Idealizado pelo presidente da entidade, Fábio Fontes, acervo de miniaturas de embarcações é um santuário da memória marítima (Alexsander Ferraz/ AT) Desde as rotas coloniais até a operação diária do maior porto do Hemisfério Sul, Santos construiu sua identidade em torno do mar. Na sede da Praticagem, na Ponta da Praia, a história naval é narrada em escala reduzida, mas com um rigor de detalhes monumental. Idealizado pelo presidente da entidade, Fábio Mello Fontes, de 86 anos, o acervo de miniaturas de navios transcende a mera coleção para se tornar um santuário da memória marítima mundial, sob a curadoria de quem dedicou a vida inteira manobrando esses gigantes de aço. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! Fontes, referência nacional em pioneirismo na praticagem e homenageado recentemente com seu nome na Ponte dos Práticos, recebeu a Reportagem de A Tribuna para mostrar o seu acervo. Logo no começo da visita, ele conta que cada peça tem uma razão de estar ali e uma placa explicativa, feita sob medida. “Aqui não tem nenhum barquinho por acaso. Não existe isso de ser só bonito”, resume. O fio condutor do acervo é o plastimodelismo, técnica que utiliza kits plásticos em escalas matematicamente rigorosas, permitindo alto nível de detalhamento mesmo em peças relativamente compactas. São centenas de componentes minúsculos, muitas vezes combinados com partes metálicas em latão, madeira e resina, montados manualmente ao longo de meses e, às vezes, mais de um ano. “Eu tenho esse hobby desde criança. Sempre gostei de navio e das miniaturas, das maquetes. [...] Comecei com umas maquetes na minha casa, mas chegou num ponto que a minha mulher ficou brava. Ela dizia: ‘já não tem mais onde botar maquete’. Como tem espaço aqui (na sede da Praticagem), comecei a decorar com um assunto que é muito pertinente à nossa atividade”, conta o presidente. A coleção passeia por diferentes épocas e bandeiras. Há o encouraçado (blindado) japonês Yamato, símbolo do poderio naval nipônico e afundado após um ataque massivo de aviões americanos; o lendário Bismarck alemão; destroyers russos; corvetas canadenses; navios cargueiros do início do século 20 e até veleiros do século 18. Obras montadas manualmente misturam partes plásticas e metálicas, madeira e resina (Alexsander Ferraz/AT) Entre os modelos mais emblemáticos está o Titanic. “Ele tem fã clube no mundo inteiro e uma aura de misticismo”, comenta o colecionador. Ao lado da miniatura, uma réplica do sino remete aos rituais cotidianos do navio em 1912, quando um taifeiro (trabalhador da cozinha) percorria os corredores anunciando o almoço. Poucos passos adiante, um diorama do encouraçado americano USS Missouri reproduz, com rigor quase cinematográfico, a assinatura da rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial. São mais de 1,5 mil tripulantes em miniatura, pintados um a um com pinça e lente de aumento, todos na mesma escala do navio – tudo congelado no instante em que a guerra terminou. “Ninguém tem isso aqui na América Latina”, enfatiza Fontes, classificando a obra como a mais importante do acervo. A exclusividade exigiu paciência: as figuras foram localizadas e importadas da China. “Tivemos que garimpar pela internet para encontrar, comprar e mandar vir para o Brasil. Tudo isso aqui tem vários anos de pesquisa e de esforço”. Enquanto indica os modelos, Fontes aponta para alguns navios que já manobrou pessoalmente. Entre eles, destaca uma peça confeccionada em alto-mar por um marinheiro filipino, cuja habilidade o levou a trabalhar exclusivamente na criação de réplicas a bordo. Restaurada, a peça é hoje um dos destaques da coleção. O fio condutor do acervo é o plastimodelismo, técnica que utiliza kits plásticos em escalas matematicamente rigorosas (Alexsander Ferraz/AT) A história ganha contornos solenes diante do USS New York (LPD-21), navio cuja proa foi construída com aço reaproveitado dos escombros do 11 de Setembro. “A resistência forjada pelo sacrifício. Nunca esquecer”, cita, lembrando que cada navio de guerra carrega um lema. Para o presidente, a frase parece definir o próprio acervo: um trabalho de resistência e memória que imortaliza sua trajetória marítima. Ao todo, Fontes estima possuir entre 60 e 70 miniaturas, distribuídas entre a sede da Praticagem, sua residência e outros imóveis. O acervo é fruto do trabalho de ao menos quatro maquetistas especializados, os quais o colecionador define como “especialistas virtuosos no assunto”. Mais do que um acervo pessoal, a coleção é pensada como legado. Para ele, preservar a história naval em Santos é uma consequência natural de quem dedicou a vida à navegação. “Faço isso por amor ao hobby, por gostar da minha profissão. Eu amo de paixão essa casa. Aqui eu devo tudo o que tenho. Estou aqui desde os 29 anos de idade”, diz, sem esconder o orgulho. Ainda não há previsão de abrir a coleção para visitação pública.