Criminosos morreram no local do crime em São Vicente (à esquerda); um dos PMs que efetuou os disparos é o mesmo que matou jovem negro alvejado pelas costas (à direita) (Reprodução/Vivendo na Baixada e Reprodução) O policial militar (PM) Vinicius de Lima Britto, de 24 anos, que matou um jovem negro com 11 tiros pelas costas em frente a um mercado na capital paulista no início de novembro, era um dos PMs à paisana que reagiu a uma tentativa de assalto e matou dois criminosos no fim do ano passado em São Vicente, no litoral de São Paulo. Um dos assaltantes mortos era o assassino do empresário Thiago Nasser. O PM Britto é investigado pelo episódio e foi preso pelo homicídio em São Paulo na manhã desta sexta-feira (6), conforme os advogados de defesa do militar, Victor Henriques Varvello e Carolina Marques Mendes. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com a defesa do PM, na quinta-feira (5) o militar foi conduzido para prestar depoimento sobre o caso da capital em seu batalhão. Lá, ele foi suspenso da corporação e passou pelo exame de corpo de delito. "Hoje é lido os termos da prisão e trâmites de desligamento e suspensão da força policial, em seguida ele é detido, algemado e encaminhado ao Presídio da Polícia Militar Romão Gomes", diz Varvello para A Tribuna. Em nota sobre o envolvimento de Britto no caso de São Vicente, a Secretaria de Segurança Pública Estadual de São Paulo (SSP-SP) informou para A Tribuna que está em andamento um inquérito pela DIG de Praia Grande e as investigações estão em segredo de Justiça. O caso aconteceu na madrugada de 18 de dezembro de 2023, quando Britto e um colega, também militar, foram alvos de uma tentativa de assalto no cruzamento entre as ruas 11 de junho e Messia Assú no bairro Itararé, em São Vicente. A dupla de assaltantes tentava roubar a motocicleta que estava com os PMs à paisana. Segundo o boletim de ocorrência obtido por A Tribuna na época, os dois militares estavam parados no cruzamento para decidir aonde iriam. Cada um estava com uma moto e havia uma mulher na garupa de cada veículo. Os criminosos chegaram também em um uma motocicleta, porém sem placa, e anunciaram o assalto à mão armada. Diante da situação, Britto e o colega sacaram suas respectivas armas e atiraram contra os criminosos. Um deles caiu no local e o outro tentou sair correndo, mas caiu a cerca de 100 metros à frente. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado para atender os feridos, mas o óbito dos dois ladrões foi atestado no local. No entanto, a arma que eles teriam usado para ameaçar Vinícius, o colega militar e as duas mulheres, não foi localizada pela Polícia Militar. A mãe da vítima, Patrícia Varvello Nasser, e a vítima fatal, Thiago Varvello Nasser (Ted Sartori/AT e Reprodução/Redes Sociais) Ladrão morto era procurado por latrocínio A reportagem de A Tribuna apurou que um dos criminosos mortos em 18 de dezembro por Britto e o colega era Matheus Quintino dos Santos, apontado como o autor dos disparos que matou um empresário em Santos em fevereiro de 2023. Thiago Varvello Nasser, de 24 anos, trabalhava em uma loja importadora de celulares na Avenida Conselheiro Nébias, na Encruzilhada, quando foi morto por Quintino dos Santos. A loja localizada no 10º andar de um prédio comercial só atendia clientes com hora marcada. Por isso, Quintino dos Santos agendou um horário com Thiago Nasser, que era um dos proprietários do comércio, e teve a entrada liberada no edifício pela própria vítima. Ele entrou na portaria com boné e máscara facial. Após entrar na loja de celulares, ele atirou em Thiago Nasser e no irmão dele, Gustavo Nasser, que também era sócio da loja. O empresário de 24 anos foi baleado no peito e o irmão, de 23, foi atingido na virilha e encaminhado para cirurgia no pronto-socorro da Santa Casa de Santos. Dez meses depois do ocorrido, após a morte do criminoso em São Vicente, a mãe de Thiago, Patrícia Varvello Nasser, foi comunicada sobre o episódio e compareceu à Polícia Civil acompanhada do advogado. "Meu filho era uma pessoa boa, todos o conheciam em Santos. Nada vai tirar essa dor e essa ferida do peito, mas, pra mim, é um alívio. Nenhuma outra mãe vai passar o que estou passando, pelo menos pela mão desse menino", desabafou Patrícia para A Tribuna. Jovem é executado no estacionamento de mercado após furtar pacotes de sabão (Reprodução) PM acusado de execução de jovem negro O PM Britto responde agora pela execução de Gabriel Renan da Silva Soares, de 26 anos, morto a tiros em frente a um mercado no bairro Jardim Prudência, na zona Sul de São Paulo. O jovem negro, acusado de roubar produtos de limpeza, foi morto na noite de 3 de novembro. Imagens das câmeras de segurança da loja foram divulgadas pelo tio da vítima na segunda-feira (2) e revelaram que o rapaz foi alvejado pelas costas. Nas imagens, o PM Britto, que estava pagando uma compra no caixa do supermercado, sacou a arma da cintura e atirou várias vezes pelas costas de Gabriel. Segundo O Globo, no boletim de ocorrência constam 11 disparos e, no registro, o policial alegou legítima defesa, dizendo que a vítima fez menção de estar armada. Afastado e denunciado: Um mês após o crime, quando as imagens do circuito de segurança da loja vieram à tona, o PM foi afastado de suas atividades. O g1 noticiou que o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) pediu a Justiça a prisão preventiva de Britto por homicídio qualificado, considerando que os disparos foram feitos contra as costas de Gabriel, que estava desarmado e indefeso. “Indicando, portanto, dolo exacerbado e brutalidade na prática do delito por ele intentado”, diz o MP-SP. ‘Descontrole emocional’: Segundo confirmado pelo g1, o PM Britto foi reprovado no exame psicológico da Polícia Militar em 2021, quando tentou ingressar na corporação pela primeira vez, por apresentar “inadequação” a três dos critérios exigidos no perfil psicológico para o cargo de soldado: relacionamento interpessoal; capacidade de liderança e controle emocional. Segundo a SSP-SP, o caso da capital segue sob investigação pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). “As imagens captadas foram juntadas aos autos e estão sendo analisadas para auxiliar na apuração dos fatos. Havendo responsabilização criminal do policial militar, medidas administrativas serão adotadas, incluindo processo disciplinar que poderá resultar na sua exclusão da Instituição”, diz a nota. A defesa do PM também se pronunciou sobre este caso. "Em nome da advogacia, o que a gente tem a dizer nesse sentido é a fragilidade e vulnerabilidade dos policiais militares, que são expostos à pressão psicológica. Ainda mais ele, que é [do patrulhamento] tático", alega o advogado Varvello.