Operação Verão se aproxima da Escudo em número de mortos em duas semanas na Baixada Santista

Escudo teve 28 mortes em 40 dias, enquanto 27 suspeitos morreram em apenas 15, durante a Verão

Por: ATribuna.com.br  -  18/02/24  -  06:45
Atualizado em 18/02/24 - 07:58
3ª Fase da Operação Verão teve início após morte do policial militar José Silveira dos Santos
3ª Fase da Operação Verão teve início após morte do policial militar José Silveira dos Santos   Foto: Matheus Tagé / Arquivo AT

Durante 40 dias, a Operação Escudo deixou muitas marcas na Baixada Santista, entre elas, a morte de 28 suspeitos que teriam ocorrido em confrontos com as forças de segurança do Estado de São Paulo. Cinco meses se passaram e uma outra operação apresenta sinais de que essa marca tende a ser superada em menos tempo. Em apenas 15 dias, 27 suspeitos foram mortos, além de três policiais militares (PMs).


Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp!


A Operação Escudo foi desencadeada após a morte do soldado Patrick Reis, atingido por um tiro próximo ao tórax na comunidade Vila Julia, em Guarujá. Com reforço policial, o objetivo inicial da ação foi de capturar os envolvidos no crime, mas se estendeu para também combater o tráfico na região.


Operação Escudo em números

Ao todo foram presas 958 pessoas, sendo 382 deles foragidos e procurados da Justiça, além da detenção de 70 adolescentes infratores. Também foram apreendidos 967 Kg de entorpecentes e 117 armas ilegais. Entre os 28 mortos, 22 deles foram em Guarujá e outros seis na cidade de Santos.


Excessos da Operação Escudo

A operação foi alvo de polêmicas, citando supostos assassinatos de pessoas inocentes, o que gerou, inclusive, questionamentos de órgãos de direitos humanos. O Estado se defendeu, afirmando que nenhum laudo do Instituto Médico Legal (IML) identificou situações de execução ou tortura. E garantiu, dizendo que todos os registros foram investigados pela Delegacia Especializada em Investigações Criminais (Deic) de Santos, Ministério Público e Poder Judiciário.


O secretário Estadual de Segurança Pública (SSP), Guilherme Derrite, informou que a atuação da Operação Escudo foi estratégica para desarticular o crime organizado na Baixada Santista.


“As principais lideranças do crime organizado foram colocadas atrás das grades e, algumas delas, resistiram à prisão e faleceram durante a troca de tiros”, disse. Ele também afirmou que, se fosse necessário, outras ‘operações escudo’ seriam deflagradas para garantir que não fosse criado um estado paralelo dentro do Estado de São Paulo.


Entretanto, cinco meses depois, o reforço policial na Baixada Santista voltou a se fazer necessário. Porém, com outro nome: Operação Verão.


Operação Verão

Com previsão de começar em dezembro e encerrar em fevereiro, ela traz como objetivo garantir a segurança de moradores e turistas que descem para o litoral paulista, Baixada Santista e Vale do Ribeira. Durante o lançamento da Operação Verão, em Guarujá, Derrite anunciou que esta seria a maior operação de todos os tempos, contando com mais de 3,1 mil PMs e 1,5 mil civis, além de outros 300 que viriam até o Carnaval.


Mas a morte de um policial militar voltou a deixar a região em alerta. Em 26 de janeiro, o PM Marcelo Augusto da Silva, de São Paulo, fazia parte do reforço policial da Operação Verão em Praia Grande. Ele foi morto na Rodovia dos Imigrantes, próximo a Cubatão, enquanto voltava para casa de moto.


Uma quadrilha especializada em roubo de motocicletas foi apontada como responsável pelo crime. Com requintes de crueldade, depois de derrubarem o policial da moto a tiros e descobrirem que ele era um PM, um dos suspeitos efetuou disparos no rosto do agente. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) chegou a anunciar uma 7ª fase da Operação Escudo, ainda durante a Operação Verão, que foi reforçada.


No dia 2 de fevereiro, um dos envolvidos na morte do policial foi preso ao lado do irmão gêmeo. Mas, horas antes, um outro policial militar foi assassinado. O PM das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), Samuel Wesley Cosmo. Acompanhado de uma equipe, ele fazia o patrulhamento em uma comunidade no bairro Bom Retiro, em Santos. Mas, ao se separar do grupo, entrou em uma viela e foi surpreendido por um homem armado. Cosmo recebeu um tiro no rosto, chegou a ser socorrido, mas não resistiu ao ferimento. As imagens do crime foram registradas pela câmera corporal utilizada pelo agente.


A morte de Cosmo deu início à 2ª Fase da Operação Verão no dia 2 de fevereiro. Imediatamente, as polícias militar e civil iniciaram investigações e iniciaram buscas na região para identificar e localizar os envolvidos. No entanto, no dia 7 de fevereiro, dois policiais foram baleados durante buscas a criminosos suspeitos de tráfico de drogas em um conjunto habitacional no Jardim São Manoel, em Santos.


O cabo José Silveira dos Santos, do 2º Batalhão de Ações Especiais de Polícia (Baep) não resistiu aos ferimentos. Outro policial recebeu um tiro no braço, foi socorrido e internado no hospital Santa Casa.


3ª Fase da Operação Verão

A morte do PM dos Santos desencadeou a 3ª Fase da Operação Verão. O anúncio foi feito pelo próprio Guilherme Derrite, que transferiu provisoriamente o gabinete da SSP para Santos para acompanhar de perto todas as ações das forças de segurança na região.


O início das mortes de suspeitos ocorreu logo após o assassinato do PM da Rota, Samuel Wesley Cosmo. No dia seguinte ao crime contra o policial, seis pessoas foram mortas, cinco delas em Santos e uma em São Vicente.


As investidas continuaram diante de investigações e monitoramento de suspeitos envolvidos com organizações criminosas e o tráfico de entorpecentes. Diante de patrulhamentos, em apenas 10 dias, 27 pessoas morreram. Segundo a SSP, todas envolvidas em trocas de tiro com as forças de segurança. Até o momento,645 criminosos foram presos, incluindo 242 procurados pela Justiça. Além disso, foram apreendidos cerca de 156 quilos de drogas e 77 armas ilegais, incluindo fuzis de uso restrito.


As ações de investigação também levaram à prisão um membro importante do PCC, Karen de Moura Tanaka, conhecida como ‘Japa’. Segundo a SSP, ela foi encontrada na Capital e era responsável pela lavagem de dinheiro do tráfico da Baixada Santista. Karen já teve um relacionamento com Wagner ‘Cabelo Duro’ Ferreira, apontado como ex-gerente do tráfico internacional do PCC, que foi assassinado em 2018. Com ela foram apreendidos mais de R$ 1 milhão, drogas e anotações do tráfico.


A polícia também conseguiu identificar e prender o suspeito pela morte do PM da Rota, Samuel Wesley Cosmo. Segundo as investigações, é ele que aparece nas imagens capturadas pela câmera corporal do agente no momento em que é alvejado.


Kaique Coutinho do Nascimento foi preso em Uberlândia, interior de Minas Gerais, na casa de um traficante de drogas. Apelidado de ‘Chip’, ele foi transferido para a Baixada Santista e já passou por audiência de custódia. Agora, aguarda o julgamento na Penitenciária I de São Vicente.


Por outro lado, as ações da polícia passaram a ser questionadas, seja pela forma como tem abordado moradores de comunidades, com denúncias de intimidações e até agressões, como também com assassinatos, como a morte de Allan Morais Santos, apelidado de ‘Príncipe’ do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ele era sobrinho de uma das lideranças da fação paulista, Fernando Gonçalves dos Santos, o 'Azul', preso em um presídio federal em Rondônia. A família afirma que Allan não tinha ligação alguma com o crime organizado.


O mesmo ocorreu com Luiz Antônio da Silva Diniz. Conforme a irmã, o jovem de 23 anos teria sido morto com um tiro de fuzil nas costas por um policial militar na comunidade Maré Mansa, em Guarujá. Conforme a SSP, uma troca de tiros entre criminosos e policiais teria provocado a morte, mas a família contesta essa versão.


O funcionário da Prefeitura de São Vicente, Ruan Araújo, foi baleado duas vezes por um policial militar durante um patrulhamento a uma comunidade no bairro Bitaru. Desarmado, o homem discute com um PM e é alvejado na perna. Depois, durante uma tentativa de agressão, recebeu um tiro na altura do tórax e precisou ser socorrido com urgência ao hospital.


Ações como essas trouxeram à Baixada Santista um ouvidor da Polícia de São Paulo para acompanhar os relatos de parentes de vítimas da Operação Verão. Até mesmo a Defensoria Pública do Estado chegou a apelar à ONU pelo fim da Operação Verão devido ao número de mortes já registrados.


Logo A Tribuna
Newsletter