produtividade dos ativos ferroviários permanece inferior ao planejado”, afirma. Problemas na exportação de soja, milho, açúcar, farelo e celulose, e na importação de fertilizantes compõem o terceiro impacto. “Todos esses setores dependem de alta eficiência ferroviária. Quando o porto perde produtividade, aumenta o tempo de espera, cresce a incerteza logística e aumenta o custo do frete”, descreve. A competitividade do Porto de Santos encerra a lista. “O Porto de Santos compete diretamente com outros corredores logísticos brasileiros. Quando sua infraestrutura ferroviária demora mais para evoluir, a vantagem operacional diminui, investidores postergam novos projetos e operadores logísticos deixam de capturar ganhos de eficiência”, define. Investimentos Os investimentos ferroviários também ficam comprometidos com o adiamento da pera ferroviária, segundo o consultor ferroviário e diretor da Mallard Consulting, Alan Jones Tavares. “Sob o ponto de vista do planejamento ferroviário, a pera funciona como uma infraestrutura estruturante. Diversos investimentos dependem dela, entre eles a expansão dos corredores de grãos, o crescimento da movimentação de celulose, a ampliação dos terminais de Outeirinhos e o aumento da participação da ferrovia na matriz de transporte do Porto”, lista. Tavares lembra que, sem essa obra, novos investimentos geram menor retorno, operadores evitam ampliar fluxos porque irão encontrar gargalos no complexo santista e parte dos ganhos previstos por outras intervenções ferroviárias fica represada. “O adiamento da conclusão prolonga a existência do principal gargalo da ferrovia interna do Porto. A capacidade do complexo santista de absorver o crescimento futuro fica limitada”. A pera ferroviária é uma das obras estruturantes previstas no contrato de cessão da Fips, em vigor desde outubro de 2023. Naquele momento, a promessa de conclusão era para início deste ano, o que não ocorreu. Embora não tenha cumprido o prazo prometido, a Fips explicou que, pelo contrato firmado com a APS, pode concluir até julho de 2027, mas afirma que a previsão é o primeiro trimestre do ano que vem. Marimex aguarda liberação de terreno do antigo Teval, no Valongo, para fazer a mudança (Alexsander Ferraz/AT) Marimex aguarda liberação A transferência do terminal da Marimex, onde ficará a pera ferroviária, para a área do antigo Terminal Marítimo do Valongo (Teval), entre as Avenidas Martins Fontes e do cais do Saboó, ainda depende de alguns fatores, segundo a empresa. Para a construção da estrutura destinada aos trens, a Autoridade Portuária de Santos (APS) e a Marimex assinaram acordo em 10 de agosto de 2023 que estabeleceu a troca, formalizada junto às autoridades desde o ano anterior - e que permitiu à Marimex acessar o terreno para dar início aos estudos de engenharia para o projeto do novo terminal. A área total tem 111,2 mil metros quadrados (m²), tamanho estabelecido em razão de aditivo contratual ao arrendamento, feito em janeiro deste ano. Estão previstos armazéns cobertos e pátio de contêineres. “No âmbito municipal, o Estudo de Impacto de Vizinhança e as respectivas medidas mitigadoras foram aprovados entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, permitindo dar sequência ao andamento do projeto, que passou por ajustes para compatibilização com o novo sistema viário previsto para a região. A transferência ocorrerá após a conclusão das etapas necessárias à entrada em operação da nova instalação, conforme os instrumentos firmados com o poder público”, explica, em nota, a Marimex.