De casa para PF: confira detalhes da prisão do ex-ministro Milton Ribeiro em Santos; VÍDEO

Entenda os motivos da prisão, a agenda e a forma como que eram feitas as negociações com pastores

Por: ATribuna.com.br, com informações do Estadão Conteúdo  -  22/06/22  -  12:03
Atualizado em 22/06/22 - 14:22
Milton Ribeiro foi preso no apartamento onde mora em Santos nesta quarta-feira (22)
Milton Ribeiro foi preso no apartamento onde mora em Santos nesta quarta-feira (22)   Foto: ATribuna.com.br

O ex-ministro da Educação, Milton Ribeiro, foi preso em Santos nesta quarta-feira (22), em operação da Polícia Federal (PF) que investiga o favorecimento a pastores no MEC. Ele foi levado para a delegacia da corporação, no Centro da cidade.


Clique, assine A Tribuna por apenas R$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios!


Milton Ribeiro foi detido pela corporação no apartamento onde mora, na Rua Ângelo Guerra, no Boqueirão. Esse foi um dos cinco mandados de prisão, além de 13 de busca e apreensão, determinados pela Justiça como parte da operação Acesso Pago.


Os mandados foram cumpridos pela PF nos estados de São Paulo, Goiás e Pará, além do Distrito Federal. A operação investiga corrupção e tráfico de influência na liberação de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).


Em vídeos obtidos por A Tribuna, é possível ver Milton Ribeiro saindo do apartamento onde mora, no Gonzaga. Ele foi levado para a delegacia da Polícia Federal, no Centro de Santos, onde passou por exame de corpo de delito.



Entenda

O Estadão revelou em março que, sem possuir vínculos com o setor de ensino ou cargo público, um grupo de pastores passou a comandar a agenda do ministro da Educação, formando uma espécie de "gabinete paralelo" que interferia na liberação de recursos e influenciava diretamente as ações da pasta.


O grupo era capitaneado pelos pastores Gilmar Silva dos Santos, presidente da Convenção Nacional de Igrejas e Ministros das Assembleias de Deus no Brasil, e Arilton Moura, assessor de Assuntos Políticos da entidade. Eles, que hoje são alvos da PF, conquistaram acesso ao Executivo federal ainda em 2019, antes mesmo da chegada de Ribeiro ao Ministério, e são próximos da família Bolsonaro. A dupla agia como lobistas, atuando para liberar e/ou acelerar o empenho de recursos a determinados municípios.


Agenda

O Estadão identificou a presença de Gilmar dos Santos e Arilton Moura em 22 agendas oficiais no MEC entre 2021 e 2022, sendo 19 delas com a presença do ministro. Algumas são descritas como reunião de "alinhamento político" na agenda oficial de Ribeiro, que também é pastor.


Em 2019, eles foram recebidos pelo presidente Jair Bolsonaro ao menos duas vezes. Em 2020, mais uma audiência na Presidência da República. O vice-presidente Hamilton Mourão também os recepcionou.


Agilidade

Usualmente, a destinação de verbas para uma prefeitura é um processo burocrático e demorado. Com a ajuda dos pastores, contudo, certos municípios conseguiram a liberação do empenho de recursos em tempo recorde. É o caso da prefeita Marlene Miranda, de Bom Lugar (MA), que teve o pedido de dinheiro atendido em apenas 16 dias, prazo muito abaixo dos padrões da distribuição de recursos da pasta. A Secretaria da Educação de Pernambuco, por exemplo, levou 10 anos para obter R$ 198,7 mil do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).


Uma das principais atuações dos pastores era justamente esta: abrir a agenda do ministro para acesso de prefeitos e empresários próximos ao grupo, de modo que levem ao MEC suas demandas. Marlene Miranda, por exemplo, pediu R$ 5 milhões para a construção de uma escola em sua cidade. Ela esteve no gabinete de Ribeiro em 16 de fevereiro, por intermédio dos religiosos. Em 4 de março, o FNDE reservou R$ 200 mil para pagamento à prefeitura.


Favorecidos

Prefeitos do Progressistas, do PL e do Republicanos têm preferência para conseguir a ajuda dos pastores. Essas legendas integram o núcleo duro do Centrão. O bloco de partidos é justamente o que comanda o FNDE.


Só em dezembro do ano passado, o órgão firmou termos de compromisso - uma etapa anterior ao contrato - com nove prefeituras, totalizando R$ 105 milhões de repasses, após reuniões com os pastores. Além de levarem prefeitos a Brasília, participando de encontros no MEC, eles também acompanham o ministro em viagens pelo País.


Em um desses eventos, um encontro de prefeitos com Milton Ribeiro em janeiro do ano passado, na sede do MEC, o pastor Gilmar dos Santos detalhou a atuação do gabinete paralelo e expôs claramente suas intenções: "Nós solicitamos esta reunião com o ministro para trazer ao conhecimento dele vários prefeitos que trabalham também com a igreja", disse, deixando claro que pretende privilegiar pessoas ligadas à sua religião.


Áudio vazado

Em conversa gravada, Milton Ribeiro admitiu que prioriza o atendimento a prefeitos que chegam ao MEC por meio dos pastores Gilmar dos Santos e Arilton Moura. Falando a dirigentes municipais dentro do ministério, Ribeiro disse que segue ordem do presidente Jair Bolsonaro. "Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do (pastor) Gilmar (Santos)", diz ele - Arilton Moura e Gilmar Santos estavam presentes na reunião. "A minha prioridade é atender primeiro os municípios que mais precisam e, em segundo, atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar", ironizou, em gravação divulgada pelo jornal Folha de S.Paulo.


Ex-ministro foi levado para a delegacia da Polícia Federal em Santos
Ex-ministro foi levado para a delegacia da Polícia Federal em Santos   Foto: Raphaella Santucci/AT

Logo A Tribuna