Falso corretor fazia vendas de apartamentos em região conhecida como Cantagalo (foto), em Guarujá; boletins de ocorrência foram registrados (Divulgação/ Prefeitura de Guarujá) Um homem, de 48 anos, é acusado de aplicar golpes envolvendo a falsa venda de moradias populares em Guarujá, no litoral de São Paulo. De acordo com relatos das vítimas, pelo menos 40 pessoas teriam sido prejudicadas, somando um prejuízo aproximado de R\$ 700 mil. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Diversos boletins de ocorrência foram registrados na Polícia Civil contra o falso corretor de imóveis. A confeiteira Bruna Vitória Donato de Almeida, de 26 anos, está entre as vítimas e afirma ter perdido R\$ 15 mil. Bruna contou que conheceu o homem em 2012, quando trabalhou para ele em um carrinho de praia. Desde então, não teve mais contato. Anos depois, ao comentar com um amigo que buscava uma casa para comprar, recebeu a informação de que, na região do Cantagalo, havia imóveis disponíveis mediante entrada de R\$ 20 mil. Como tinha amigas no condomínio, procurou uma delas, que confirmou a informação e disse que o responsável pelas vendas era o mesmo homem com quem havia trabalhado. A confeiteira, então, entrou em contato com ele, que explicou o suposto funcionamento do negócio. Segundo o investigado, alguns moradores não tinham interesse em permanecer nas moradias e desejavam vendê-las. “Coloquei a casa do meu falecido pai à venda no Rio de Janeiro por R\$ 20 mil de entrada e o restante parcelado em prestações de R\$ 1 mil, totalizando R\$ 70 mil, que era o valor do apartamento. Consegui vender a casa e dei R\$ 15 mil de entrada no apartamento. Informei que só teria esse valor, e ele aceitou. Fomos ao cartório no dia 23 de outubro, fizemos um contrato de compra e venda com firma reconhecida no nome dele e, depois, realizei o Pix. A promessa era que a chave seria entregue em 60 dias, no dia 23 de dezembro”, relatou a mulher. No entanto, devido às festas de fim de ano, o vendedor informou que a entrega ocorreria no início de janeiro. Segundo Bruna, foi nesse momento que começaram os problemas. “Ele começou a dar várias desculpas, dizendo que o rapaz da Prefeitura — que, segundo ele, era o responsável pelas chaves e pela transferência do nome do contemplado para o meu — não conseguiu ir até ele. Toda semana, era uma justificativa diferente. No dia último dia 11, disse que seria a última mudança de data. Nesse dia, o tal rapaz não apareceu, e ele combinou com um GCM (guarda civil municipal), que também havia comprado com ele, de se encontrarem na Prefeitura para confrontá-lo. Mas ele não compareceu e sumiu desde o dia 12”. Homem teria se passado por corretor de unidades habitacionais do Cantagalo, em Guarujá (Arquivo pessoal) Por conta da situação, Bruna registrou boletim de ocorrência. Outra mulher, que preferiu não ser identificada, relatou que caiu no golpe após tentar comprar um imóvel em junho do ano passado. Segundo ela, uma amiga comentou que havia um homem com supostos contatos na Prefeitura, que estaria revendendo apartamentos cujos interessados teriam desistido ou apresentado documentação irregular. A amiga perguntou se ela tinha interesse. “Eu disse que, para mim, não, mas para os meus pais, que já são idosos, sim. Ela me passou o número do vendedor. Tenho as conversas. Quando falei com ele, disse que minha amiga já havia comentado sobre mim e perguntou se eu estava interessada em comprar um apartamento. Perguntei o valor — não me recordo se eram R\$ 70 mil ou R\$ 75 mil — e concordei”, contou. A mulher afirmou que tinha R\$ 15 mil para fornecer de entrada. O homem marcou um encontro para formalizar o negócio. “Ele já levou o contrato pronto. Fomos ao cartório, autenticamos e reconhecemos firma. Meus pais assinaram, ele assinou. Dei R\$ 2 mil em dinheiro e transferi R\$ 13 mil via Pix”. Segundo a mulher, a promessa era de que as chaves seriam entregues em até 90 dias. “Quando o prazo venceu, começou o pesadelo. Perguntei sobre a entrega e ele disse que seria preciso fazer uma revisão no imóvel. Depois, vieram outras desculpas: vazamento de água, manutenção pendente. Cada semana surgia um novo motivo. Sete meses se passaram nessa sequência de mentiras”, relatou a mulher. Ela afirmou que a mãe procurou a delegacia e encontrou diversas pessoas que relataram ter passado pela mesma situação. Prejuízo de mais de R\$ 700 mil Uma terceira mulher, que também teve a identidade preservada, disse ter perdido R\$ 20 mil. De acordo com ela, a prima conhecia o suposto corretor dos prédios do Cantagalo, onde ele morava e onde a própria prima era síndica. A prima teria comprado um apartamento dele, pagando R\$ 30 mil de entrada, e depois a indicou. “Quando ele sumiu, descobrimos que cerca de 40 famílias tinham sido enganadas. O prejuízo não foi apenas de R\$ 20 mil, mas de mais de R\$ 700 mil. Ele dizia que havia um funcionário na Prefeitura que retirava o nome de quem desistia e colocava o nome de quem comprava. O dinheiro ficaria com ele, e o vendedor receberia apenas 6% ou 10%”, afirmou a vítima. Posicionamento Em nota, a Prefeitura de Guarujá disse que técnicos da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) se reuniram, nos dias 12 e 13 de fevereiro, com munícipes "vítimas de um golpe aplicado por homem que, supostamente, recebia quantias em dinheiro com a promessa de entrega de futuras unidades habitacionais à serem construídas no bairro Cantagalo, que sequer eram especificadas". A Administração Municipal afirma que, no encontro, as vítimas foram orientadas a procurar "orientação jurídica para formalizar uma única denúncia na Delegacia de Polícia contra o suposto golpista". O município ressalta que "se solidariza com as vítimas e esclarece que é proibido comercializar unidades habitacionais subsidiadas por recursos públicos durante prazo pré-determinado que pode variar entre dois e 10 anos a partir do recebimento das chaves". Sobre os contemplados, a Sehab afirma que, ao receberem suas unidades, eles tomam ciência dos prazos, mediante a assinatura de termos específicos, e alerta que "toda tentativa de comercialização ilegal de unidades deve ser denunciada ao órgão, que se encarrega de apurar e tomar as medidas cabíveis, que pode até mesmo resultar na retomada do imóvel pelo poder público, dependendo do caso". A Tribuna procurou a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) para obter mais informações. Até a publicação desta matéria, não houve retorno. A reportagem não conseguiu localizar a defesa do acusado. O espaço segue aberto para manifestações.