(Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) Com expectativa para operar voos comerciais no próximo ano, o futuro Aeroporto Civil Metropolitano de Guarujá é visto como um caminho para aumentar o número de passageiros de outros estados que embarcam em cruzeiros no Terminal de Passageiros Giusfredo Santini, administrado pelo Concais, no Porto de Santos. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! “O Aeroporto de Guarujá representa mais uma opção logística para o setor de cruzeiros, especialmente para passageiros vindos de regiões mais distantes”, afirma o consultor portuário Ivam Jardim. Ele explica que tudo dependerá da quantidade de voos e destinos efetivamente operados. “Mesmo considerando um cenário de cinco a dez voos diários, com aeronaves de aproximadamente 100 passageiros, ainda assim estamos falando de uma movimentação que, sozinha, não seria suficiente para abastecer integralmente sequer um navio de menor porte”, estima. A Autoridade Portuária de Santos (APS) ressalta o perfil complementar do futuro aeroporto de Guarujá. “O Porto de Santos está próximo aos dois aeroportos mais movimentados do Brasil, inclusive com translado direto ao terminal de cruzeiros. Em breve, com a conclusão do Trecho Norte do Rodoanel, também será facilitado o acesso a partir do Aeroporto de Viracopos, em Campinas. Assim, o Aeroporto de Guarujá será um complemento ao acesso por meio do transporte aéreo”, justifica. Prefeituras Em nota, a Prefeitura de Santos afirma que será importante estruturar conexões eficientes entre o aeroporto e o terminal de cruzeiros, incluindo linhas de transporte dedicadas e alternativas de ligação marítima. “A integração entre aeroporto e Porto ampliará o mercado de passageiros provenientes de outras regiões do Brasil e da América do Sul, fortalecendo o potencial da região como principal porta de entrada dos cruzeiros no País”. Já a Prefeitura de Guarujá, também em nota, lembra que haverá redução significativa do tempo de deslocamento em comparação ao realizado atualmente pelo modal rodoviário. “Sem contar com a possibilidade de todo check-in ser feito no momento de desembarque das aeronaves, simplificando o embarque nos transatlânticos”, afirma. A Administração guarujaense deseja aprimorar a experiência dos usuários de cruzeiros que estiverem em deslocamento, atraindo-os para que passem algumas horas na Cidade. Conforto A relação entre o terminal marítimo e o Aeroporto de Guarujá é valorizada pelo Concais. Para o administrador do terminal, a futura mudança da infraestrutura que possui em Outeirinhos para a região do Valongo pode dar ainda mais eficiência para essa logística. “A existência do aeroporto será extremamente positiva para o setor. Entretanto, um terminal planejado para atender às demandas futuras do mercado pode ampliar ainda mais os benefícios dessa conectividade, proporcionando uma experiência mais eficiente e confortável aos passageiros”, argumenta, em nota. Comparação A relação entre Santos e Guarujá remete à de Itajaí e Navegantes, em Santa Catarina: o aeroporto está na cidade vizinha. Turismóloga e especialista em planejamento estratégico do turismo, Selma Cabral lembra que os turistas chegam de avião por Navegantes e vão para Itajaí e Balneário Camboriú. “A experiência de Itajaí mostra que o aeroporto não precisa estar dentro da cidade portuária. O que importa é a conectividade. Navegantes funciona como porta de entrada para toda a região turística do litoral norte catarinense. O futuro aeroporto em Guarujá poderá cumprir papel semelhante para Santos e a Baixada Santista, especialmente se estiver integrado aos acessos terrestres e ao terminal de passageiros”, detalha. O presidente da Associação dos Profissionais de Turismo da Baixada Santista (APT), Eduardo Silveira, entende que a situação é diferente no caso de Santos e Guarujá. “Estamos em uma região forte, consolidada. Temos o principal porto do Brasil e do Hemisfério Sul. O fato de a Base Aérea se transformar em um aeroporto civil é um passo a mais nessa caminhada”, justifica. Em Santa Catarina O prefeito de Itajaí (SC), Robison Coelho (PL), defende a ampliação da pista do Aeroporto de Navegantes, em Santa Catarina. Ela possui 1.701 metros de comprimento. A do futuro Aeroporto Civil Metropolitano de Guarujá tem 1.390 metros. “Essa é uma pauta de interesse não apenas de Navegantes, mas de toda a região. Com uma pista maior, poderemos receber aeronaves de maior porte, ampliar a capacidade de transporte de cargas e passageiros e gerar ainda mais desenvolvimento econômico”, diz. A Reportagem também procurou a Prefeitura de Navegantes (SC), mas não houve retorno. Interesse de aéreas é incerto As empresas aéreas não revelaram claramente seus planos em relação ao futuro Aeroporto de Guarujá e responderam de forma genérica às questões apresentadas pela Reportagem, sem demonstrar comprometimento. (Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) A Gol informou, em nota, que avalia continuamente oportunidades de expandir sua malha aérea regional, nacional e internacional, conforme viabilidade econômica e de infraestrutura. “A companhia entende que investimentos em infraestrutura, aliados a melhorias contínuas, são fundamentais para impulsionar o turismo no País”. A Latam disse que estuda “todas as oportunidades para ampliar de forma sustentável a conectividade de sua malha aérea”. Por fim, a Azul informa, também em nota, “que, como empresa competitiva, está sempre atenta ao mercado e avalia constantemente as possibilidades de incremento de sua malha”. A companhia completa dizendo que “neste momento não há definição sobre um planejamento de operações no Guarujá”. Especialistas destacam potencial Turismóloga e especialista em planejamento estratégico do turismo, Selma Cabral diz que o Aeroporto Civil Metropolitano de Guarujá vai mudar o perfil dos turistas que vão a Santos para cruzeiros. “Hoje, a maior parte dos passageiros embarca a partir do Sudeste por uma questão de facilidade de acesso. Com maior conectividade aérea, Santos passa a disputar passageiros de outras regiões do Brasil e, futuramente, até de mercados internacionais”, afirma. Selma argumenta que isso amplia a diversidade do público, aumenta a permanência média na Baixada Santista e fortalece as operações de pré e pós-cruzeiro, gerando mais impacto econômico para o destino. “Com maior conectividade aérea, cresce a possibilidade de atrair passageiros do Norte, do Nordeste, do Centro-Oeste e de mercados internacionais”, detalha. “Não se trata apenas de aumentar o número de passageiros, mas de ampliar o alcance geográfico e a diversidade dos mercados atendidos”, emenda. Impacto a longo prazo O presidente da Associação dos Profissionais de Turismo da Baixada Santista (APT), Eduardo Silveira, lembra que muitos destinos turísticos pelo Brasil buscam o diferencial de ter um aeroporto, porque estar conectado pelo ar é abrir um caminho de grande potencial. Ele acredita que essa mudança trará um impacto de longo prazo. “O impacto mais direto será na demanda da aviação executiva. No caso da aviação regular, vamos depender inicialmente de as companhias aéreas criarem essa rota diária ou semanal e irem aumentando a malha aérea conforme a demanda”, projeta. Na visão de Silveira, a temporada de cruzeiros surge nesse caminho como um diferencial. “Teremos a capilaridade para alcançar rapidamente um número expressivo de turistas. Por isso, é necessário pensar em todo o trajeto, do aeroporto do Guarujá até o terminal de passageiros, mesmo antes da construção do túnel Santos-Guarujá”. Falta documentação A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou que ainda não foi apresentada a documentação necessária no processo de homologação do Aeroporto Civil Metropolitano de Guarujá. “O processo foi aberto em 2022, mas passou por seguidos arquivamentos em razão da falta de envio dos documentos obrigatórios pelo demandante. Quando as providências necessárias forem adotadas pelo operador aeroportuário, a Anac dará prosseguimento ao processo de inscrição cadastral do aeroporto”, completa. A Prefeitura de Guarujá explicou que a documentação técnica está em execução e, após a finalização, será entregue aos órgãos responsáveis para a homologação do aeroporto. “Os arquivamentos que ocorreram advêm de gestões anteriores, sendo dada continuidade ao processo na atual gestão. Atualmente, o operador aeroportuário é a Base Aérea de Santos, então, neste momento, está ocorrendo a migração de um aeroporto militar para um civil. Após esse processo, o Município de Guarujá será o operador aeroportuário”. Segundo a Administração Municipal, está em execução o Plano Diretor Aeroportuário, realizado pela Infraero, além da conclusão dos estudos dos planos de zoneamento aéreo, sendo eles o Plano Básico de Zona de Proteção de Aeródromo e o Plano de Zona de Proteção de Auxílios à Navegação Aérea. Ainda será entregue o Indicador de Trajetória de Aproximação de Precisão, que envolve geometria de instalação, cálculos ópticos de feixes de luz e processos de homologação aeronáutica. “As documentações técnicas serão entregues pela Infraero e pela Surface Engenharia e Topografia, com previsão até o final deste ano”, finaliza. Túnel aqui e lá Outra semelhança envolvendo as relações entre Santos-Guarujá e Itajaí- Navegantes está na construção de um túnel imerso. Enquanto na Baixada Santista as obras estão previstas para começar no próximo ano, em Santa Catarina está sendo feito o processo de seleção da empresa que fará a modelagem da parceria público-privada (PPP). A ideia é que o leilão seja lançado em 2028. Estima-se que entre 2034 e 2035 o túnel, com 250 metros de extensão, esteja em operação. A iniciativa é um dos componentes do Projeto Integrado de Mobilidade Sustentável (Promobis), ação do Consórcio Intermunicipal Multifinalitário da Associação dos Municípios da Região da Foz do Rio Itajaí, composto por 11 municípios, entre eles Itajaí e Navegantes. “O Governo de Santa Catarina é um parceiro institucional importante deste projeto e ficará responsável pela licitação da PPP do túnel, nos moldes do túnel entre Santos e Guarujá. O Governo Federal é o garantidor da operação de crédito, ou seja, do financiamento internacional do Banco Mundial, que também tem nos fornecido apoio técnico”, completa o coordenador do Promobis, Rafael Albuquerque.