Ryan da Silva Andrade tinha 4 anos e foi atingido por disparo durante operação em Santos (Arquivo pessoal e Reprodução) A defesa da família de Ryan da Silva Andrade Santos, de 4 anos, anunciou que irá recorrer da decisão que arquivou a investigação sobre a morte do menino, atingido por um disparo durante operação da Polícia Militar no Morro São Bento, em Santos, no litoral de São Paulo, em novembro de 2024. Os advogados também informaram que vão ingressar com ação cível de reparação de danos, com pedido de indenização superior a R\$ 1 milhão contra o Estado. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Em nota assinada pelos advogados Andrea dos Santos Lemos, Stefany Bagesky Cruz e Iranildo da Silva Alves Brasil, a família manifestou "profunda indignação" com a conclusão do Ministério Público de São Paulo (MPSP), que entendeu que os policiais agiram em legítima defesa e no estrito cumprimento do dever legal. Segundo a defesa, há contradições entre a versão apresentada pelos agentes e os depoimentos de testemunhas presenciais e do adolescente Luiz Henrique Rocha Alexandrino Marques, que sobreviveu à ocorrência. "Enquanto os agentes alegam revide, as vítimas e familiares afirmam categoricamente que os jovens estavam desarmados e que os disparos partiram exclusivamente da polícia em uma área residencial com forte presença de crianças", diz trecho da nota. Os advogados também criticam a ausência de câmeras corporais durante a operação. Para a defesa, a falta dos equipamentos comprometeu a transparência da apuração e teria facilitado uma "suposta manipulação" da cena do crime. "A ausência de câmeras corporais nos policiais do 6º BPMI facilitou a manipulação da cena do crime e a suposta forja de armamentos para justificar a ação letal", afirmam. Recurso e pedido de indenização A defesa informou que irá apresentar recurso contra a decisão de arquivamento, buscando o reconhecimento da prática de crime por parte dos policiais envolvidos. Além disso, será proposta uma ação de reparação de danos contra o Estado de São Paulo. Segundo os advogados, o valor da indenização deverá superar R\$ 1 milhão, considerando a morte da criança e a responsabilidade do poder público pelos atos praticados por seus agentes. "A busca por justiça continuará até que as responsabilidades criminais e civis sejam devidamente apuradas e punidas", conclui a nota. Entenda o caso Ryan morreu após ser atingido por um disparo de espingarda calibre 12 durante ação policial realizada na noite de 5 de novembro de 2024, no Morro São Bento, em Santos. Na ocasião, policiais da Rocam e da Força Tática perseguiam dois adolescentes que circulavam de motocicleta pela comunidade. Durante a ocorrência, também foi morto Gregory Ribeiro Vasconcelos, de 17 anos, enquanto Luiz Henrique Rocha Alexandrino Marques, de 15, foi baleado e sobreviveu. A Polícia Civil concluiu que os agentes agiram em legítima defesa durante uma troca de tiros. O relatório apontou que o projétil que atingiu Ryan ricocheteou em algum obstáculo antes de alcançar a criança, o que tornaria o resultado imprevisível para os policiais. O documento também menciona laudos periciais que identificaram vestígios compatíveis com confronto armado e disparos efetuados por armas que não pertenciam aos policiais envolvidos. Por outro lado, testemunhas ouvidas durante a investigação afirmaram não ter presenciado troca de tiros. Algumas relataram que os disparos partiram apenas dos policiais e continuaram mesmo após os adolescentes estarem caídos. MP mantém investigação própria Embora a Justiça tenha arquivado o inquérito conduzido pela Polícia Civil, o caso ainda não está totalmente encerrado. O Ministério Público instaurou um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) para aprofundar a apuração de forma independente. Entre os fatores que motivaram a medida está o entendimento do Inquérito Policial Militar (IPM), que apontou a possibilidade de crime doloso por parte do policial responsável pelo disparo que matou Ryan. Com a investigação própria, a Promotoria poderá requisitar novas diligências, ouvir testemunhas e analisar provas complementares. Ao final do procedimento, o órgão poderá apresentar denúncia contra os policiais ou solicitar um novo arquivamento do caso. A defesa da família de Ryan sustenta que existem elementos suficientes para que o episódio seja submetido ao Tribunal do Júri, tese que continuará sendo defendida nos recursos que serão apresentados à Justiça.