O empresário Wellington Mazini (à direita) utilizou o CRM de Enrico Di Vaio (à esquerda) durante os atendimentos médicos (Reprodução/ Redes sociais) Enrico Di Vaio, médico titular do CRM utilizado pelo empresário Wellington Augusto Mazini Silva, de 28 anos, para se passar por médico em Cananéia, no litoral de São Paulo, morreu nesta sexta-feira (20) em Santos. Até o momento, não há confirmação sobre a causa da morte. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Conforme noticiado por A Tribuna, o empresário havia alegado que cursa o quinto ano de Medicina e agiu a mando de Di Vaio, de quem é sócio em uma clínica em São Paulo e estagiário há quatro anos. Conforme o boletim de ocorrência da prisão, Mazini estava usando o CRM do médico contratado durante os atendimentos em unidade de saúde de Cananéia. A defesa do empresário alegou que Enrico Di Vaio consentiu o uso de seu nome e assinatura nos laudos. Ainda segundo o relato, Mazini substituiu Enrico Di Vaio nos dias 6 e 7 de janeiro, e o estudante receberia cerca de R\$ 1.500 a título de “ajuda de custo” pelos atendimentos. Durante esse tempo, Mazini teria realizado mais de 100 exames de ultrassonografia, área em que fazia especialização há oito meses. A Delegacia de Cananéia havia solicitado à Delegacia de Santos que Di Vaio fosse ouvido no âmbito das investigações. No entanto, com o falecimento, a punibilidade dele será extinta no inquérito policial. Prática reiterada Ao negar o pedido de habeas corpus do falso médico, a corregedoria afirmou que havia indícios de “possível prática reiterada da conduta”. Além de ter sido flagrado utilizando o CRM de outro médico, Mazini tinha consigo carimbo de um terceiro profissional e receituários de clínicas distintas. Para o magistrado, os elementos sugerem que a atuação pode não ter sido pontual. O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) abriu sindicância para apurar o caso. A Tribuna apurou que o empresário já havia sido citado em um requerimento de instauração de inquérito policial por associação criminosa, estelionato, falsidade ideológica e material, além de apropriação indébita. Segundo a denúncia-crime, feita há quatro meses, por um empresário que se apresentou como vítima do falso médico, ele teria realizado pelo menos dez exames de ultrassonografia em Santo Amaro, na Grande São Paulo. Na época, a Justiça extinguiu o processo por entender que não cabe ao juiz requisitar abertura de inquérito. No entanto, o caso continua sendo investigado pelo 11º Distrito Policial (DP) de São Paulo. Falso médico segue preso Mazini foi preso no dia 7 de janeiro após ser flagrado realizando exames e assinando documentos médicos em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de Cananéia utilizando o número de CRM de outro profissional. Ele foi autuado por exercício ilegal da medicina, falsidade ideológica e perigo para a vida ou saúde de outrem. De acordo com a investigação, a fraude veio à tona quando, durante um exame, Mazini afirmou ter identificado a vesícula de uma paciente que não possui o órgão. A inconsistência levou a mulher a procurar a direção do Departamento de Saúde, que acionou a Polícia Militar. Após audiência de custódia, a prisão foi convertida em preventiva. O empresário permanece detido no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Registro, após ter o pedido de habeas corpus apresentado pela defesa negado. O advogado Celino Barbosa Netto, que representa Mazini, afirmou que teve conhecimento das ações pela imprensa, mas que seu cliente ainda não foi formalmente citado na esfera cível. “Meu cliente sequer foi citado ainda na esfera criminal. Os fatos narrados nas ações cíveis dependem inexoravelmente da decisão da ação penal, uma vez que lá se produz a verdade real, que determinará se de fato houve ou não o suposto dano moral”, declarou. Pacientes pedem indenização Cinco mulheres atendidas por Mazini ingressaram na Justiça pedindo indenização de R\$ 50 mil cada por danos morais. Elas afirmam ter sido submetidas a exames de ultrassom transvaginal pelo suposto médico. As pacientes também processaram a Irmandade Boituva Saúde, responsável pela gestão da saúde municipal, e a Prefeitura de Cananéia. De acordo com o processo, as pacientes realizaram o exame de ultrassom transvaginal – caracterizado por ser de extrema vulnerabilidade e exposição íntima – com o falso médico. A ação descreve que ele demonstrou inaptidão no manuseio dos equipamentos e um tratamento grosseiro, o que “causou estranheza, desconforto e intenso constrangimento”. Atendimento a gestante de 8 meses Conforme noticiado por A Tribuna, Mazini também atendeu uma gestante de oito meses. Ela relatou à reportagem ter passado por um atendimento precário e que deixou a unidade de saúde “sem saber nada sobre o bebê”, com um laudo que, segundo descreve, “não trazia nenhuma informação importante”. “Esperei pelo laudo e, quando peguei em mãos, percebi que não tinha a Data Provável do Parto (DPP). Voltei à sala e questionei o porquê. Ele respondeu que ‘não tinha como adivinhar quando o bebê vai nascer’”, contou a gestante, que pediu para não ter a identidade divulgada, por questão de segurança. Segundo ela, a consulta durou poucos minutos, foi conduzida de forma superficial e deixou de cumprir etapas básicas da rotina obstétrica. “Ele não informou as medidas do bebê e, quando perguntei sobre o sexo da criança, disse que não podia garantir nada”.