Casal de turistas da Zona Norte de São Paulo partiu para cima do bombeiro marítimo, após ele ter supostamente recusado atendimento de vítimas de afogamento em Guarujá (Reprodução) Um guarda-vidas temporário, de 20 anos, foi agredido com puxões e chutes por um casal de turistas da Capital durante confusão generalizada na Praia da Enseada, em Guarujá, no litoral de São Paulo. Segundo apurado por A Tribuna, o casal agrediu o bombeiro marítimo, pois ele teria se recusado a socorrer supostas vítimas de afogamento. Os turistas também teriam sido agredidos e hostilizados pela população no local. A Polícia Civil investiga o caso. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A briga aconteceu na altura da Avenida Miguel Estefno, por volta das 17h15 de quarta-feira (6). A Tribuna teve acesso ao boletim de ocorrência, no qual consta que os policiais militares compareceram à delegacia informando que foram acionados via Centro de Operações da PM (Copom) para atender ocorrência de briga generalizada na orla da praia, onde havia informação de agressão de um guarda-vidas temporário. Segundo o registro policial, no local, estavam presentes equipes do Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar), o casal de turistas e pedestres exaltados com a situação. Por conta disso, foi necessária intervenção policial para contenção e restabelecimento da ordem. Os agentes apuraram que o bombeiro marítimo foi vítima de agressão cometida pelo turista e pela mulher dele. Os envolvidos na confusão foram conduzidos ao Pronto Atendimento da Rodoviária, onde foram atendidos pela equipe médica. Foi constatada lesão na região do pescoço no guarda-vidas. Já o turista tinha diversas lesões pelo corpo, possivelmente causadas por intervenção da população. Após atendimento médico, as partes foram conduzidas à delegacia de polícia. Versão do guarda-vidas Na delegacia, o guarda-vidas relatou que estava trabalhando, em observação contínua dos banhistas a partir de cadeirão elevado, quando foi surpreendido por uma criança que disse que duas pessoas estavam em suposto estado de afogamento. Ao observar o local indicado, visualizou dois indivíduos na água, os quais não apresentavam sinais aparentes de afogamento, sendo que ambos saíram do mar e caminharam normalmente. Em seguida, segundo o guarda-vidas, um desses indivíduos, que era o turista da Capital, passou a dizer que o bombeiro havia cometido omissão de socorro, exigindo que ele fosse até a suposta vítima de afogamento, embora ela já se encontrasse fora da água e andando normalmente. Por não haver necessidade de atendimento, o guarda-vidas recusou a ordem do turista, que passou a se exaltar. O bombeiro marítimo disse que o homem o puxou do cadeirão, fazendo com que caísse no chão. Na sequência, a companheira do turista também passou a agredir o guarda-vidas, puxando-lhe pelas roupas e desferindo chutes. Ela, inclusive, rasgou a blusa do bombeiro e provocou escoriações em seu corpo, conforme constatado em atendimento médico. O guarda-vidas relatou ainda que conseguiu se desvencilhar do casal, com auxílio da população, porém o turista tentou aplicar novos golpes - um chute e socos - sem sucesso. O bombeiro marítimo afirmou que os dois agressores apresentavam nítidos sinais de embriaguez, exalando forte odor de álcool, além de comportamento extremamente alterado. Por fim, destacou que, segundo informações colhidas junto à população e outros guarda-vidas, não houve qualquer ocorrência de afogamento ou suposta negligência da sua parte, tendo a situação sido equivocadamente interpretada pelo casal de turistas. Versões do turista O homem, de 43 anos, envolvido na confusão, compareceu à delegacia informando que mora na Zona Norte de São Paulo e, na quarta-feira (6), estava em Guarujá acompanhado da esposa, dos filhos, do cunhado e demais familiares por lazer. O turista disse que sua família professa religião de matriz africana, especificamente o candomblé, e que, em determinado momento, o cunhado entrou no mar e teria incorporado entidade espiritual. Nessa hora, passou a apresentar comportamento alterado dentro d'água, vindo a supostamente correr risco de afogamento. O homem acrescentou que tentou prestar auxílio ao parente, mas não conseguiu em razão da força das ondas e do estado em que o cunhado se encontrava, motivo pelo qual procurou auxílio junto ao guarda-vidas. Ainda segundo o turista, ao solicitar a ajuda do bombeiro marítimo, o socorrista teria desacreditado da situação, afirmando que aquilo seria “brincadeira” ou “sacanagem”, além de demonstrar comportamento jocoso. O turista alegou que tentou explicar ao guarda-vidas aspectos relacionados à sua religião, porém percebeu resistência e incompreensão por parte do profissional, o que teria aumentado seu desespero em razão do alegado risco enfrentado por seu cunhado. Diante da negativa de atendimento e acreditando que o parente corria risco de morte, o homem aproximou-se do cadeirão onde o guarda-vidas estava e o puxou, fazendo com que viesse a cair no chão. O turista afirmou que sua intenção era apenas compelir o agente a prestar socorro. De acordo com o homem, sua esposa também passou a discutir com o guarda-vidas, havendo troca de ofensas, de modo que houve tumulto generalizado. O turista disse também que, após a confusão, diversas pessoas passaram a agredi-lo, causando hematomas pelo corpo, especialmente nas mãos e braços, razão pela qual procurou abrigo em um estabelecimento comercial próximo até a chegada da Polícia Militar (PM) e demais equipes de atendimento. O homem esclareceu que, posteriormente, foi submetido a exame médico. Ele afirmou que não agrediu o guarda-vidas, reconhecendo apenas ter puxado o cadeirão e participado de discussão verbal. Por fim, relatou que consumiu bebida alcoólica antes da confusão, mas garantiu que não estava embriagado. Depoimento da mulher A mulher do turista envolvida no caso, de 26 anos, também compareceu à unidade policial. Ela informou que mora em São Paulo e que, na data dos fatos, estava em Guarujá acompanhada do marido, dos filhos, do irmão e demais familiares, em momento de lazer na praia. A turista relatou que sua família professa religião de matriz africana e que, antes de ingressar no mar, advertiu o irmão para que não ultrapassasse certa profundidade, em razão das condições agitadas do mar e de questões relacionadas à sua crença religiosa. A mulher acrescentou que, em determinado momento, seu filho informou ao tio que estaria se afogando, ela imediatamente entrou no mar para auxiliá-lo, utilizando conhecimentos técnicos decorrentes de sua formação em enfermagem. A turista tentou retirar o irmão da água juntamente com uma amiga, contudo as duas não conseguiram em razão da força das ondas e do peso corporal do homem. Nesse instante, a turista falou para o filho chamar o pai para auxiliar no resgate, sendo que ele também não obteve sucesso. Diante da gravidade da situação, a mulher procurou auxílio do guarda-vidas que se encontrava no cadeirão de observação. De acordo com ela, o bombeiro marítimo teria inicialmente desacreditado da situação, afirmando que se tratava de “brincadeira” e fazendo comentários relacionados ao estado de “incorporação” do homem. Segundo a turista, ela insistiu para que o profissional prestasse atendimento, argumentando que o irmão estava se afogando, mas o guarda-vidas teria permanecido no cadeirão, alegando que não havia necessidade de socorro. Ainda conforme a mulher, o marido conseguiu retirar o parente da água, aparentemente debilitado. Por isso, continuaram insistindo para que o guarda-vidas prestasse atendimento. Em meio à discussão, de acordo com a turista, o bombeiro marítimo teria passado a fazer ofensas verbais, chamando-a de “vagabunda”. Seu marido, então, empurrou o guarda-vidas do cadeirão, e a mulher passou a discutir com o profissional. Ela admitiu ter rasgado a roupa do bombeiro e tentado derrubá-lo no chão. A mulher também disse que a população passou a hostilizá-la durante a confusão generalizada na praia. Por fim, afirmou que o marido foi agredido por diversas pessoas, sofrendo lesões corporais e necessitando de atendimento médico. Investigação Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP), o caso foi registrado como desacato e lesão corporal na Delegacia Sede de Guarujá, que investiga os fatos.