O grupo do PCC se aproveitava de licitações da Prefeitura de Praia Grande para cometer lavagem de dinheiro (Daniel Rodrigues/ AT) A Polícia Civil deflagrou a Operação Helmintos nesta quinta-feira (3) para desarticular um núcleo do Primeiro Comando da Capital (PCC) suspeito de exercer influência sobre atividades econômicas e políticas em Praia Grande, no litoral de São Paulo. Conforme apurado com a Polícia Civil, o grupo se aproveitava de licitações da Prefeitura da Baixada Santista para cometer lavagem de dinheiro. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na ação, dois procurados pela Justiça, apontados como integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), foram presos em prédios de alto padrão em Praia Grande. Um terceiro homem foi detido em flagrante após, segundo a Polícia Civil, tentar acobertar provas ao abandonar um celular durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão. Anderson Roberto Braghine, conhecido como Fio, e Leonildo Marinho de Andrade, o Nenê, foram presos. Alexander Miguel da Silva, o Gordão, e Ronaldo Yuzo Sekiya, o Japonês, seguem foragidos. O grupo é suspeito de movimentar cerca de R\$ 1 bilhão em um esquema de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas. O delegado da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise), Bruno Lázaro, explicou que o esquema também teria utilizado licitações para facilitar a atuação do crime organizado. “O edital saía bem rapidinho. Eles conseguiam colocar uma pessoa lá que atendia aos requisitos da Prefeitura, da licitação. Só que a própria licitação dispunha de um mecanismo que possibilitava que esse vencedor adjudicasse para um terceiro, sem sequer a Prefeitura ver quem é", explica o delegado. Bruno Lázaro cita ainda que a forma de atuação do grupo "viola totalmente a licitação" e as regras de lisura, beneficiando o crime organizado. O delegado detalhou o mecanismo de outra frente de lavagem, por meio de negócios imobiliários. “O esquema funcionava sobre três focos. Primeiro, eles faziam a lavagem de dinheiro por meio de escrituras particulares. Então, eles adquiriam valores ilícitos, compravam imóveis e colocavam esses imóveis fazendo novas negociações, valendo-se de uma escritura em que havia um terceiro, o proprietário legítimo, (um) laranja, (e) contratos particulares. (Eles) Vendiam os imóveis várias vezes como justificativa de um dinheiro de possível ilícito”. Alvo também em Guarujá O delegado seccional de Praia Grande, Archimedes Cassão Veras, afirmou que a maior parte dos mandados foi cumprida no município. “Foram por volta de 14 alvos em Praia Grande, mandados de busca. E mais quatro alvos, um no Guarujá, um em Santo André, um em São Paulo e um em Santana do Parnaíba", afirma Veras. Balanço Durante a operação, foram apreendidos três carros de alto valor, cinco caminhões, uma empilhadeira, cerca de R\$ 500 mil em espécie, barras e joias de ouro, que passarão por avaliação, além de videogame PlayStations 5, relógios de alto valor e outros itens ilícitos. A operação ocorreu após a Polícia Civil pedir à Justiça a prisão temporária dos quatro investigados, além do cumprimento de mandados de busca e apreensão e do bloqueio de contas e investimentos. Também foi determinado o sequestro de 29 imóveis vinculados aos investigados. Segundo a investigação, o esquema envolvia imóveis de luxo, empresas de fachada, como choperias, bares e restaurantes, e o domínio de ao menos quatro quiosques públicos na orla de Praia Grande. A estrutura teria sido utilizada para integrar recursos ilícitos à economia formal. As ações também ocorreram em imóveis comerciais e residenciais, empresas e endereços em Guarujá, Santo André e Santana de Parnaíba. Segundo a Polícia Civil, uma ordem judicial foi cumprida na Divisão de Licitações da Prefeitura de Praia Grande. Funções O delegado da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) de Itanhaém, Bruno Lázaro, contou para A Tribuna que Leonildo tinha a função de recolher dinheiro em espécie. “Na organização, eles conseguiam fazer as transferências. Ele transformava dinheiro em crédito em espécie para poder fazer a movimentação da organização. E o Anderson era a grande liderança, o cara que tinha os quiosques. Ele que orquestrava”. Segundo o delegado, o grupo também fazia a própria lavagem dos recursos obtidos com o tráfico. “Dentro desse núcleo celular da organização criminosa, eles faziam a autolavagem. Não terceirizavam. Eles mesmos tinham as estruturas para fazer a lavagem deles, que era o dinheiro provido do tráfico de drogas”. Conforme apurado com a Polícia Civil, Alexander Miguel da Silva, o Gordão, seria responsável por captar valores da venda de drogas em larga escala junto a outros integrantes do PCC, por meio de uma empresa “fantasma” e de imóveis por procuração. Ronaldo Yuzo Sekiya, o Japonês, é apontado como um “homem de confiança” da organização, atuando como operador financeiro ligado diretamente a Alexander. SSP Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), as buscas tiveram como objetivo apreender documentos e contratos, registros financeiros, aparelhos eletrônicos, dinheiro em espécie, armas e outros elementos que possam contribuir para o aprofundamento das apurações sobre os crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas. Ainda de acordo com a pasta, as investigações continuam para identificar outros envolvidos e esclarecer a extensão patrimonial, econômica e política do esquema. Prefeitura Em nota, a Prefeitura de Praia Grande disse que um agente da Polícia Civil esteve na Prefeitura "solicitando informações acerca de uma licitação específica para exploração de um único quiosque" situado na orla. A Prefeitura afirma que "não houve cumprimento de mandado de busca e apreensão nas dependências da Administração Municipal", e que "permanece à disposição das autoridades competentes para prestar todas as informações necessárias".