O apartamento foi encontrado com entulho, objetos acumulados e lixos espalhados (Reprodução) Brigas frequentes, gritarias, agressões verbais e forte odor. Essa é parte da descrição de uma das muitas denúncias enviadas à Delegacia do Idoso de Santos sobre a situação do apartamento em que um idoso de 79 anos foi encontrado morto em estado de decomposição na tarde de quinta-feira (6), no bairro Embaré. Dois filhos do casal são investigados por maus-tratos e abandono: um homem de 47 anos que morava com os pais e a filha mais velha dos idosos de 53, que mora em São Paulo e recusou as tentativas de contato da autoridade policial durante as investigações. O idoso teria morrido na segunda-feira (3), cerca de quatro dias antes do encontro. No momento da descoberta do corpo do idoso, o filho e a esposa, uma idosa de 77 anos com Alzheimer, estavam dentro do apartamento. O filho chegou a ser conduzido à delegacia, mas foi solto em seguida. O caso aconteceu na Avenida Doutor Epitácio Pessoa, por volta das 15h15. Responsável pelo caso, a delegada Fernanda dos Santos Souza explica que, há cerca de um ano, investigava a situação do casal de idosos em suposta situação de risco e recebia denúncias anônimas sobre a situação das vítimas. Em uma das denúncias, o relato é de que a idosa portadora de Alzheimer estava sofrendo maus-tratos por parte do suspeito, que a agredia verbalmente, e era possível ouvir as discussões de fora do apartamento. Essa mesma denúncia aponta que o suspeito é usuário de drogas, tem comportamento agressivo, não só com a vítima, que seria a mãe, mas também com outras pessoas que moram no local. Por fim, o relato enfatiza que ele não chegou a pagar a conta de luz e, por conta disso, a luz foi cortada, deixando os pais sem acesso à luz e à água quente para tomar banho. Investigação Fernanda destaca que entrou com pedidos judiciais no ano passado, em razão das denúncias, para que uma equipe de saúde e assistência social avaliasse a situação dos idosos. O pedido ainda estava tramitando entre os órgãos. O casal já apresentava Alzheimer em estado avançado. Na última segunda-feira (3), a delegada recebeu a informação de que o investigado teria vomitado no elevador do condomínio, o que levantou a suspeita de que algo poderia ter acontecido. Uma equipe da Polícia Civil foi enviada ao apartamento, mas ninguém atendeu ao interfone. Mesmo assim, a síndica autorizou a entrada da equipe no prédio. Os investigadores foram até a porta do apartamento, tocaram a campainha e bateram na porta, mas ninguém atendeu. Não havia registro de que a família tivesse deixado o prédio e, por isso, a gravidade da situação foi acentuada aos olhos dos policiais. “A equipe me passou a situação e eu pedi um mandado de busca e apreensão para que pudéssemos realmente socorrer esses idosos. Foi dado cumprimento a esse mandado na quinta-feira (6). Chegamos ao apartamento, acompanhados de um chaveiro, e adentramos o imóvel, que estava totalmente entulhado de objetos, lixo, sacolas, visivelmente um apartamento de acumuladores”, descreve. No meio dos entulhos, a equipe encontrou o investigado abraçado com a mãe. Os dois estavam deitados em um colchão no chão. Questionado, o filho disse que o pai estava morto e apontou para um quarto onde o corpo estava. O corpo do idoso foi encontrado em estado de putrefação e em uma cadeira de rodas. Ele estava coberto, devido ao odor. “O idoso teria ficado de segunda-feira (3) até quinta-feira (6) lá no imóvel. Aí eu indaguei: ‘Mas por que você não enterrou o seu pai? Não fez o velório?’. Ele falou: ‘É porque a minha mãe estava abraçada nele e eu também estava abraçado nele’. Isso foi o que o autor disse para a gente”, comenta. Como o homem estava visivelmente alterado perante a presença policial, a delegada pediu para que ele fosse conduzido à delegacia para esclarecer o ocorrido. Em contrapartida, a idosa foi atendida pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), foi atendida por uma equipe médica e ficou sob assistência do Estado. Pelo estado avançado de seu Alzheimer, a vítima não prestou depoimento sobre o caso. Entretanto, foi requisitado um exame para o Instituto Médico Legal (IML) e para o Instituto Criminalística (IC) em virtude de hematomas que foram encontrados em seu braço. Idoso morto Fernanda ressalta que o idoso era diabético e teve histórico de internações clínicas em dezembro de 2024. Em uma das internações, uma equipe tentou contato com o paciente para investigar o caso, porém o idoso não teve condições de conversar com a equipe. Ele apresentava sinais de Alzheimer avançado também, mas não chegou a ser diagnosticado. “Era aparentemente uma morte natural, só que só vamos constatar isso com o laudo, em razão do estágio avançado de putrefação. A idosa também tinha marcas, tanto que a gente pediu requisição de exame de corpo de delito para ela, porque ela estava com marcas no braço. Estava bem abatida. Não havia alimento em casa”, diz. Em pesquisa, foi constatado pela delegada que o filho do casal não possui passagem criminal e nenhuma droga foi apreendida no local. Filha mais velha Diversas tentativas de contato foram feitas pela Delegacia do Idoso com a filha mais velha do casal, porém não foram atendidas. Um advogado, em nome da mulher, entrou em contato com a autoridade policial e respondia por ela sazonalmente. Ela terá que responder durante o inquérito policial sobre a falta de assistência aos pais.