[[legacy_image_307197]] Um grupo de umbandistas do Terreiro de Umbanda Zeferina D'Angola, da Zona Leste de São Paulo, afirma ter sido vítima de intolerância religiosa, racismo e homofobia enquanto realizava ritual religioso em uma área próxima à Cachoeira Gleba, na Estrada do Paratinga, no Samaritá, Área Continental de São Vicente, na manhã do último domingo (22). O agressor seria um artesão de 53 anos, que tem um sítio no local, ao lado da linha férrea. Assista ao vídeo mais abaixo. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com a mãe de santo do terreiro, uma mulher de 39 anos, ela desceu ao litoral com mais cinco filhos de santo para realizar um ritual para iniciação. Como parte do rito, eles deixariam um Ebô (oferenda) para Ogum (Orixá) em uma linha do trem, e foi neste momento que a briga começou. Ela conta que eles pararam no local a fim de esperar o trem passar, e que outras pessoas estavam aguardando também. Por isso, iriam esperar que as pessoas saíssem para ver como dariam continuidade ao ritual. “No momento em que descemos do carro para ver como estava o local, ele veio e nos abordou, dizendo que as nossas oferendas eram lixo, que tínhamos que jogar fora e que ali não era um local propício para isso. Dizendo que se fizéssemos, ele iria retirar e impedir a realização”, conta O grupo carregava pratos com bolinhos de farinha, conhecidos na religião como acaçás. Segundo os religiosos da Umbanda, o homem, ao ver os alimentos, disse que eles trariam ratos para o local e deixariam sujeira. “Dizer que estávamos fazendo uma coisa errada é um tanto estranho para nós. Principalmente porque o que estávamos fazendo, para nós, é sagrado. Então, quando ele diz que é lixo, já nos ofende demais” A mãe de santo afirma não ter visto casas pelo local, mas que havia várias ‘carcaças de trem’ e muita sucata. Ela também diz que no local havia guardas patrimoniais da ferrovia, mas que não participaram do ocorrido. VídeoNo vídeo é possível ver o artesão fazendo apontamentos políticos, bem como dizendo para os umbandistas que eles tinham ido ao local levar restos de comida para “a porta dos outros”. O homem se aproxima do grupo, mas uma mulher (identificada como esposa do artesão), entra na frente e diz para o grupo realizar as oferendas. Posteriormente, é possível ver um dos filhos de santo ficando “cara a cara” com o artesão e dizendo que não deixaria ele se aproximar da mãe de santo. O artesão então ameaça o homem com “você não faz ideia, vai se machucar”. O filho de santo, ainda diz que o homem poderia bater nele, mas que se "ferraria" porque estava sendo ameaçado. O artesão então dá uma cabeçada no filho de santo e o chama para ‘entrar em uma com ele’. IntolerânciaA mãe de santo diz que as ofensas contra os adeptos de religiões de matriz africana são comuns, mas que nunca vivenciou algo como o do último domingo. “Já tivemos pessoas de outras religiões que vieram até a nossa porta dizer que estávamos plantando a maldade, já tivemos filhos de santo que foram parados na rua por estarem usando guias - uma espécie de colar utilizado na umbanda - (...). Ocorrem micro ofensas, até que no último domingo aconteceu ‘o que aconteceu’”, conta. Após a briga, a mãe de santo diz que os filhos se ajudaram e cuidaram do irmão que havia sido agredido, e depois retornaram ao ritual. “A gente entendeu que se nos calássemos, estaríamos dando voz a um opressor”. Ela também afirma que não foi apenas o seu terreiro ou grupo que foi violentado, esta foi uma violência contra todos os que professam uma fé ligada a religiões de matriz africana. “Entendemos que toda a comunidade sofreu um ataque”. Tanto a mãe, quanto os filhos de santo registraram boletim de ocorrência contra o artesão. “A gente entende que a ação dele foi contra toda e qualquer pessoa que estivesse ali praticando um ritual. Toda e qualquer pessoa de religiões de matriz africana”, conclui. Uma filha de santo, de 26 anos, que também estava no local diz que foi tudo muito rápido. Para ela é doloroso viver em uma sociedade em que a manifestação do seu sagrado pode levar à morte e que se sente violentada. “A sensação é de que querem nos silenciar. Nos exterminar. Nos trancafiar, de novo. Isso dói demais. É um nó na garganta que não desata. São noites sem dormir. Em um dia, ao verem nossas guias, dizem ‘vocês vão para o inferno’, no outro, nos chamam nosso Ebó de lixo e ordenam que o ‘joguemos’ na porta da nossa casa e nos dão cabeçadas”, diz. TerreiroO pai de santo do terreiro, de 33 anos, entende que o ataque à sua religião também é racista. Que a intolerância religiosa, acaba sendo comum no dia a dia, mas que nenhum membro do terreiro havia passado por algo semelhante. Ele também diz, que os membros do terreiro já vieram antes à região, mas nunca tiveram problemas. “Vamos lá com todo o respeito e saímos com todo o respeito”. O homem ainda conta que é muito mais que uma religião, mas uma família que escolheram participar. “Não é só para prática cultural, mas a gente convive junto como uma família. Temos esse tratamento de estar junto, então, isso tudo mexe com essa estrutura familiar que a gente tem”, conta. ArtesãoA Reportagem entrou em contato com o artesão envolvido na briga, que disse que o vídeo divulgado por uma filha de santo é editado e equivocado. Ele afirma que o grupo estava próximo à porta de seu sítio e que não era uma área adequada para realizar o ritual, pois fazia parte de um território particular de uma empresa de logística. O homem fala que foi uma briga comum, sem relação com intolerância religiosa. “Eu falei pra eles ‘posso pedir um favor pra vocês?’. Na hora, eu usei a palavra errada, falei macumba. Não pensei na hora de falar, deveria ter falado oferenda. Eu falei pra eles assim ‘não faz macumba aqui não. Primeiro que não pode, é uma lei, não pode’”. Na hora, todos eles ligaram o celular, e começaram a gritar ‘racista, fascista’”, garante. Ele ainda conta que durante a briga recebeu ameaças que diziam que era para ele esperar sete dias. O artesão diz que pediu para que o filho de santo se afastasse. “Eu falei, ‘cara, você vai se machucar, se afasta’ (...). Então, na hora que eu dei a cabeçada nele, na verdade, eu fiz por defesa”, explica. O artesão afirma que não é uma pessoa preconceituosa e que sempre está disposto a fazer o bem. “Eles botaram o vídeo de uma forma que quem vê pensa que eu sou um monstro. E longe disso, eu não sou nada disso”, se defende. Ele diz que vêm sofrendo ameaças constantes depois da divulgação do vídeo e que desde o ocorrido procurou a polícia e deve entrar com medidas judiciais.