Dez homens apontados como integrantes de uma organização criminosa ligada à máfia italiana 'Ndrangheta e especializada no tráfico internacional de cocaína do Brasil para a Europa, por meio de rotas marítimas que utilizavam o Porto de Santos e outros portos brasileiros, foram denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A Tribuna teve acesso à denúncia, apresentada pelo MPF à 5ª Vara Federal de Santos em 26 de junho. Os investigados foram alvos da Operação Narco Sky, deflagrada em 2 de junho deste ano. A operação é um desdobramento da Narco Vela. Na Narco Sky, a Justiça Federal expediu dez mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão, cumpridos nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Pará. Segundo apurado por A Tribuna, um dos investigados possui um imóvel em Santos. Conforme a denúncia, os acusados são os brasileiros Marco Aurélio de Oliveira Souza, Rafael Gonçalves Sayão, Antônio Greg Ribeiro Pinheiro, Fábio Rodrigues Ulhoa Cintra, Walter Pires Junior, Ivan de Freitas Santos e Klaus de Castro Rios Motta e Silva, todos presos. Também foram denunciados o croata/sérvio Antun Mrdeza, que, segundo o MPF, utilizava a identidade falsa de Nikola Boros; o espanhol Alejandro Salgado Vega; e o colombiano Pedro Alonso Camacho Fernandez. Conforme a denúncia, Antun Mrdeza e Pedro Alonso Camacho Fernandez são considerados foragidos e possuem Difusão Vermelha da Interpol. Já Alejandro Salgado Vega foi preso em Dubai. Denúncia e modus operandi De acordo com a denúncia obtida por A Tribuna, o grupo atuou entre fevereiro e outubro de 2020, estruturando uma organização voltada ao envio de grandes carregamentos de cocaína do Brasil para a Europa, principalmente para Espanha, Itália, Bélgica e Holanda. As operações utilizavam os portos de Santos (SP), Paranaguá (PR), Rio Grande (RS) e Belém (PA), além de embarcações que seguiam para portos europeus. Na acusação, o MPF pede a condenação dos dez investigados pelos crimes de tráfico internacional de drogas, associação para o tráfico transnacional e promoção e integração de organização criminosa transnacional. Segundo o órgão, a organização possuía uma divisão bem definida de funções. O comando financeiro e estratégico estaria nas mãos de traficantes estrangeiros, enquanto a coordenação das operações em território brasileiro caberia a Marco Aurélio de Oliveira Souza, conhecido como "Lelinho". Os demais integrantes seriam responsáveis por identificar navios, obter informações sobre rotas marítimas, cooptar tripulantes, organizar a logística portuária, armazenar e transportar a cocaína, além de prestar suporte náutico às operações. A comunicação entre os integrantes ocorria por meio da plataforma criptografada SKY ECC, que permitia a troca de mensagens protegidas, utilizando apelidos e códigos para ocultar a identidade dos envolvidos. Outro ponto destacado pelo MPF é o suposto vínculo operacional da organização com a máfia italiana 'Ndrangheta: "As investigações também apontaram vínculos operacionais entre essa estrutura e organizações criminosas de abrangência global, como a 'Ndrangheta, máfia italiana com presença em diversos países, circunstância que acentua a gravidade concreta da atuação criminosa e o risco à ordem pública", afirma trecho da denúncia. O MPF também pediu à Justiça a manutenção das prisões preventivas e das demais medidas cautelares já decretadas, além do prosseguimento da ação penal até o julgamento. O órgão ainda requereu o perdimento, em favor da União, dos bens, direitos e valores apreendidos durante as investigações, por entender que constituem produto, proveito ou instrumento das atividades criminosas. A Tribuna não conseguiu localizar a defesa dos acusados, mas o espaço segue aberto para manifestações. Cooperação entre Brasil e França De acordo com o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), as investigações contaram com cooperação jurídica internacional entre Brasil e França. Com isso, a Polícia Federal (PF) teve acesso aos dados armazenados nos servidores da plataforma criptografada SKY ECC. Na decisão que autorizou as prisões, consta que, segundo as investigações, "a referida plataforma foi amplamente utilizada pelos investigados com o propósito de ocultar tratativas criminosas referentes a diversas partidas de cocaína à Europa, mediante a utilização de criptografia avançada, com o desiderato específico de dificultar a interceptação e rastreamento das comunicações por autoridades estatais". Atuação na Baixada Santista Segundo a denúncia do MPF, a Baixada Santista era um dos principais centros operacionais da organização criminosa. Um dos episódios ocorreu em março de 2020, quando integrantes do grupo conseguiram içar aproximadamente 80 kg de cocaína para o interior do navio mercante Panorea, atracado no Porto de Santos. Antes disso, a organização havia tentado realizar a operação no Porto de Paranaguá (PR), mas desistiu devido ao risco de detecção. Conforme o MPF, a ação em Santos foi coordenada por Marco Aurélio de Oliveira Souza, o "Lelinho", com apoio de tripulantes cooptados. Outro caso citado na denúncia ocorreu em 8 de julho de 2020, quando policiais militares e ambientais apreenderam 321,4 kg de pasta base de cocaína em uma residência na Praia do Góes, em Guarujá. Consta no documento que a droga estava sob a guarda de Marco Aurélio e pertencia ao núcleo estrangeiro da organização. Parte da carga seria destinada ao veleiro Mobydick, utilizado, de acordo com a acusação, para transportar cocaína até a Europa. Além dessas ações, a denúncia afirma que a organização utilizava imóveis na Baixada Santista para armazenar temporariamente a droga e empregava lanchas rápidas para transportar os carregamentos até navios mercantes fundeados na costa, onde a cocaína era içada com o auxílio de tripulantes previamente cooptados. Narco Sky A Operação Narco Sky foi deflagrada pela PF em 2 de junho. Cerca de 30 policiais federais participaram da ação, cumprindo mandados de prisão preventiva e de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul e Pará. As investigações contaram com cooperação jurídica internacional e tiveram como base provas compartilhadas por autoridades francesas, obtidas a partir dos servidores da plataforma de comunicação criptografada SKY ECC. Na decisão judicial que autorizou a operação, a Justiça destacou que a plataforma teria sido amplamente utilizada pelos investigados para ocultar negociações relacionadas ao envio de carregamentos de cocaína para a Europa, utilizando sistemas avançados de criptografia para dificultar a interceptação e o rastreamento das comunicações. Segundo a PF, as investigações apontam que a organização criminosa planejou o transporte ilegal de 2.359 kg de cocaína em operações realizadas ao longo de 2020, envolvendo portos brasileiros e também da Espanha, Itália e Holanda.