À esquerda, educadora sendo agredida pela mãe de um ex-aluno, em São Vicente. À direita, professora de 62 anos mostra os hematomas em seu corpo após ser empurrada ao chão por um estudante, em Cubatão (Reprodução) Três professoras foram brutalmente agredidas na Baixada Santista apenas no mês de setembro. Duas educadoras foram atacadas por mães de alunos - em Guarujá e São Vicente - e a terceira por um aluno, em Cubatão. Chama a atenção o fato de todas as vítimas serem mulheres. Devido ao abalo emocional sofrido, elas não têm coragem de voltar às salas de aula. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Relembre os casos No último dia 10, a professora Amanda Monteiro, de 39 anos, foi atacada pela mãe de uma aluna do 2º ano do Ensino Fundamental I, da Escola Municipal Valéria Cristina Vieira da Cruz Silva, no Bairro Morrinhos, em Guarujá. Ela estava no ponto de ônibus em frente ao colégio, logo após o fim do expediente, quando foi surpreendida. Para A Tribuna, na época, a vítima contou que a agressora a agarrou pelas costas, puxou o seu cabelo e desferiu-lhe socos. “Estava sangrando muito pelo nariz, na boca e orelha também. Machucou bastante a minha cabeça. Estou sem saber o que vai ser daqui para frente”, declarou. Abalada, ela disse também que não tem coragem de voltar a lecionar. “A sala de aula nunca foi um ambiente fácil. Está cada vez mais difícil, só quem está dentro é que sabe. Jamais imaginei que iria passar por isso, então, meu psicológico está muito abalado. Eu não me vejo mais conseguindo encarar uma sala de aula”, relatou. Cubatão No dia 24, um aluno de 15 anos empurrou uma professora de 62 no chão após ser expulso da sala de aula durante a aplicação de uma prova. O caso aconteceu na Escola Estadual Waldomiro Mariani, que fica na Rua Orlando Terras, no Bairro Jardim Real, quando a educadora aplicava o teste para uma turma do oitavo ano e ele conversava com outro estudante. A educadora contou que evitava contatos com o estudante por conhecer o seu temperamento e relatou que, após ser empurrada, caiu com o rosto no chão e bateu o corpo em uma lixeira, ficando com diversos hematomas. Aos gritos de socorro, um inspetor entrou, e o adolescente ainda ameaçou socar a professora. “Estou sofrendo de ansiedade e com medo de voltar ao trabalho. Passei pelo psiquiatra, e estou tomando um remédio antidepressivo. Vou iniciar consultas com o psicólogo na sexta-feira (27). (Estou) muito ansiosa”, relatou a professora à epoca. São Vicente Apenas seis dias depois, no dia 30, a mãe de um ex-aluno da Escola Municipal de Educação Infantil (EMEI) Antônio Pacífico, em São Vicente, desferiu um soco no rosto de uma professora. O fato ocorreu entre a Rua Anadir Dias de Carvalho e Avenida Salgado Filho, no Bairro Jóquei Clube, no entorno da instituição de ensino, por volta de 12h30, horário de saída dos estudantes. A vítima registrou um boletim de ocorrência no 2º Distrito Policial de São Vicente. Segundo a Prefeitura de São Vicente, a equipe da Guarda Civil Municipal que atendeu a ocorrência constatou, também, que alguns veículos estacionados haviam sido vandalizados. A educadora já vinha sofrendo ameaças da agressora desde o dia 10 de setembro, pelo menos. Nesses 20 dias, a vítima registrou dois boletins de ocorrência por ameaça contra a mulher na Polícia Civil. ‘A banalização da violência’ Consultada sobre os casos, a psicóloga Luciana França afirma, em primeira análise, que se faz necessário refletir sobre “como a violência tem sido banalizada não apenas na escola, mas na sociedade em geral, como, por exemplo, a violência no trânsito e nos debates políticos”. Luciana diz que “situações de violência trazem impactos emocionais que podem variar em duração e intensidade, tanto de acordo com o tipo de violência sofrida quanto com a história de vida e recursos de enfrentamento da pessoa que sofreu a agressão”. A especialista observa ainda que, “além da agressão sofrida, a sensação de injustiça, de não se sentir segura no ambiente de trabalho e um histórico de sofrimento emocional anterior podem agravar ainda mais o impacto do evento. O suporte psicológico é muito importante como recurso de apoio”. Medo de voltar Luciana avalia que “o medo de voltar a uma sala de aula pode vir pela quebra de confiança da ideia de um espaço de respeito e segurança. O estresse pós-traumático, por exemplo, pode gerar lembranças ou pesadelos com imagens da agressão sofrida, ansiedade e estado de alerta constantes como forma de tentar ‘prever’ se uma nova agressão acontecerá, e isso independe da vontade da pessoa”. A psicóloga aponta que “um episódio como esse pode desencadear sintomas de estresse (estado de alerta, dificuldade para se concentrar, coração acelerado só de pensar em retornar ao local); de ansiedade (taquicardia, dificuldade de concentração, insônia) e de depressão (desânimo, desesperança e perda de sentido naquilo que faz); perda de apetite, dores de estômago, entre outros. Luciana sugere que “o poder público pode oferecer o suporte necessário, psicológico e psiquiátrico, se for o caso, não apenas pensando no retorno destas profissionais ao trabalho, mas também na saúde mental como um todo, pois um sofrimento desta gravidade pode impactar também a vida fora do ambiente de trabalho, como por exemplo, um medo de sair de casa e ansiedade generalizada”.