Flávio da Rocha Costa: "Hoje temos um terminal que pode operar 3 milhões de toneladas por ano, e a gente está operando de 900 mil a 1 milhão de toneladas” (Alexsander Ferraz/AT) A operação do Terminal da Eldorado Brasil Celulose (EBLog), no Porto de Santos, completou dois anos na última quinta-feira consolidando resultados expressivos. Desde a inauguração, o terminal superou a marca de 1,5 milhão de toneladas de celulose embarcadas só na modalidade break bulk (no porão do navio, fora de contêineres), com média de 60 navios por ano. Além disso, foram mais de 20 mil caminhões descarregados e acima de 2 mil contêineres preenchidos. Em maio deste ano, o EBLog registrou um recorde: 22,2 mil toneladas embarcadas em único dia. Recentemente, o terminal, que possui 150 colaboradores, também conquistou importantes certificações internacionais: ISO 9001 (Gestão da Qualidade), ISO 14001 (Gestão Ambiental) e ISO 45001 (Saúde e Segurança Ocupacional), reafirmando o compromisso da companhia com padrões globais de excelência, segurança e sustentabilidade. Embora o EBLog comemore agora seu segundo aniversário, a presença da Eldorado Brasil no Porto de Santos é anterior — desde 2015, com o antigo Terminal Rishis. Controlada pelo Grupo J&F, a Eldorado tem fábrica em Três Lagoas (MS) e exporta cerca de 90% de sua celulose para mais de 40 países. Há mais de uma década na companhia, o diretor de Logística do EBLog, Flavio da Rocha Costa, de 48 anos, acompanhou de perto a evolução da empresa. Em entrevista a seguir, dada para A Tribuna, o diretor fala sobre conquistas, desafios logísticos, estratégias futuras e a importância da conexão entre Porto e Cidade. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Qual balanço você faz da operação no Porto de Santos? O que passa pela sua cabeça quando você lembra dessa trajetória desde o início? Quando iniciamos a operação no Porto de Santos, em 2013, usávamos um terminal de terceiros. Operamos lá por uns três anos. Aí conseguimos uma área de 10 mil metros quadrados (m²) no terminal Rishis, onde agora está a Cofco. Precisávamos andar dez quilômetros para chegar até o berço de atracação do navio e carregar. O caminhão pegava farol, trânsito, trem passando. E já naquela época, com todas essas questões envolvidas, a Eldorado já superava as expectativas? Conseguimos números de produtividade fenomenais. Começamos com 6 mil toneladas embarcadas a cada 24 horas e chegamos a bater 12 mil toneladas. Era quase o que os nossos concorrentes estavam fazendo. Houve um empenho muito grande do time. Embarcávamos em break bulk (carga fora de contêiner, no porão do navio) e depois equilibramos com 50% em contêiner. E aí a Eldorado participou do leilão para essa nova área, ganhou e em 31 de julho de 2023 inaugurou esse novo terminal? Exportamos 90% da produção e o porto mais próximo da nossa operação, em Três Lagoas (Mato Grosso do Sul), é o de Santos. Era preciso investir aqui. A gente mudou da água para o vinho. Saímos de uma situação desafiadora para um sonho, que é um terminal de aproximadamente 53 mil m². Aqui eu posso colocar 72 vagões dentro do terminal, atracar dois navios. Estou a 25 metros do berço. Nesses dois anos conseguimos adequar nossas operações e gerar resultados expressivos. Reduzimos o tempo de descarga de caminhão em 30%, por exemplo. Chegamos a embarcar 18 mil toneladas em um dia, alcançando picos de 22 mil toneladas, quando antes desse terminal, como já citei, fazíamos 12 mil. O terminal conseguiu novas certificações ISO este ano. Por que é importante? Para exportar para a Europa e Estados Unidos, existe uma certificação internacional que faz a auditoria de toda a cadeia da celulose, desde a plantação até chegar no cliente. Essa temos desde o início. Conseguimos agora novas certificações para operação portuária, que deveríamos ter até o ano que vem e conseguimos antecipar em sete meses. A ISO nada mais é do que dizer: essa empresa trabalha com qualidade. Flavio da Rocha Costa: "A primeira ação que nós tivemos quando inauguramos o terminal foi construir uma Unidade Básica de Saúde (policlínica) no Estuário” (Alexsander Ferraz/AT) Como você classifica hoje a importância desse terminal em Santos para a Eldorado? Ele é essencial para a Eldorado. Se eu não tenho esse terminal, eu não consigo produzir 1,8 milhão de toneladas e não posso ampliar minha produção com um projeto futuro. Então, ele é de suma importância. Hoje temos um terminal que pode operar 3 milhões de toneladas por ano, e a gente está operando de 900 mil a 1 milhão de toneladas. Estamos preparados para um aumento de produção. O que vocês planejam para os próximos anos? Já existe um projeto feito pela Eldorado para produzir no total de 4,5 milhões de toneladas (por ano). Estamos aguardando o melhor momento para que esse projeto seja implementado. E a gente diz para a empresa: olha, o terminal está pronto. Para qualquer momento que vocês precisarem, estamos prontos para receber essa quantidade de celulose. Então, não teria necessidade de expansão nos próximos anos no Porto de Santos? Nesse momento, não. É claro, estamos sempre olhando as oportunidades dentro do Porto. Se a gente encontrar uma oportunidade, podemos mudar a nossa matriz de operação. Se pudermos crescer, podemos repensar. Precisamos estar com as oportunidades e as opções abertas. Se a companhia é eficiente, isso passa também pelos colaboradores. Como é trabalhada a cultura da empresa com eles? A Eldorado tem uma matriz de valores muito forte e a gente faz questão de viver isso. Porque existem os valores que estão pregados na parede e aqueles que você vive. Então, a gente tenta trazer para os funcionários os valores mais próximos da realidade do dia a dia. Às vezes você entra em uma empresa, passa um mês e parece que já está trabalhando nela há três, quatro, dez anos. Isso porque os valores da empresa estão muito próximos dos valores que você vive na sua casa e com seus amigos. Tentamos fazer de uma forma que eles não tenham dificuldade para se adaptar. A primeira fase ocorre na contratação. Temos um formato, que a gente chama de Comitê de Valores, em que pessoas que não são da área daquela que está sendo contratada fazem uma entrevista só avaliando a parte da cultura. É o primeiro filtro para saber se ela vai se adequar à cultura da empresa. E depois é o trabalho diário com todo o time. A gente tem uma cultura de não acreditar em salvador da pátria. Ou nós fazemos, ou vamos conseguir alcançar as metas que a gente precisa. E damos autonomia ao time. Quando você envolve o funcionário, dá para ele a responsabilidade de participar do projeto, ele está muito mais dentro daquele negócio. E para fora, de que forma a Eldorado colabora socialmente com a região? A primeira ação que nós tivemos quando inauguramos o terminal foi construir uma Unidade Básica de Saúde (policlínica), que fica aqui no Estuário. Em um ano conseguimos levantar essa unidade, que não existia na região. Entregamos à Prefeitura, que colocou os equipamentos para atender 800 famílias. Também entramos forte nessas operações via leis de incentivo que a Prefeitura tem, como o Promifae (Programa Municipal de Incentivo Fiscal de Apoio ao Esporte). Você sempre vai ver a Eldorado ligada ao esporte ou à educação, porque acreditamos nisso. Ainda apoiamos o Camps (Centro de Aprendizagem e Mobilização Profissional e Social) de Santos. Você vai ver um time grande do Camps trabalhando na Eldorado (programa de Jovem Aprendiz). No último ano, contratamos uns quatro ou cinco. E temos outros investimentos, que fizemos no viário, viaduto, passarela. Estamos muito próximos da população. Quando se fala em relação porto-cidade, o que é essencial na sua visão? Eu já participei de várias missões internacionais, junto com o Grupo Tribuna, que a gente está andando na cidade e entra no porto sem perceber. Do nada você vê um navio. Caramba, tem que ter essa integração mesmo. Já demoramos para começar a mudar isso aqui. O primeiro passo é a Prefeitura e a Autoridade Portuária de Santos (APS) se conversarem mais, e isso está acontecendo. Houve uma evolução muito grande nessa comunicação nos últimos anos. E como você avalia o Porto de Santos, ainda com tantos gargalos? Tudo que o Porto precisa para crescer está em andamento. Recentemente foi lançado um edital para o aprofundamento do canal de navegação para 16 metros. Isso sempre foi um pedido nosso, porque hoje os navios estão maiores e o calado continua o mesmo. Você tem hoje o controle da frota que chega no porto, a tecnologia, a publicação do edital (pela APS) do VTMIS (sigla em inglês para Sistema de Gerenciamento e Informações do Tráfego de Embarcações). Você tem agora algumas áreas que estão sendo expandidas, estão sendo anunciados estudos. A terceira pista da Rodovia dos Imigrantes com estudos encaminhados, o que também é importante. Só não podemos deixar que isso tudo pare no meio do caminho, né?