Um médico de Santos, no litoral de São Paulo, está há mais de um mês sem o próprio carro depois de o veículo ter sido levado durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão relacionado a uma dívida de outra pessoa do Rio de Janeiro. O Honda HR-V EXL, adquirido zero quilômetro pelo médico em 2023, foi apreendido em 23 de julho de 2026, na Ponta da Praia, por uma equipe que, segundo os documentos apresentados e relatos de quem estava no local, contava com oficial de Justiça, representante do Banco Itaú, responsável pelo guincho e policiais militares. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O proprietário, de 78 anos, que preferiu não se identificar, afirma que nunca financiou o automóvel, não conhece a mulher apontada como devedora no processo e jamais autorizou que o veículo fosse utilizado como garantia. Segundo o médico, o carro estava estacionado regularmente na Rua André Vidal de Negreiros, na Ponta da Praia. Na manhã de 23 de julho, ele deixou o veículo no local porque obras em sua residência impediam o uso da garagem. Por volta das 13h, quando saiu para trabalhar, percebeu que o automóvel havia desaparecido. “Eu não sabia o que estava acontecendo e perguntei para umas pessoas que trabalham em uma padaria em frente. Falaram que o carro tinha sido guinchado e que estava acompanhado por uma viatura da Polícia Militar”, relatou. A Tribuna teve acesso ao boletim de ocorrência registrado naquele dia, que inicialmente classificou o caso como furto de veículo. O documento aponta que testemunhas informaram que o veículo havia sido removido por volta das 9h por um guincho acompanhado por uma viatura policial. O proprietário ainda procurou a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de Santos e compareceu ao pátio municipal, mas não encontrou registros do automóvel. A Tribuna também apurou com a Companhia e verificou que não houve atuação da parte deles. A situação mudou quando o médico descobriu que a remoção estava relacionada a uma ordem judicial. Conforme os documentos apresentados pelo advogado Eudes Sizenando Reis, a apreensão ocorreu por determinação da 1ª Vara Cível de Seropédica, no Rio de Janeiro. A ação de busca e apreensão foi movida contra uma mulher, apontada no processo como responsável por um financiamento com garantia fiduciária - acordo em que você passa a propriedade temporária de um bem para o banco até pagar toda a dívida. Segundo a defesa do médico, porém, ele não tem qualquer relação com a mulher ou com o contrato. O advogado afirma que o veículo do médico foi associado à operação de financiamento apesar de apresentar características diferentes das indicadas no gravame - registro oficial que indica que um bem está vinculado a um contrato de financiamento ou garantia. O Honda foi fabricado e lançado como modelo 2023/2023, enquanto o gravame questionado apresentaria referência a um veículo de fabricação 2017 e modelo 2018, embora utilizasse identificação relacionada à placa do automóvel do médico. Outro ponto levantado pela defesa é que o próprio Banco Itaú teria baixado o gravame no fim de julho. O advogado também afirma que não há, até o momento, explicação documental sobre como o banco ou seus representantes localizaram o veículo em Santos, a cerca de 500 quilômetros de Seropédica. O médico comprou o Honda zero quilômetro em uma concessionária de Santos, em março de 2023. Conforme a documentação apresentada pelo advogado, a nota fiscal foi emitida em 29 de março daquele ano, no valor de R\$ 158,7 mil. O pagamento à vista documentado foi de R\$ 155,7 mil, realizado em 28 de março. A própria concessionária confirmou, em resposta à notificação enviada pela defesa, que vendeu o veículo zero quilômetro ao médico, que o entregou ao comprador e que não realizou posteriormente qualquer outra venda, cessão ou negócio envolvendo o automóvel. A empresa também declarou não conhecer a mulher apontada no processo de busca e apreensão. “Foi pago à vista. O carro saiu com licenciado, com placa, com tudo. Sempre foi meu, nunca negociei o carro”, afirmou o médico. Mulher que aparece no processo já havia contestado financiamento Um documento obtido por A Tribuna acrescenta uma informação à história. Em novembro de 2025, meses antes da apreensão do veículo em Santos, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) analisou um recurso apresentado por uma mulher que aparece como parte no processo relacionado à busca e apreensão. O acórdão da 14ª Câmara de Direito Privado do TJRJ mostra que a mulher já havia recorrido à Justiça para contestar uma cobrança feita pelo Itaú. Segundo o documento, ela afirmou que não havia contratado ou autorizado um financiamento de veículo que gerava descontos mensais de R\$ 1.526,47 em sua conta. O contrato questionado era referente a um Honda HR-V EXL 1.5, modelo 2023, financiado em 48 parcelas de R\$ 1.526,47. Na ação, a mulher pediu que o banco deixasse de realizar os descontos e de negativar seu nome em razão do contrato. Em primeira instância, o pedido de tutela de urgência havia sido negado. Ela recorreu ao Tribunal. No julgamento realizado em 27 de novembro de 2025, os desembargadores da 14ª Câmara de Direito Privado deram parcial provimento ao recurso, por unanimidade. O relator, desembargador Álvaro Henrique Teixeira de Almeida, determinou que o banco se abstivesse de efetuar descontos na conta da mulher e de negativar seu nome em razão do contrato discutido, sob pena de multa diária de R\$ 100, limitada a R\$ 20 mil. Ao analisar o recurso, o relator afirmou que havia, naquele momento e em análise preliminar, elementos que davam semelhança à alegação de que a mulher não havia contratado o financiamento. O acórdão cita comprovantes dos descontos e a ausência de assinatura da autora nos contratos apresentados no processo. A decisão, porém, não representa uma conclusão definitiva de que houve fraude ou de que o financiamento não existia. O próprio Tribunal destacou que a análise ocorreu em caráter preliminar e que uma avaliação mais aprofundada dependeria da instrução do processo. O documento também registra que o débito estava sendo discutido judicialmente e que não havia, naquele momento, certeza sobre a própria existência da obrigação. A informação é apontada pela defesa do médico como um elemento relevante porque o financiamento contestado pela mulher envolve um Honda HR-V EXL 1.5, modelo 2023, enquanto o veículo do médico, também um Honda HR-V 2023, acabou sendo apreendido em Santos em uma ação relacionada ao financiamento. O advogado afirma que os veículos seriam o mesmo, principalmente pela coincidência da placa, identificada nos documentos como FJG2C15. Ao mesmo tempo, a defesa aponta divergências nos dados do automóvel, principalmente em relação ao ano de fabricação e modelo indicados no gravame. O acórdão do TJRJ, por sua vez, não afirma que o carro apreendido em Santos é o mesmo veículo mencionado no contrato discutido pela mulher. Essa relação é justamente um dos pontos que a defesa do médico busca esclarecer no processo. Defesa tenta localizar veículo e aguarda decisão no Rio Segundo o advogado do médico, a defesa só conseguiu identificar a origem da ordem de apreensão depois de realizar buscas em sistemas judiciais de São Paulo e procurar informações junto ao distribuidor. “Eu comecei a procurar no sistema do TJ, de São Paulo, para saber o que tinha acontecido com o veículo dele. Não encontrei absolutamente nada”, relatou. Diante da dificuldade para localizar o processo e o automóvel, a defesa procurou a Renac e o Itaú. Posteriormente, segundo o advogado, foi descoberto que o processo tramitava em Seropédica, no Rio de Janeiro, e que havia pedido de segredo de Justiça relacionado à medida de busca e apreensão. Eudes afirma que apresentou embargos de terceiro em Santos, em 28 de julho, enquanto tentava identificar o processo originário. Posteriormente, a medida também foi apresentada ao Judiciário do Rio de Janeiro. O processo foi apensado à ação de busca e apreensão. O advogado afirma ainda que já entrou em contato três vezes com o cartório responsável pelo processo no Rio de Janeiro para pedir a análise urgente dos embargos. A preocupação, segundo ele, é evitar que o veículo seja transferido ou vendido a terceiros antes de uma decisão judicial. “Eu já entrei em três ocasiões diversas em contato com o cartório do Rio de Janeiro para pedir apreciação de liminar, dizendo que era urgente para que esse carro não fosse para a mão de terceiros”, afirmou. Segundo Eudes, o médico recebeu uma notificação do Senatran informando que o veículo poderia ser alienado a terceiros. Por isso, a defesa apresentou uma emenda aos embargos. Até o momento, porém, segundo o advogado, a liminar ainda não foi analisada pela Justiça do Rio de Janeiro. “Já foi apensado, já tem número de processo, mas agora estou aguardando. A juíza ainda não se manifestou nos autos, não apreciou ainda os embargos”, disse. Advogado vê possível fraude Para Eudes, a principal questão a ser esclarecida é como o veículo adquirido pelo médico em 2023 foi relacionado a um financiamento e que, segundo os documentos apresentados pela defesa, indicaria outro ano de fabricação e modelo. O advogado afirma acreditar que houve uma fraude, mas ressalva que essa conclusão ainda deverá ser demonstrada judicialmente. “Eu acredito piamente. Como uma instituição bancária vai conceder um empréstimo para alguém sem verificar o veículo?”, questionou. Eudes afirma que, na avaliação dele, o banco deveria ter realizado uma inspeção ou conferência do automóvel antes de conceder o financiamento. Ele, no entanto, reforça que, por enquanto, trata a situação como um possível equívoco e que eventual acusação de fraude deverá ser discutida em uma futura ação. “Eu não posso afirmar categoricamente. Isso vai ser objeto na ação de indenização, onde eu vou ter que fazer essa prova”, afirmou. Segundo o advogado, as provas apresentadas nos embargos incluem a nota fiscal de compra do veículo e uma declaração da concessionária que confirma a venda do automóvel ao médico. “Agora, como eles fizeram isso? É uma fraude. Eles não verificaram, não inspecionaram o veículo quando concederam o empréstimo. Isso é fato”, disse. Na sequência, porém, o advogado voltou a ponderar que a eventual fraude ainda precisa ser comprovada. A defesa também notificou o Itaú e a Renac sobre o que considera um erro na apreensão do veículo. Dependendo do resultado dos embargos, Eudes afirma que pretende avaliar o ajuizamento de uma ação de indenização contra o banco. Carro segue sem destino informado Depois da apreensão, o médico procurou o advogado para descobrir onde o veículo estava e qual processo havia determinado a medida. A defesa inicialmente apresentou embargos de terceiro em Santos, em 28 de julho, enquanto tentava identificar o processo originário. No dia seguinte, 29 de julho, uma manifestação também foi apresentada à Justiça de Seropédica. Posteriormente, o Juízo da 6ª Vara Cível de Santos determinou, em 5 de agosto, a remessa dos embargos para a 1ª Vara Cível de Seropédica. Atualmente, a defesa aguarda a análise do caso pelo Judiciário do Rio de Janeiro. Segundo o advogado, o objetivo é suspender eventual transferência ou alienação do veículo e conseguir a restituição do automóvel. O médico diz que não foi informado previamente sobre a busca e apreensão. “Eu nunca recebi nenhuma comunicação de que esse carro seria alvo de uma busca e apreensão. Nem do Banco Itaú, nem de juiz, nem de oficial de Justiça”, afirmou. Após registrar o boletim de ocorrência, o médico recebeu uma comunicação da Polícia Civil informando que o veículo havia sido localizado e estava em posse do banco. Segundo ele, a comunicação também informou que o caso havia sido encerrado. O paradeiro atual do automóvel não é conhecido pelo proprietário. Segundo o médico, um representante da seguradora HDI que esteve em sua residência levantou a hipótese de que o carro esteja em um pátio do Banco Itaú, no Jabaquara, em São Paulo. Eudes, porém, afirma não ter confirmação sobre o local onde o veículo está. Sem o veículo, o médico acionou o seguro e recebeu um automóvel reserva. A seguradora, entretanto, se recusou a indenizá-lo. O carro reserva está disponível até 12 de setembro. Além do Honda, o médico afirma que foram levados quatro óculos de sol, uma cadeirinha infantil, credenciais de estacionamento, além do manual do veículo. Para o advogado, o caso apresenta inconsistências que ainda precisam ser esclarecidas judicialmente. “São eles que vão ter que responder e o Itaú vai ter que provar que esse veículo realmente tem a ver com o que eles estão requerendo”, afirmou. Segundo Eudes, dependendo da decisão dos embargos, poderão ser avaliados posteriormente pedidos de indenização por danos materiais e morais, entre outros. “Cabe ao Judiciário dizer se houve ou não fraude”. Posicionamentos Questionada, a Polícia Militar informou por meio de nota que foi acionada, na manhã de 23 de julho, para prestar apoio a um Oficial de Justiça no cumprimento de um mandado judicial de busca e apreensão do veículo em questão, na Rua André Vidal de Negreiros, no bairro Ponta da Praia, em Santos. No local, o Oficial de Justiça apresentou o mandado judicial e estava acompanhado por um representante do Itaú interessado e pelo condutor do guincho responsável pela remoção do veículo, o qual não pertence à frota da Polícia Militar. Segundo a corporação, a atuação da Polícia Militar restringiu-se ao apoio operacional para garantir a segurança durante o cumprimento da determinação judicial, não tendo participado diretamente da remoção do veículo. Por fim, informou que demais informações sobre a medida judicial devem ser verificadas junto ao Poder Judiciário. Em nota, o Itaú informa que, desde que soube do caso de fraude praticada por terceiros, está atuando para apoiar sua resolução. Informou ainda que o banco acompanha a situação de perto, colaborando com as investigações e prestando todo o suporte necessário aos envolvidos. Por lei, detalhes não podem ser divulgados por causa do sigilo bancário. A Décima Quarta Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, HDI Seguros e a concessionária que vendeu o veículo ao médico também foram procuradas, e a reportagem aguarda um posicionamento sobre o caso.