[[legacy_image_271410]] O que era para ser um ‘happy hour’ entre amigas na noite de terça-feira (30) acabou se tornando um caso de polícia em Santos. Donos do Bar da Casa, que fica dentro da Galeria Casa Velha na Rua Othon Feliciano, no Gonzaga, se envolveram em uma discussão com duas mulheres. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A analista de customer service, Latoya Cristina Ferraz, de 29 anos, conta ter sido vítima de racismo após tentar defender um vendedor ambulante. De acordo com a analista, o homem pediu um palito de dente enquanto ela fumava próximo ao Bar da Casa por volta das 20 horas. Na ocasião, ela passava um tempo com outras quatro amigas em um outro comércio no fundo da Galeria Casa Velha. “Passou um vendedor e perguntou se podia pegar um palito de dentes. Não vimos problema nisso e dizemos que sim. Uma senhora veio, muito agressiva, dizendo que não era para ele pegar nada e mandou sumir logo dali. Ela foi extremamente grossa com o menino e isso nos incomodou”, afirma. Quando o vendedor se retirou, Latoya e uma amiga foram conversar com a idosa, dona do bar, de 67 anos, sobre o tom utilizado por ela com o menino. Nesse momento, começou uma discussão entre as três. Em seguida, a analista fala que o filho da idosa - de idade não informada - apareceu para participar da discussão. Foi neste momento que a dona do bar falou o para o homem não discutir e sinalizou com as mãos que não valia a pena brigar por conta do tom de pele de Latoya, que é preta, segundo o relato de Latoya. “Ela fez um sinal com a mão se referindo a minha cor. Eu falei que não acreditava que ela estava fazendo isso. E ela falou que era por isso que estava tendo problemas. Questionei pela terceira vez se ela estava falando da minha cor e ela disse que sim. Quando peguei meu celular para gravar, ela parou de fazer o gesto”, relembra. Diante dessa cena, a suposta vítima relata que quis ir embora imediatamente. Abalada pela injúria racial, Latoya reforça que a discussão pelo palito de dente já não fazia mais sentido. Porém, afirma que, ao tentar entrar no espaço, a idosa teria empurrado a mulher, que retrucou o empurrão. Na sequência, a analista afirma ter levado uma voadora nas costas do filho da idosa, o que fez com que as duas fossem ao chão e causaram ferimentos no cotovelo e joelho , além de ter torcido o tornozelo. “Levantei enfurecida. Comecei a gritar muito. Pedi para ligar para a polícia e que eles eram racistas. Não acreditava que estava sendo agredida. Foi um caos, todo mundo nos separando. Depois, segui com os trâmites legais”, reforça. Latoya diz estar com dores pelo corpo e emocionalmente abalada. “A gente (pessoas pretas) vive isso, mas nunca achamos que será tão agressivo. Que pessoas racistas teriam coragem de demonstrar isso de uma forma tão violenta e sem pudor. Estava no meio de todo mundo, foi uma exposição horrível”. Apesar de estar em um happy hour, a vítima comenta que não estava alcoolizada, pois bebeu apenas duas taças de vinho e teria como comprovar isso pela nota fiscal da conta do bar em que estava. [[legacy_image_271409]] TestemunhaDurante o crime, a consultora de projetos Gabriela Ventura, de 32 anos, comenta que presenciou toda a cena. Além de reforçar a versão apresentada por Latoya, a testemunha também conta que não entendia porque a idosa estava tão enfurecida com sua amiga até que o gesto indicando o tom de pele foi feito. “Eu estava falando tanto, ou até mais, que a Latoya e percebi claramente que as agressões verbais e físicas tinham endereço muito claro e o motivo era que ela era a pessoa negra da turma. Eu sou branca e, em momento algum, eles se direcionaram a mim. Tudo desde o princípio foi muito direcionado. Após o gesto, tive a confirmação de que estava presenciando uma situação racista”, analisa. DefesaSobre os próximos passos legais, a advogada de defesa Claudia Josiane de Jesus Ribeiro explica que irá focar inicialmente no inquérito criminal para, em seguida, entrar com uma ação cível de danos morais contra os dois acusados de agressão e injúria racial contra Latoya. “Para nós, negros, isso é uma constância. Vivemos isso diariamente. Já foi feito um boletim de ocorrência e agora vou acompanhar a oitiva dos autores dos fatos. Até o horário que a Latoya saiu da delegacia, eles não tinham saído de lá. Vou acompanhar o andamento deste inquérito, não apenas para punir, mas para mostrar para as pessoas que nós não vamos aceitar casos como esse”, afirma. AcusadosResponsável pela defesa dos acusados, o advogado Bruno Bottiglieri se posicionou, em nota, sobre o caso afirmando que uma cliente de outro estabelecimento, “visivelmente alterada pelo consumo de bebida alcoólica, constrangeu uma senhora colaboradora de 67 anos de idade acusando de racismo após esta ter solicitado a um morador de rua que devolvesse objetos que tinha pego de uma mesa sem autorização”. Além disso, Bruno reforça que a cliente ainda constrangeu a idosa enquanto filmava seu rosto enquanto lhe acusava de racismo e, ao se encontrarem no corredor, a colaboradora teria sido encurralada e “brutalmente agredida com um golpe na cabeça”. O advogado também afirma que a idosa teve, como consequência da confusão, dois dedos da mão quebrados por torção. Bruno alega que as agressões chegaram ao fim apenas quando o filho da colaboradora interviu na discussão, assim como outros consumidores que ali se encontravam. “A colaboradora está passando por acompanhamento médico que avaliará a necessidade de procedimento cirúrgico e encontra-se com medo pois tomou conhecimento através de rede social acerca de mensagens de que iriam lhe atear fogo em razão da caluniosa acusação de racismo”, diz em nota. O profissional conclui a nota informando que o Bar da Casa não compactua com nenhuma forma de discriminação e está a disposição da autoridades. Também relata que o responsável buscará responsabilizar as envolvidas no respectivo episódio, assim como outras que vem ameaçando. A Tribuna procurou a idosa e seu filho para contarem suas versões do fato, porém não obteve êxito até a publicação desta matéria. A Galeria Casa Velha informou que, no momento, está acompanhando a polícia sobre o que aconteceu no Bar da Casa e reforçou que não compactuam com qualquer tipo de discriminação ou agressão. De acordo com a Secretaria Estadual da Segurança Pública (SSP), o caso foi registrado como injúria racial e vias de fato na Central de Polícia Judiciária de Santos. A investigação ficará por conta do 7° Distrito Policial (DP) do Município, responsável pela área dos fatos.