Foram pouco mais de 60 minutos suficientes para destruir uma história construída ao longo de mais de três décadas. Na madrugada da última quarta-feira (5), os irmãos Sérgio Antônio Ramos de Carvalho, de 58 anos, e Hugo Roberto de Carvalho, de 56, tiveram o salão onde trabalham há quase 31 anos, no Centro de Santos, no litoral de São Paulo, invadido por um criminoso que escalou um poste, entrou pelo telhado e promoveu uma sequência de furtos e atos de vandalismo. O prejuízo é estimado está em R\$ 30 mil. (Veja vídeo abaixo) Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Entre as máquinas profissionais, secadores, tesouras, navalhas, documentos e objetos pessoais levados pelo invasor estavam ferramentas herdadas do pai e do irmão já falecido, guardadas havia décadas como lembrança da profissão que atravessa gerações. Em entrevista à reportagem de A Tribuna, Sérgio Antônio Ramos de Carvalho contou que o sentimento é de impotência diante da destruição. "Tinham muitas tesouras antigas, não só de valor financeiro, mas de valor sentimental. Eu as guardava havia quase 40 anos. Eram do meu pai." Na manhã de quarta-feira (5), Sérgio e Hugo chegaram ao salão por volta das 5h40, como fazem todos os dias. A princípio, pensaram que apenas uma luz havia ficado acesa na noite anterior. Em poucos segundos, perceberam que o cenário era muito diferente. "Quando levantamos a porta e vimos a luz acesa, eu falei para o meu irmão: 'Nossa, você esqueceu a luz acesa?'. Só que, quando olhamos para dentro, vimos tudo jogado no chão. A porta arrancada, a parede cheia de marcas dos pés do indivíduo. Meu irmão começou a chorar. Eu fiquei procurando entender o que tinha acontecido". As câmeras de segurança registraram toda a ação. Segundo Sérgio, o criminoso entrou às 23h18, escalando um poste ao lado do imóvel. Depois, passou pela marquise e encontrou uma abertura no telhado que nem mesmo os proprietários conheciam, apesar de estarem no local desde 28 de agosto de 1995. O homem permaneceu cerca de uma hora dentro do estabelecimento. Trinta e um anos de trabalho O Salão Força Carvalho, localizado na Rua Itororó, 117, a cerca de 50 metros do Palácio da Polícia, completa 31 anos no próximo dia 28 de agosto. Durante todo esse período, Sérgio e Hugo nunca haviam enfrentado um ataque semelhante. "Já tivemos um furto anos atrás, mas a pessoa entrou procurando dinheiro. Mexeu nas gavetas, colocou tudo de volta no lugar e foi embora. Dessa vez foi completamente diferente. Ele entrou para destruir." Mais do que furtar, o invasor fez questão de deixar um rastro de destruição. Arrancou torneiras, danificou portas, cortou a tubulação do ar-condicionado para retirar o cobre, espalhou óleo pelo salão, rasgou documentos, revirou armários, jogou roupas no chão, pisoteou ternos usados por Sérgio na igreja e até lançou uma Bíblia ao chão. "O que ele não conseguiu levar, fez questão de quebrar." Ao arrancar as torneiras, o criminoso deixou a água correndo durante horas. Quando os irmãos chegaram, o imóvel estava alagado. Diversos objetos ficaram encharcados e precisaram ser descartados. Máquinas, tesouras e lembranças desapareceram Foram levadas máquinas profissionais utilizadas diariamente pelos irmãos, algumas avaliadas em mais de R\$ 2 mil, além de secadores, pentes, navalhas e todas as tesouras usadas nos atendimentos. Mas o prejuízo sentimental foi ainda maior. Entre os objetos furtados estavam uma navalha com quase 80 anos de uso, tesouras herdadas do pai e do irmão falecido e ferramentas que acompanhavam Sérgio desde o início da profissão. Irmãos (Sérgio à esquerda e Hugo à direita) têm o comércio no Centro de Santos há mais de 30 anos e agora precisam de ajuda para se reerguer (Arquivo Pessoal) "Era coisa de barbeiro mesmo. Eu afiava no couro e na pedra. Hoje nem existe mais. Não era só uma ferramenta. Era uma lembrança do meu pai e do meu irmão." O criminoso também levou documentos, calçados, pequenas joias guardadas para ajudar Hugo em um momento difícil e outros objetos pessoais da família. Drama familiar tornou tudo ainda mais difícil O ataque aconteceu justamente quando os irmãos já enfrentavam dificuldades pessoais. Segundo Sérgio, Hugo passou recentemente por problemas de saúde e também viveu momentos delicados por causa da enfermidade da esposa. Parte das joias guardadas no salão seria vendida para ajudá-lo financeiramente durante esse período. Revolta com a falta de atendimento Além do prejuízo, Sérgio demonstra indignação com o atendimento recebido após o crime. Segundo ele, ao ligar para a Polícia Militar, foi informado de que deveria registrar o boletim de ocorrência antes da ida de uma equipe ao local. Mesmo após o registro, afirma que nenhum policial ou perito compareceu ao salão durante todo o dia. "O indivíduo ficou mais de uma hora aqui dentro. Nós ficamos o dia inteiro limpando o salão e não apareceu ninguém para perguntar se precisávamos de alguma coisa ou solicitar as imagens das câmeras." Recomeçar Depois de passar quase todo o dia limpando o estabelecimento, Sérgio e Hugo tentam reorganizar o espaço para continuar atendendo os clientes que conquistaram ao longo de mais de três décadas. Mesmo abalado, Sérgio diz que pretende seguir em frente. "É uma vida inteira de trabalho. Vamos correr atrás novamente, porque é o que sabemos fazer. Está tudo nas mãos de Deus." Para quem quiser ajudar os irmãos a se reerguerem, amigos fizeram uma vakinha virtual. Basta acessar o link e contribuir com qualquer quantia. -Vídeo furto salão (1.524491)