Antônia morreu aos 21 anos após um aborto clandestino (Arquivo AT) Entre mitos, contos e lendas que se mantêm por gerações, uma história de terror é bastante conhecida e lembrada em Santos: o sanduíche de carne humana que era vendido no Canal 4. Essa falácia surge de um caso policial que movimentou a cidade em 1987. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na época, uma perna completa e uma coxa de ser humano foram encontradas dentro de um freezer, ao lado de produtos alimentícios para confecção de sanduíches de um carrinho que ficava na orla da praia de Santos, próximo ao Canal 4 e à Igreja do Embaré - o local conhecido como CPE. A dona do negócio estava envolvida no crime, entretanto não há confirmação de que a carne humana era utilizada nas comidas vendidas por ela. O caso Era uma manhã de terça-feira comum para um morador do Morro José Menino. O dia era 6 de outubro de 1987. O homem saiu para comprar pão quando encontrou três sacolas plásticas próximo de sua casa. Curioso, o santista abriu uma delas e se deparou com o seio de uma mulher morta. Uma viartura foi até o local e constatou imediatamente que as três sacolas tinham partes de um corpo esquartejado. Até então, a vítima era uma mulher desconhecida. Os moradores do morro se aglomeraram no entorno da cena do crime, inclusive atrapalhando a perícia. Consta no primeiro registro do caso, feito por A Tribuna, que mães levaram seus filhos - crianças - para assistirem à trágica cena. Um morador disse à polícia que tinha visto um táxi na noite anterior, mas apenas isso. Uma foto sem censura da cabeça da vítima foi publicada na editoria de polícia de A Tribuna com a seguinte indagação: “Quem conhece essa mulher?” Foi o suficiente para que uma ligação surgisse no 2º Distrito Policial (DP) de Santos solucionando o mistério: era a auxiliar de contabilidade Antônia de Lourdes Basílio, de 21 anos, natural de Guariba (SP). Em pouco menos de 24 horas após o encontro das três sacolas, parte do crime foi solucionada com o encontro de Maria da Paz Cavalcante, de 33 anos, na época, conhecida por Mara. A criminosa fazia abortos clandestinos e Antônia estaria grávida de um mês e meio quando a procurou para interromper a gestação. O aborto aconteceu no dia 3 de outubro e, desde então, a auxiliar de contabilidade começou a passar mal até que, no dia 4, retornou para a casa de Maria da Paz. Com medo de ser necessário ir ao médico, a criminosa indicou que a jovem tomasse um chá quando, repentinamente, ela morreu. De acordo com o delegado da Delegacia Seccional de Santos, Rubens Barazal (que na época cuidava do 2º DP), a causa da morte foi uma hemorragia interna, no útero de Antônia. Essa informação foi levantada pelo Instituto Médico Legal (IML) durante as investigações, por conta do encontro do tórax da vítima na sacola. “Nós já sabíamos a causa morte. Isso foi importante, porque havia ocorrido uma perfuração no útero dela e o médico viu que havia resquícios do aborto. Como ficou o tronco, o médico concluiu que ela sofreu um aborto e houve uma perfuração que causou uma hemorragia forte e ela morreu na casa dessa mulher”, conta o delegado. Depois da morte da jovem, Maria da Paz arquitetou o plano de cortar o corpo em partes e jogar em algum lugar distante. Ela contou com a ajuda da amiga Maria Bernadete da Silva, de 38 anos na época, que já tinha trabalhado como açougueira e auxiliou no esquartejamento. O corte do corpo de Antônia aconteceu na frente da filha de 1 ano de Maria Bernadete, dentro de um banheiro. Em seguida, Maria da Paz chamou um taxista de confiança - o Goiabão - que a ajudou a carregar as sacolas, mesmo sem saber seu conteúdo, para o carro até que elas ‘despejassem’ no Morro José Menino. Ainda faltava uma peça para completar o quebra-cabeça: partes do corpo de Antônia não haviam sido encontradas - uma das coxas e uma das pernas por completo. Apenas quando Maria Bernadete assumiu sua participação no crime que os membros foram encontrados dentro de um freezer que armazenava também alimentos de seu comércio. Maria da Paz (à esquerda) e Maria Bernadete (à direita) foram presas (Arquivo AT) Surge a lenda O caso ganhou repercussão e a população santista acompanhou vorazmente cada desenrolar. Questionamentos surgiram sobre o que Maria Bernadete pretendia fazer com a carne humana armazenada em seu freezer dias após já ter descartado o restante do corpo. Como já tinha sido açougueira anteriormente, Maria Bernadete poderia ter a intenção de utilizar a carne do corpo da jovem para produzir alimentos. Essa versão nunca foi comprovada e sequer houve tempo para que fizesse isso. Os alimentos utilizados na confecção dos lanches estavam fechados e devidamente embalados, segundo Barazal. Além disso, os membros de Antônia estavam inteiros e sem sinal de qualquer corte para moer. “Na realidade, essa situação nunca ficou absolutamente comprovada. Faz apenas parte do imaginário coletivo, pois, depois, nós completamos o corpo e ele estava inteiro”, comenta Barazal. Resolvido em dias A investigação do caso foi rápida e, em cerca de quatro dias, o caso já havia sido solucionado. As duas Marias, envolvidas no crime, disseram que iriam se desfazer do restante do corpo posteriormente. Não citaram em momento algum intenção de transformá-lo em alimento. “Ninguém sabe o que estava nas cabeças delas. Mas juntou o fato de ter um ‘carrinho’ com o fato de haver muito alimento na geladeira junto das pernas da moça. Lembro de, na época, o juiz ter comentado que achava que ela iria fazer”, conclui.