Marcelly Peretto, acusada de envolvimento na morte do próprio irmão, o comerciante Igor Peretto, em Praia Grande, no litoral de São Paulo, escreveu uma carta ao juiz Felipe Esmanhoto Mateo, da Vara do Júri, das Execuções Criminais e da Infância e da Juventude da cidade. No documento, ela volta a negar participação no assassinato, afirma ter deixado o local do crime por medo do então marido, Mário Vitorino, e pede uma oportunidade para reconstruir a vida. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Marcelly está presa e foi pronunciada por homicídio duplamente qualificado, por motivo torpe e meio cruel. O julgamento dela pelo Tribunal do Júri está marcado para 26 de novembro. A decisão de pronúncia significa que a Justiça entendeu haver elementos suficientes para que a acusação seja analisada pelos jurados, e não representa uma condenação definitiva. O crime aconteceu em 31 de agosto de 2024, no apartamento de Marcelly, em Praia Grande. Igor Peretto foi morto a facadas. Segundo a acusação apresentada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), Marcelly, Mário Vitorino e Rafaela Costa da Silva, viúva da vítima, teriam participado de uma trama que resultou na morte do comerciante. A tese do MP é de que Igor seria um “empecilho” em um relacionamento envolvendo os acusados. Os três deverão ser julgados pelo Tribunal do Júri. ‘Meu irmão já estava sem vida’ Na carta encaminhada ao magistrado, Marcelly afirma não ter participado da morte do irmão e sustenta que Igor já estava morto quando ela entrou no quarto. Segundo sua versão, naquele momento ela entrou em estado de choque e passou a pedir socorro. Marcelly também afirma que teria sofrido pressão psicológica e ameaças de Mário e que decidiu sair do apartamento com ele por temer ser morta. “Na minha cabeça, só passou: ‘Ele matou meu irmão. Se eu ficar, ele me mata’”, escreveu. A versão apresentada na carta faz parte da defesa de Marcelly e será confrontada com as demais provas e acusações durante o processo. Relação com o ex-marido Outro ponto abordado no documento é o relacionamento de Marcelly com Mário. Ela conta que o conheceu aos 14 anos, começou a namorá-lo e, aos 17, foi emancipada pelos pais para se casar. Marcelly afirma que, ao longo do relacionamento, desenvolveu uma forte dependência emocional e que o ex-marido passou a exercer controle sobre suas decisões. “Eu dependia totalmente dele emocionalmente, ele determinava e decidia tudo que eu iria fazer”, escreveu. Segundo ela, por Mário ter sido seu primeiro namorado, não conseguia se impor na relação e obedecia às decisões do então marido. Vida na prisão Na carta, Marcelly também descreve a experiência no sistema prisional e diz sofrer com a exposição provocada pelo caso. Ela afirma ter bom comportamento, ter realizado cursos e resenhas de livros e estar trabalhando durante o período de reclusão. A acusada relata ainda o impacto da prisão sobre os pais, especialmente o pai, que, segundo ela, sofre tanto pela morte de Igor quanto pela situação da filha. Marcelly afirma ter planos de constituir uma família no futuro e diz sonhar em trabalhar como comissária de bordo. “Suplico-lhe uma oportunidade de recomeçar”, escreveu ao final do documento. Críticas ao irmão A carta também contém críticas ao vereador de São Vicente, Tiago Peretto (Pode), irmão de Marcelly e de Igor. Ela afirma que Tiago teria mudado de postura depois que o caso ganhou repercussão e o acusa de utilizar a exposição da morte do irmão em benefício próprio. A afirmação é contestada por Tiago. O vereador disse que inicialmente acreditou na versão de Marcelly, mas mudou de posicionamento após ter acesso às imagens de câmeras de monitoramento relacionadas ao dia do crime. Tiago, que já exercia mandato antes da morte de Igor, foi o vereador mais votado de São Vicente nas eleições municipais de 2024. Em 2026, concorreu a deputado estadual, recebeu 35.219 votos e não foi eleito. O crime Segundo a investigação, Igor Peretto foi morto dentro do apartamento de Marcelly. No imóvel estavam Igor, Marcelly e Mário Vitorino. Rafaela Costa da Silva, viúva da vítima, havia estado no apartamento pouco antes. A investigação apontou a existência de relacionamentos entre os envolvidos. O Ministério Público sustenta que a morte foi premeditada e denunciou os três pelo homicídio. Marcelly e Rafaela se apresentaram à polícia e foram presas em setembro de 2024. Mário foi localizado posteriormente em Torrinha, no interior de São Paulo. Com a pronúncia dos acusados, caberá ao Tribunal do Júri analisar as provas, as versões apresentadas pelas defesas e a acusação do Ministério Público para decidir sobre a responsabilidade de cada réu pelo crime.