Operação Fluxo Oculto cumpre mandados de busca e apreensão em alvos de cinco estados, entre eles Santos (Divulgação/Receita Federal) O Primeiro Comando da Capital (PCC) tem sido alvo cada vez mais frequente de operações da Polícia Federal (PF), da Receita Federal e do Ministério Público (MP) no litoral de São Paulo. Na última quarta-feira (27), a Receita Federal, em parceria com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do MP-SP, deflagrou a Operação Fluxo Oculto. Ao todo, foram expedidos 59 mandados de busca e apreensão contra alvos em cinco estados, sendo dois deles em Santos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A ação representa a segunda fase da Operação Carbono Oculto, a maior já realizada contra o PCC, deflagrada há nove meses com o objetivo de desmantelar um esquema de fraudes e lavagem de dinheiro ligado à organização criminosa, especialmente por meio da infiltração da facção no setor de combustíveis. A nova etapa das investigações tem como foco seis fintechs — empresas que oferecem serviços financeiros por meio de tecnologia — e um esquema de adulteração de combustíveis com a utilização de nafta, um tipo de solvente. Além de ocultar recursos provenientes de atividades criminosas, o esquema gerava altos lucros dentro da cadeia produtiva dos combustíveis. As apurações apontam que as fintechs eram utilizadas para esconder recursos ilícitos, aproveitando falhas em mecanismos de controle e estruturas financeiras consideradas pouco transparentes. Após a primeira fase da investigação, seis dessas empresas foram identificadas como uma espécie de “banco paralelo” do PCC, movimentando mais de R\$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Carbono Oculto Em agosto do ano passado, foi deflagrada a Operação Carbono Oculto, considerada a maior já realizada contra o PCC. Ao todo, 15 alvos da investigação aparecem como sócios de 251 postos de combustíveis espalhados por diferentes estados do país, sendo 33 deles localizados na Baixada Santista. A operação teve como alvos mais de 350 pessoas físicas e jurídicas suspeitas de auxiliar a facção a ocultar recursos obtidos com atividades criminosas por meio de esquemas de lavagem de dinheiro. Segundo a decisão judicial que autorizou buscas e prisões, 15 investigados possuem ligação direta com a estrutura criminosa do PCC. O MP-SP não confirmou se os 251 postos estão formalmente sob investigação, alegando sigilo processual. Já a Receita Federal informou que mais de mil estabelecimentos já teriam sido utilizados pelo grupo criminoso, sem divulgar a lista completa. Conforme apuração do portal g1, 233 dos postos identificados ficam no Estado de São Paulo, sendo 33 na Baixada Santista: 12 em Santos, nove em Praia Grande, seis em Guarujá, três em São Vicente, dois em Cubatão e um em Mongaguá. Do total, 11 não possuem bandeira. Os demais estão vinculados às distribuidoras Ipiranga (12), Rodoil (9) e BR/Petrobras (1). Nenhuma dessas empresas foi alvo direto da investigação. Postos de Praia Grande e Guarujá Na Baixada Santista, dois postos de combustíveis se tornaram formalmente alvos da Operação Carbono Oculto: o Auto Posto Boulevard XV São Paulo, em Praia Grande, e o Auto Posto Maragogi Ltda., em Guarujá. A investigação, conduzida pelo MP-SP com apoio de órgãos estaduais e federais, apontou que aproximadamente mil postos movimentaram R\$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, com indícios de sonegação fiscal que chegam a R\$ 7,6 bilhões. Casas de jogos ilegais em Santos Segundo as investigações, empresas registradas em nomes de laranjas movimentaram cerca de R\$ 450 milhões entre 2020 e 2024. Máquinas de cartão apreendidas em casas de jogos ilegais — incluindo um estabelecimento localizado na Rua Euclides da Cunha, em Santos — estavam vinculadas a postos de combustíveis. Os valores arrecadados eram posteriormente direcionados a uma instituição de pagamento utilizada para ocultar a origem dos recursos. De acordo com o jornal O Globo, foram utilizados 267 postos de combustíveis, 98 lojas franqueadas de O Boticário, 60 motéis e diversos empreendimentos imobiliários para lavar dinheiro de origem ilícita. Parte dos investigados possuía ligação direta com integrantes do PCC. A fintech apontada pelas autoridades como peça central do esquema é o BK Bank, responsável por movimentar recursos provenientes de jogos ilegais e da comercialização de combustíveis adulterados. Ao todo, foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão em cidades como São Paulo, Santo André, Barueri, Bertioga, Campos do Jordão e Osasco. As investigações também apontaram que, entre 2020 e 2024, 98 lojas franqueadas de O Boticário, ligadas a 21 CNPJs, movimentaram aproximadamente R\$ 1 bilhão, mas emitiram apenas R\$ 550 milhões em notas fiscais. Durante coletiva de imprensa, o Ministério Público ressaltou que o Grupo Boticário não possui qualquer relação com o esquema investigado e que as acusações se restringem a franqueados específicos. Jogos de azar, hotéis e motéis A Operação Spare, deflagrada em 25 de setembro, investiga a exploração de jogos de azar, o comércio de combustíveis adulterados e a lavagem de dinheiro por meio de fintechs supostamente utilizadas pelo PCC. A investigação identificou 60 empresas do setor hoteleiro envolvidas no esquema, incluindo dois estabelecimentos localizados na Baixada Santista. Segundo o portal Metrópoles, esses empreendimentos teriam sido utilizados para lavar dinheiro em um esquema bilionário que conecta integrantes da facção à região da Faria Lima, na capital paulista. A Operação Spare é um desdobramento da Carbono Oculto, que revelou a atuação do PCC em fintechs ligadas ao sistema financeiro. A Receita Federal apontou que recursos de origem ilícita eram inseridos no sistema formal por meio de empresas de fachada. Documentos obtidos por A Tribuna mostram transferências destinadas ao BK Bank, fintech investigada pelas autoridades, realizadas por empresas do setor hoteleiro que mantinham contabilidade paralela para dificultar o rastreamento dos valores.