O assassinato do ex-delegado geral da Polícia Civil de São Paulo e secretário de Administração de Praia Grande, Ruy Ferraz Fontes, completa um ano nesta terça-feira (15). As investigações apontam que a execução pode ter sido uma vingança do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que o policial combateu durante a sua carreira como policial. A Tribuna separou os principais acontecimentos durante esse um ano desde que o assassinato aconteceu. O caso teve grande repercussão no litoral de São Paulo e em todo o País. A Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) informou para a Tribuna nesta terça-feira (15) que o inquérito policial que apurou a morte de Fontes foi concluído pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e relatado à Justiça em novembro de 2025. Ainda de acordo com a Pasta, oito pessoas foram presas e indiciadas por participação no crime e, destas, cinco foram colocadas em liberdade pela Justiça, com uso de tornozeleira eletrônica. Como já noticiado por A Tribuna, Ruy Ferraz Fontes foi morto no dia 15 de setembro de 2025, após ser alvo de uma emboscada ao sair da Prefeitura de Praia Grande. Segundo o Ministério Público de São Paulo (MP-SP), os criminosos utilizaram armas de uso restrito, incluindo fuzis, e dispararam diversas vezes contra a vítima. Duas outras pessoas também ficaram feridas durante o ataque. Após o crime, um dos veículos usados foi incendiado, e os suspeitos fugiram. A investigação aponta que o grupo utilizou carros furtados, imóveis de apoio na Baixada Santista e até aplicativos de transporte para viabilizar a execução. O planejamento do homicídio teria começado meses antes, em março de 2025, com a preparação logística e definição dos envolvidos. Um dos suspeitos identificados morreu durante as investigações, após resistir à prisão. De acordo com informações da Folha de São Paulo, o assassinato de Ruy Ferraz tem 12 suspeitos denunciados, sendo que três ainda estão foragidos e uma mulher responde em liberdade após passar dois meses presa. Todos são réus pelo crime e aguardam o andamento do processo para saber se serão levados a julgamento. Último desdobramento Em março, o MP-SP, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), denunciou mais quatro pessoas por envolvimento no assassinato de Ruy Ferraz Fontes. Segundo o MP-SP, as investigações da Polícia Civil apontam que os denunciados participaram diretamente do planejamento e da execução do homicídio. De acordo com a apuração, o assassinato teria sido encomendado pelo alto escalão do PCC, como retaliação à atuação do ex-delegado contra a facção. Ele comandou a Polícia Civil entre 2019 e 2022 e teve papel de destaque no combate ao crime organizado no estado. Entre os denunciados em março, estão Marcio Serapião de Oliveira, conhecido como “Velhote” ou “MC”; Fernando Alberto Teixeira, o “Azul” ou “Careca”; Manoel Alberto Ribeiro Teixeira, chamado de “Manezinho”; e Robson Roque Silva de Sousa. Conforme o MP-SP, os três primeiros já foram presos durante as investigações, enquanto Robson seguia foragido. Os quatro podem responder por homicídio qualificado, duas tentativas de homicídio, favorecimento pessoal e participação em organização criminosa armada. Primeira denúncia Esta foi a segunda denúncia apresentada pelo MP-SP. Em novembro do ano passado, outras oito pessoas já haviam sido acusadas de envolvimento no crime. Entre elas está Felipe Avelino da Silva, o “Mascherano”, apontado como responsável pelo furto do veículo utilizado na ação, além da adulteração de placas e ocultação do automóvel. Impressões digitais dele foram encontradas no carro. Flávio Henrique Ferreira de Souza também teria participado da ação envolvendo o veículo e segue foragido. Já Luiz Antonio Rodrigues de Miranda é investigado por atuar no planejamento, fornecer imóveis de apoio e colaborar na ocultação das armas, ele também não foi localizado. Outro denunciado, Dahesly Oliveira Pires, é suspeito de transportar e esconder um fuzil, além de munições e carregadores, no dia seguinte ao crime, dando suporte aos executores. Willian Silva Marques teria cedido a própria residência, em Praia Grande, como esconderijo e depósito de armamento. Paulo Henrique Caetano de Sales, preso, teria participado da logística da ação. Cristiano Alves da Silva é apontado como participante tanto da execução quanto do suporte ao crime e segue detido. Já Marcos Augusto Rodrigues Cardoso, conhecido como “Fiel” ou “Penélope”, é indicado como o principal articulador do assassinato. Segundo as investigações, ele exercia a função de “disciplina” do PCC na região do Grajaú, sendo responsável pelo recrutamento dos envolvidos e pela definição dos executores. Conversas interceptadas indicam ainda que ele planejava uma possível fuga para o exterior. Planejamento Em janeiro deste ano, a diretora do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), Ivalda Aleixo, informou que o planejamento da execução ocorreu dentro de um bar em Mongaguá, no litoral de São Paulo. Segundo a delegada, os criminosos chegaram à Baixada Santista em março do ano passado e, desde então, passaram a estruturar a execução. A rotina do ex-delegado passou a ser monitorada de forma mais intensa a partir de junho. “O doutor Ruy passou a ser monitorado mais de perto pelo menos a partir desse período”, disse. Ainda de acordo com Ivalda, os suspeitos têm mais de 20 anos de envolvimento com o crime organizado, com passagens por assaltos a banco, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Quem era fontes Fontes chefiou a Polícia Civil paulista entre 2019 e 2022, após ser nomeado para o cargo de delegado-geral no então governo João Dória (na época, no PSDB). Em 2006, ele foi o responsável por indiciar toda a cúpula do PCC, inclusive Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, antes de os bandidos serem isolados na penitenciária 2 de presidente Venceslau. Ruy assumiu a Secretaria de Administração de Praia Grande em janeiro de 2023, permanecendo na gestão que se iniciou em 2025. Já havia escapado de emboscada Ruy, como era conhecido, já havia escapado em outra oportunidade de um plano para assassiná-lo. Ele trabalhava então no 69.º DP, na Cohab Teotônio Vilela. Era 2010. O delegado havia acabado de deixar a delegacia de Roubo a Bancos, do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), quando o plano de bandidos ligados ao PCC foi descoberto. Fontes dirigiu ainda o departamento de Narcóticos, onde foi responsável pela primeira grande investigação que traço as ações de Gilberto Aparecido do Santos, o Fuminho, o narcotraficante do PCC que foi detido em 2020 em Moçambique em extraditado para o Brasil. Em 2019, ele comandava a Delegacia-Geral quando Marcola e a cúpula do PCC foi transferida para presídios federais. Uma das suspeitas da polícia é que a ação tenha sido obra da Sintonia Restrita, o grupo de pistoleiros do PCC responsável no passado por planos para sequestrar o ex-juiz Sérgio Moro e o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco). Delegado de Polícia por mais de 40 anos, Ruy Ferraz Fontes iniciou a carreira como delegado de Polícia Titular da Delegacia de Polícia do Município de Taguaí (Deinter 7) e ao longo dos anos, foi delegado de Polícia Assistente da Equipe da Divisão de Homicídios do Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP). Foi também delegado de Polícia Titular da 1ª Delegacia de Polícia da Divisão de Investigações Sobre Entorpecentes do Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc); delegado de Polícia Titular da 5.ª Delegacia de Polícia de Investigações Sobre Furtos e Roubos a Bancos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e comandou outras delegacias e divisões na Capital. Fontes também foi Diretor do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (DECAP).