[[legacy_image_285742]] “Não podem fazer isso com um ser humano”, diz o motorista de aplicativo Rogério Francisco Veloso, de 44 anos. O morador de Santos, cidade do litoral paulista, conta que viveu momentos de tensão após o filho ter sido supostamente confundido com um traficante e levado tiros durante a ‘Operação Escudo’ na tarde da última terça-feira (1º), no Morro do Tetéu. Victor Hugo de Oliveira Veloso, de 22 anos, foi preso durante a ação no morro e, segundo o pai dele, o rapaz estava apenas comprando drogas e não tinha ligação com o tráfico. O homem foi preso preventivamente após uma audiência de custódia na manhã de quarta-feira (2). Os autos do processo e a Polícia Militar (PM) afirmam que, durante a ocorrência que acarretou à prisão de Victor Hugo, houve uma troca de tiros no endereço. O caso aconteceu por volta das 15h30 em um local de difícil acesso. A defesa alega que ele foi baleado no rim e, de raspão, no peito. O Corpo de Bombeiros foi responsável pelo socorro de Victor Hugo. Foram necessárias duas viaturas e sete bombeiros para chegar ao local de difícil acesso e resgatar a vítima, que neste momento ainda não possuía identificação. Ele foi socorrido em estado de saúde moderado para a Santa Casa de Santos. Rogério, pai de Victor Hugo, relata ter ido imediatamente para o local quando ficou ciente do que teria acontecido. “Pelo que os moradores me passaram, parece que ele estava no Tetéu porque ele é usuário de drogas. Quando chegou ao local, foi alvejado por um disparo e todo mundo correu. Um morador me ligou falando que ele estava baleado junto da polícia”. Assim que chegou ao local, o motorista de aplicativo relembra que foi questionar a autoridade policial presente se havia alguém ferido. “A polícia disse que não tinha baleado e que era para procurar na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) ou na Santa Casa. Fui atrás dele nesses locais e não havia ninguém”. “Voltei de novo para o local, pois um morador me ligou falando que era mentira do policial e ele ainda estava estirado no chão. A polícia não queria deixar ninguém chegar perto ou tirar foto. Ele (o policial que estava presente) começou a dar risada, falou um monte de besteira para mim”, cita. Apenas quando chegou o Corpo de Bombeiros, Rogério diz que as primeiras informações começaram a ser reveladas. Um agente, que não foi identificado, informou que estava socorrendo um homem preto e com tatuagens pelo corpo. Momento em que o pai soube que se tratava de Victor Hugo. O socorrista garantiu a Rogério que o filho estava vivo, mas não poderia dar mais informações sobre seu estado de saúde. Assim que o resgate foi realizado, o motorista seguiu a viatura até a unidade hospitalar, onde também lhe foi negado o direito de saber o estado de saúde do rapaz. “Fui desrespeitado. Falaram que não tinha baleado, mentiram para mim. Fui atrás dele na UPA até que um morador me disse que era mentira dele, que meu filho estava jogado, gritando e eles não estavam nem aí. Me sinto desrespeitado. Deram risada e debocharam da minha cara. Eles estavam mentindo demais, deixaram meu filho para morrer lá mesmo onde ele foi deixado, no chão”, afirma. Em seguida, ressalta não ter sido informado sobre o estado de saúde do filho quando chegou à Santa Casa de Santos. “Pedimos informações do que aconteceu com meu filho, mas disseram que não podiam dar informações pois ele estava sob custódia da polícia. Me orientaram a procurar um advogado e falaram a mesma coisa para o defensor. Ficamos a noite toda sem nenhuma notícia dele”. Atualmente, Rogério diz que o que mais anseia é conversar com Victor Hugo. “Meu filho é tranquilo. Fazia uns bicos de marcenaria. Terminou o estudo, foi até o terceiro ano do Ensino Médio. Nunca me deu trabalho, ele só fuma maconha. Estava no local errado na hora errada. Ele tomou um tiro e correu junto com o pessoal. Foi um engano (da polícia). Estamos desesperados”. [[legacy_image_285743]] DefesaO advogado Edson Rodrigues, defensor de Victor Hugo junto com a advogada Janaina Ribeiro, afirma que o rapaz possuía alguns registros policiais como usuário de drogas, mas nunca teve problemas além disso com a corporação. Edson diz que tentou falar com o acusado na Santa Casa de Santos, mas também foi impedido pelo administrativo da unidade hospitalar. “Eles falaram que a polícia não permitiu a entrada de ninguém, nem do advogado. Falei que precisava pelo menos entrar para ter essa afirmação diretamente dos agentes, mas não permitiram”. Durante tratativas com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Edson relembra que foi informado que Victor Hugo poderia possivelmente estar no centro cirúrgico e, por isso, não poderiam conversar. O defensor foi aconselhado a retornar no dia seguinte para ter mais informações e assim fez. “Fiquei revoltado com a situação de não permitirem minha entrada para entrar e conversar com meu cliente, com a prerrogativa de que seria ordem dos policiais que escoltavam meu cliente dentro da Santa Casa. Advogado tem que ter acesso ao cliente”, reforça. Na terça-feira (2), o defensor comenta que compareceu ao Fórum de Santos para realizar a audiência de custódia e a juíza plantonista, em um dia atípico, realizou a audiência sem a presença de Victor Hugo. Neste momento, Edson afirma que sequer sabia o estado de saúde do rapaz. Na sequência, o advogado diz que foi até a unidade hospitalar e teve a entrada permitida para conversar com o acusado por volta das 14h30. “Ele relata que é usuário e foi comprar a maconha, quando viu todo mundo correndo e saiu correndo também. Nessa correria, ele fala que foi atingido duas vezes”. Victor Hugo nega a existência de uma troca de tiros apontada à princípio pela Polícia Militar (PM). O defensor reforça que o homem teve passagem em 2018 como usuário de drogas e teve alguns atos infracionais ainda menor de idade, mas nunca teve envolvimento com o tráfico de drogas. “Não foi preso e nunca foi visto com arma”. ContraposiçãoQuestionada pela Reportagem sobre o caso e o relato do pai e do defensor, a Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP) retornou apenas com informações gerais da Operação Escudo e reforçou que todos os casos desse tipo são minuciosamente investigados pela Divisão Especializada de Investigações Criminais (DEIC) de Santos e pela Polícia Militar, por meio de Inquérito Policial Militar (IPM). Também ressaltou, mais uma vez, que as imagens das câmeras corporais serão anexadas aos inquéritos em curso e estão disponíveis para consulta irrestrita pelo Ministério Público, Poder Judiciário e a Corregedoria da PM. A Tribuna procurou a Santa Casa de Santos para um posicionamento sobre o caso, porém não obteve um retorno até a publicação desta matéria. RelembreA Operação Escudo começou na Baixada Santista após a morte de um soldado da Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) na Comunidade Vila Júlia, em Guarujá, na última quinta-feira (27). Em seguida, dois policiais sofreram um atentado em Santos.