Vários casos associados ao PCC aconteceram recentemente em Praia Grande, Santos e pela Baixada Santista (Alexsander Ferraz/ AT, Daniel Rodrigues/ AT e Reprodução Polícia Civil) O Primeiro Comando da Capital (PCC) tem sido alvo de investigações e operações que apontam sua atuação diversificada na Baixada Santista, no litoral de São Paulo. Além do tráfico de drogas, as apurações envolvem lavagem de dinheiro, infiltração na política, participação em atividades econômicas e uso de empresas para movimentar recursos ilícitos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em diferentes frentes de investigação, operações realizadas entre 2025 e setembro de 2026 resultaram em prisões e revelaram conexões entre integrantes da facção, empresários, políticos e advogados. Praia Grande ficou no centro dessas apurações em setembro deste ano, com investigações sobre financiamento político e lavagem de dinheiro estimada em R\$ 1 bilhão. O cenário também reúne casos anteriores, como o assassinato do ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo Ruy Ferraz Fontes, em setembro de 2025, e operações que investigam a movimentação de recursos por meio de postos de combustíveis, fintechs e empreendimentos comerciais. Infiltração na política Em 17 de setembro deste ano, Danilo Morgado (PL), ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e candidato a deputado estadual nas eleições deste ano, que ficou como suplente, foi preso durante a Operação Vectura Corrupta. A investigação apura possíveis ligações do PCC com o setor de transporte coletivo e o poder público em São Paulo, além de conexões com empresários, políticos e advogados. Segundo as apurações, há indícios de que a facção tenha financiado a campanha de Morgado à Prefeitura de Praia Grande em 2024. A operação também investiga o possível uso de empresas de ônibus para lavagem de dinheiro e financiamento de campanhas políticas. A prisão de Danilo Morgado ocorreu durante uma nova etapa das investigações sobre a atuação do grupo criminoso. Na Baixada Santista, outros investigados também foram presos. Operação apura lavagem de R\$ 1 bilhão Antes da prisão de Morgado, em 3 de setembro, a Polícia Civil deflagrou a Operação Helmintos, que teve como alvo um núcleo ligado ao PCC suspeito de exercer influência sobre atividades econômicas e políticas em Praia Grande. A investigação apura um possível esquema de lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de drogas, com movimentações estimadas em cerca de R\$ 1 bilhão. As suspeitas também envolvem o uso de imóveis de alto padrão, empresas e estabelecimentos comerciais para movimentar e ocultar recursos. Durante a operação, dois procurados pela Justiça foram localizados em prédios de alto padrão no município da Baixada Santista. Um terceiro homem foi preso em flagrante após, segundo a Polícia Civil, tentar abandonar um celular durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão. Entre os investigados estão Anderson Roberto Braghine, conhecido como Fio, e Leonildo Marinho de Andrade, o Nenê, que foram presos. Alexander Miguel da Silva, o Gordão, e Ronaldo Yuzo Sekiya, conhecido como Japonês, permaneceram foragidos. As investigações tiveram origem em apurações conduzidas pela Polícia Civil de Itanhaém após prisões de integrantes e lideranças do PCC no Litoral Sul de São Paulo, entre eles membro conhecido como Pandora. Segundo o delegado seccional de Itanhaém, Archimedes Cassão Veras, o avanço das apurações permitiu identificar um núcleo da facção voltado à movimentação e à ocultação de recursos financeiros. A Operação Helmintos também alcançou pessoas ligadas ao núcleo familiar de Danilo Morgado. Prisão repercute no cenário político de Santos As investigações sobre possíveis relações entre o PCC, empresários, políticos e advogados também tiveram consequências no cenário partidário de Santos. Após a prisão de Edson Antonio de Souza, conhecido como Peru, a direção provisória do Solidariedade no município foi destituída. Peru presidia o grupo, e a decisão foi comunicada por Rogelio Salgado, secretário estadual de Relações Institucionais da sigla. Segundo Salgado, o afastamento foi decidido pela comissão de ética do partido para preservar a legenda enquanto as investigações avançam. Ele também ressaltou que o dirigente tem direito à presunção de inocência. Edson Peru e Danilo Morgado passaram por audiências de custódia e permaneceram em prisão temporária por 30 dias na Cadeia Pública de Mogi das Cruzes, no interior de São Paulo. Assassinato de Ruy Ferraz Fontes Um dos casos anteriores que ajudam a contextualizar as investigações sobre o PCC na região é o assassinato de Ruy Ferraz Fontes, ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo e secretário de Administração de Praia Grande. Ele foi morto em 15 de setembro de 2025, ao sair da Prefeitura. O crime completou um ano no mês passado. Com mais de 40 anos de atuação na Polícia Civil, Ruy Ferraz Fontes teve papel de destaque em investigações contra o PCC. A hipótese de que o seu assassinato tenha sido uma vingança relacionada à sua atuação contra a facção está entre as linhas de investigação. Segundo as apurações, o ex-delegado foi vítima de uma emboscada. O carro em que estava foi perseguido e atingido por diversos disparos de fuzil. Outras duas pessoas ficaram feridas. O planejamento do homicídio teria começado em março de 2025, cerca de seis meses antes da execução, com a preparação logística e a definição dos envolvidos. A investigação aponta que o grupo teria utilizado carros furtados, imóveis de apoio na Baixada Santista e aplicativos de transporte para viabilizar o crime. Em novembro de 2025, a Polícia Civil concluiu o primeiro inquérito e o encaminhou à Justiça. Posteriormente, uma nova investigação foi aberta para identificar os possíveis mandantes. Em janeiro de 2026, novas diligências levaram à prisão de suspeitos apontados como participantes do planejamento da execução. Segundo informações divulgadas por A Tribuna, uma reunião para organizar o crime teria ocorrido em um bar de Mongaguá, em março de 2025. Em março de 2026, o Ministério Público de São Paulo apresentou uma segunda denúncia, contra outras quatro pessoas. Com isso, o número de denunciados chegou a 12. Até o momento, três denunciados ainda estão foragidos, enquanto uma mulher responde em liberdade após passar dois meses presa. A identificação de quem teria ordenado a execução e o esclarecimento da motivação continuam entre os pontos centrais da investigação. Operação mira fintechs e combustíveis Em 27 de maio de 2026, a Receita Federal, em parceria com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), deflagrou a Operação Fluxo Oculto. A ação resultou na expedição de 59 mandados de busca e apreensão contra alvos em cinco estados, dois deles em Santos. A operação foi apresentada como a segunda fase da Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025. A nova etapa investiga seis fintechs — empresas que oferecem serviços financeiros por meio de tecnologia — e um esquema de adulteração de combustíveis com nafta, um tipo de solvente. Segundo as apurações, as empresas eram utilizadas para ocultar recursos ilícitos, aproveitando falhas nos mecanismos de controle e estruturas financeiras consideradas pouco transparentes. Seis fintechs foram identificadas como uma espécie de “banco paralelo” do PCC, com movimentações superiores a R\$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Carbono Oculto investiga postos de combustíveis A Operação Carbono Oculto foi deflagrada em agosto de 2025 para investigar suspeitas de fraudes e lavagem de dinheiro ligadas ao PCC, especialmente por meio da infiltração da facção no setor de combustíveis. A investigação teve como alvos mais de 350 pessoas físicas e jurídicas suspeitas de auxiliar o grupo criminoso a ocultar recursos obtidos com atividades ilícitas. Quinze investigados aparecem como sócios de 251 postos de combustíveis espalhados pelo País, dos quais 33 ficam na Baixada Santista. Segundo as apurações, aproximadamente mil postos movimentaram R\$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, com indícios de sonegação fiscal que chegam a R\$ 7,6 bilhões. O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) não confirmou se os 251 estabelecimentos estão formalmente sob investigação, alegando sigilo processual. Já a Receita Federal informou que mais de mil postos teriam sido utilizados pelo PCC, sem divulgar a lista completa. Conforme levantamento publicado pelo portal g1, 233 dos postos identificados ficam no Estado de São Paulo. Na Baixada Santista, são 33 estabelecimentos: 12 em Santos, nove em Praia Grande, seis em Guarujá, três em São Vicente, dois em Cubatão e um em Mongaguá. Na região, dois postos foram formalmente incluídos entre os alvos da Carbono Oculto: o Auto Posto Boulevard XV São Paulo, em Praia Grande, e o Auto Posto Maragogi Ltda., em Guarujá. Investigações também alcançam jogos ilegais e hotéis As apurações sobre a movimentação financeira atribuída ao PCC também envolvem casas de jogos ilegais, lojas franqueadas e empresas do setor hoteleiro. Segundo as investigações, empresas registradas em nome de pessoas usadas como intermediárias movimentaram cerca de R\$ 450 milhões entre 2020 e 2024. Máquinas de cartão apreendidas em estabelecimentos de jogos ilegais, incluindo um endereço na Rua Euclides da Cunha, em Santos, estavam vinculadas a postos de combustíveis. Os valores arrecadados eram posteriormente direcionados a uma instituição de pagamento utilizada para ocultar a origem dos recursos. De acordo com o jornal O Globo, o esquema também teria utilizado 267 postos de combustíveis, 98 lojas franqueadas de O Boticário, 60 motéis e empreendimentos imobiliários para lavar dinheiro de origem ilícita. A fintech BK Bank é apontada pelas autoridades como uma das peças centrais do esquema, responsável por movimentar recursos provenientes de jogos ilegais e da comercialização de combustíveis adulterados. As investigações também identificaram movimentações de aproximadamente R\$ 1 bilhão entre 2020 e 2024 em 98 lojas franqueadas de O Boticário, ligadas a 21 CNPJs. Nesse período, os estabelecimentos teriam emitido apenas R\$ 550 milhões em notas fiscais. O Ministério Público ressaltou, durante coletiva de imprensa, que o Grupo Boticário não possui relação com o esquema investigado e que as suspeitas se restringem a franqueados específicos. Operação Spare investiga hotéis e motéis Em 25 de setembro do ano passado, foi deflagrada a Operação Spare, que investiga a exploração de jogos de azar, o comércio de combustíveis adulterados e a lavagem de dinheiro por meio de fintechs supostamente utilizadas pelo PCC. A investigação identificou 60 empresas do setor hoteleiro que estariam envolvidas no esquema, incluindo dois estabelecimentos da Baixada Santista. Segundo o portal Metrópoles, esses empreendimentos teriam sido utilizados para lavar dinheiro em um esquema bilionário que conectaria integrantes da facção à região da Faria Lima, na Capital. A Operação Spare é um desdobramento da Carbono Oculto e integra as ações voltadas a investigar suspeitas de lavagem de dinheiro e a atuação de empresas ligadas ao sistema financeiro. Investigações avançam em diferentes frentes A sequência de operações realizadas entre agosto de 2025 e setembro de 2026 mostra que as investigações sobre o PCC na Baixada Santista vão além do tráfico de drogas. As apurações alcançam suspeitas de lavagem de dinheiro, financiamento político, infiltração em atividades econômicas e movimentação de grandes quantias por meio de empresas de diferentes setores. Além de identificar os possíveis responsáveis pelos crimes, as forças de segurança buscam rastrear o caminho do dinheiro e atingir estruturas financeiras e empresariais que, segundo as investigações, podem dar sustentação às atividades da organização criminosa.