Terminal de Passageiros administrado pelo Concais fica em Outeirinhos (Alexsander Ferraz/Arquivo AT) A infraestrutura para atracação dos navios de cruzeiros no Porto de Santos enfrenta desafios que dependem de ações do poder público. O principal, segundo o Concais, administrador do Terminal de Passageiros Giusfredo Santini, é o comprimento disponível no cais. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! “O trecho em frente ao terminal possui cerca de 294 metros, enquanto muitos dos navios de cruzeiro modernos necessitam de aproximadamente 350 metros para realizar a atracação com segurança, considerando também as necessidades de amarração”, afirma, em nota. O Concais cita a última temporada, quando embarcações de 286 e 333 metros de comprimento vieram para Santos. “A evolução do tamanho das embarcações é uma tendência mundial e exige infraestrutura compatível para que Santos mantenha sua posição de principal porto de embarque de cruzeiros da América do Sul”, emenda. O consultor portuário Ivam Jardim lembra que uma obra prevista no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal em 2014 contemplava o alinhamento do cais (para maior comprimento), a partir de um projeto doado pelo Concais à União. “Essa intervenção chegou a ser iniciada pelo lado do cais da Marinha, mas a etapa relacionada diretamente ao terminal de passageiros, que era o objetivo inicial do projeto, nunca foi executada”, argumenta. Jardim considera que o necessário agora é a implantação, por parte da Autoridade Portuária de Santos (APS), de defensas adequadas para esse tipo de operação. “A expectativa do setor é justamente que essas adequações ocorram para a próxima temporada, já que se trata de um berço público sob responsabilidade da APS”. Essas defensas são estruturas que avançam onde o cais é irregular e permitem alinhamento para o navio atracar. O consultor diz que essa limitação operacional acaba reduzindo parte da experiência do cruzeirista, já que em determinadas situações há necessidade de deslocamento de passageiros e bagagens por ônibus dentro da área portuária até o local efetivo de atracação do navio. “Além do impacto operacional, isso também aumenta custos e gera movimentação adicional no tráfego interno da região portuária”. Exceção Jardim afirma que a principal exceção envolvendo viabilidade de atracação em frente ao Concais é o MSC Seaview. Nesse caso, a limitação está relacionada à altura do navio em relação aos cabos de energia da Usina de Itatinga, que cruzam o canal do Porto. “Esses cabos possuem altura de 70,4 metros em maré zero. O entendimento da APS é de que existiria uma limitação operacional por uma diferença muito pequena em relação às margens de segurança previstas nas normas aplicáveis, algo em torno de dez centímetros”, descreve. Para o especialista, trata-se hoje de uma interpretação conservadora da norma, considerando as condições operacionais existentes no Porto de Santos. “Superada essa discussão e implantadas as adequações definitivas de defensas no berço 25, todos os navios operados na costa brasileira poderão atracar em frente ao terminal de passageiros”, assegura. Pela metade Procurada, a APS disse que a decisão na época foi entregar o alinhamento do cais sem o trecho do Concais e acrescentou que “os navios de cruzeiro têm outras opções de berços de atracação”. Sobre a implantação das defensas, a gestora do Porto afirma estudar uma solução viável. Já em relação à altura dos navios em relação aos cabos de energia, a APS afirma que, em conjunto com a Capitania dos Portos, se baseia em diretrizes para o calado aéreo. “Caso haja estudos adicionais que revejam o valor indicado, o assunto será passível de reanálise”. Uso restrito O cais da Marinha, onde os navios também atracam, não pode ser totalmente usado porque no ano passado um navio bateu no píer, danificando parte do local, que ainda não foi reparado. Ainda não há data certa para a liberação da área. A Capitania dos Portos de São Paulo (CPSP) explica que uma empresa já foi selecionada pela seguradora responsável pelo sinistro e será a responsável pela execução das obras. A Transpetro (subsidiária da Petrobras e proprietária do navio que causou o acidente) prevê que as obras sejam concluídas em 2027, sem especificar o mês. Terminal de Passageiros administrado pelo Concais fica em Outeirinhos (Alexsander Ferraz/Arquivo AT) Situação afeta a imagem do Porto A impossibilidade de o navio atracar na área do Concais causa inconvenientes, segundo a turismóloga e especialista em planejamento estratégico do turismo, Selma Cabral. “Afeta diretamente a experiência do passageiro, porém afasta mais armadoras e navios do que propriamente passageiros, pois reduz a competitividade do Porto perante outros mercados”, afirma. Selma lembra que, nessas condições, o turista deixa de ter um embarque e desembarque confortáveis, além de as operações mais complexas aumentarem custos logísticos. “Em vez de acessar diretamente o navio, o passageiro precisa enfrentar deslocamentos internos por ônibus dentro da área portuária, o que gera desconforto, aumenta o tempo de operação e cria uma sensação de improviso.” A especialista diz que, para quem está iniciando uma viagem de férias, a primeira impressão é extremamente importante. “A experiência começa no embarque, não dentro do navio”, observa. O risco maior, alerta ela, está na comparação internacional. “Quando a experiência em Santos se torna mais complexa, a percepção de qualidade do destino diminui. Certamente impacta a satisfação do passageiro”. Modernização O presidente da Associação dos Profissionais de Turismo da Baixada Santista (APT), Eduardo Silveira, observa que essa realidade se tornou recorrente pelo fato de que cada vez mais as embarcações são maiores, independentemente do Terminal. Diante disso, Silveira vê como urgente a necessidade de um novo local para o terminal de passageiros. Embora defenda a modernização, o profissional reconhece a colaboração do Concais para crescimento e fortalecimento do setor. “É importante lembrar que, antes do terminal de passageiros, os embarques e desembarques eram improvisados a cada temporada, nos armazéns de cargas no Porto. Não havia nenhuma estrutura”. O presidente da APT não diria que a atual situação afasta as pessoas, mas deixa claro que um novo terminal, com acesso ao navio por intermédio de um finger (passarela coberta) trará uma demanda de turistas que já usufruem desse tipo de comodidade em outros portos do mundo. Eduardo Silveira, diz que novo espaço, no Valongo, oferecerá maior conforto, segurança e facilidades. “Será um marco, um divisor de águas que vai projetar Santos como um dos mais modernos terminais do mundo”. Passageiros citam desconforto Os passageiros de cruzeiros conhecem bem os problemas que vivem quando o navio não pode atracar no Concais. A administradora de empresas Larissa Squillaro, de 38 anos, que mora em Ilhabela (SP), já fez 26 cruzeiros e relata que o deslocamento de ônibus gera desconforto. “O processo se torna menos prático, aumenta o tempo de embarque e desembarque, além de exigir uma etapa adicional no trajeto, o que pode ser mais cansativo”, argumenta. Namorados e moradores de Bauru (SP), o designer gráfico Gabriel Netto e a publicitária Viviane Pivato, ambos de 26 anos, compartilham desse sentimento. “Isso acaba deixando o embarque mais cansativo, principalmente porque forma fila, demora mais para o passageiro chegar até o navio e, em alguns momentos, a pessoa precisa ir em pé no ônibus”, descreve Gabriel. Outro aspecto detectado por Larissa é o aumento do tempo de deslocamento e espera especialmente em dias de grande movimento, como por exemplo quando há três navios de passageiros operando ao mesmo tempo. “Apesar de entender que existem limitações operacionais na atracação e que isso depende de questões técnicas e da logística do Porto, acredito que qualquer medida que reduza o tempo de espera causado pelo transporte do ônibus, contribua positivamente para os passageiros. Afinal, a viagem de cruzeiro começa e acaba no terminal, e a primeira e última impressão tem um peso importante”, comenta. Além disso, a administradora de empresa reforça a necessidade de uma comunicação mais eficiente para os passageiros, operação de transporte interno mais rápida e organizada, disponibilização de informações mais claras e antecipadas sobre o local de atracação do navio e o tempo estimado de deslocamento. “O objetivo é tornar essa etapa mais fluida e previsível para que o passageiro tenha uma experiência mais confortável desde a chegada ao Porto até o embarque no navio. Santos já é a principal porta de entrada dos cruzeiros no Brasil e possui uma estrutura consolidada. Com alguns ajustes, melhorias e investimentos contínuos, a experiência pode se tornar bem melhor para todos”, afirma Larissa.