Denilson (à esquerda) foi morto a facadas na madrugada de 31 de janeiro; Alysson (à direita) confessou o crime aos policiais no litoral de São Paulo (Reprodução/ Redes sociais) Laudo necroscópico anexado ao processo da morte de Denilson Nascimento Alves, de 28 anos, aponta que o cabeleireiro foi atingido por ao menos cinco facadas, parte delas quando já estava caído no chão, durante o crime ocorrido na madrugada de 31 de janeiro, em Iguape, no litoral de São Paulo. Alysson Augusto Alves Franco, de 27 anos, que confessou o homicídio e está preso temporariamente. Ele havia alegado que agiu em legítima defesa. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A informação consta em manifestação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), que investiga o caso como homicídio qualificado. De acordo com o órgão, o laudo pericial apontou escoriações em diversas regiões do corpo e que algumas das lesões foram infligidas quando Denilson já estava deitado no chão. Alysson confessou à polícia ter desferido os golpes, mas sustenta que agiu em legítima defesa. Segundo ele, o cabeleireiro teria exibido uma faca, que estaria escondida atrás do corpo, e o ameaçou. O MP-SP, no entanto, aponta haver indícios que colocam essa versão em dúvida. O órgão afirma que a versão apresentada pelo investigado é “discutível” devido ao tamanho da faca e destaca a desproporção entre as lesões sofridas pela vítima e o ferimento apresentado por Alysson, descrito como uma “escoriação mínima no dedo indicador direito”. A sobrinha de Denilson, ex-esposa de Alysson, afirmou que viu o momento em que o cabeleireiro já estava no chão quando o ex-marido continuou a desferir golpes, enquanto ela pedia para que ele parasse. Na manifestação, o Ministério Público aponta que a mãe da vítima relatou à polícia ter ouvido gritos de uma mulher dizendo “pare, pare, pelo amor de Deus, pare, Alysson”. Alysson foi localizado a cerca de quatro quilômetros do local do crime, com roupas sujas de sangue e em posse do celular do cabeleireiro, que estava com a tela danificada. Para o MP-SP, o fato pode indicar tentativa de destruição ou ocultação de provas, especialmente mensagens que revelariam um relacionamento afetivo extraconjugal entre o investigado e a vítima – apontado pelo órgão como possível motivação do crime. “A eliminação da vida humana como forma de resposta a conflito de natureza estritamente pessoal revela desvio acentuado de autodeterminação e menosprezo pela dignidade da vítima, circunstâncias que, segundo entendimento consolidado, caracterizam a torpeza do motivo, sobretudo quando o agente se vale da violência letal para impor sua vontade ou resolver frustrações afetivas”, diz a manifestação. Caso a Justiça interprete o caso como homicídio qualificado, Alysson pode ser condenado de 12 a 30 anos de prisão, de acordo com o Código Penal. Prisão temporária Com base nesses elementos, a Justiça aceitou novo pedido do MP-SP e decretou a prisão temporária de Alysson, destacando o risco de interferência nas investigações, a possibilidade de influência sobre testemunhas e a necessidade de realização de diligências pendentes, como quebras de sigilo telefônico e bancário, análise de imagens de câmeras de segurança e novas oitivas. Relembre o caso Conforme os autos do processo, aos quais a reportagem de A Tribuna teve acesso, a ex-mulher de Alysson relatou para a Polícia Civil que, horas antes do crime, estava com o então marido em shows em Iguape e depois em Ilha Comprida, cidade vizinha no litoral de São Paulo. De acordo com o depoimento, durante os shows, ela percebeu trocas de mensagens entre o marido e Denilson com tom de discussão. Após ser bloqueado, o cabeleireiro teria começado a mandar mensagens para a sobrinha. Segundo ela, Denilson dizia que precisava contar algo para ela e o marido pessoalmente – e que, se eles não fossem, a situação seria pior. Depois dos shows, Alysson e a mulher seguiram até a residência do cabeleireiro. Ao chegarem ao local, Denilson teria ido até o portão e dito a Alysson: “Eu conto ou você conta?” Em seguida, afirmou que os dois mantinham um caso amoroso há muito tempo. O marido respondeu que contaria o que quisesse e negou o relacionamento. A esposa relatou que ficou nervosa e disse que não queria mais vê-los – conforme apurado por A Tribuna, o casal tem uma filha de 7 anos e estava junto há quase uma década, porém o relacionamento teve um fim após o episódio. Ataque e luta corporal Neste momento, Denilson teria exibido uma faca, que estaria escondida atrás do corpo, e ameaçado Alysson: “Olha aqui para você”. Durante interrogatório, Alysson relatou que o cabeleireiro estava transtornado e teria levado o objeto próximo ao seu rosto e pescoço. Aos policiais, ele alegou que entrou em luta corporal para se defender e que possui um corte na mão causado por isso. Ainda no relato, negou que o ato tenha sido premeditado e disse estar arrependido. Segundo o depoimento da ex-esposa de Alysson, o ex-marido aparentava estar atordoado e repetia que apenas havia se defendido. Ela declarou que tentou intervir para separar os dois e viu Alysson recuar, dizendo: “Vamos embora, não aconteceu nada”. Na sequência, percebeu Denilson caído e sangrando, mas ainda respirando. Após chamar socorro, ela permaneceu no local aguardando a chegada da equipe médica. Versão da amiga Após o crime, Alysson fugiu de carro e se encontrou com uma amiga, de 18 anos. Para a Polícia, a jovem afirmou que ainda estava no local do show, no Centro de Iguape, quando recebeu ligações e mensagens dele pedindo que fosse encontrá-lo. Ao chegar, encontrou Alysson nervoso e alterado, dizendo que “havia feito uma m… muito grande” e que tinha se envolvido em uma briga, mas que “apenas se defendeu”. Ela contou que queria ir embora, mas, antes disso, o veículo em que estavam foi abordado pela polícia. Alysson nega relacionamento Alysson afirmou à polícia que nunca manteve qualquer relacionamento amoroso com o cabeleireiro e que o vínculo entre eles sempre foi apenas familiar, já que a vítima era tio de sua ex-esposa. Segundo ele, Denilson enfrentava problemas de depressão, fazia uso de medicamentos controlados e consumia drogas. Alysson também reforçou que, na madrugada do crime, o cabeleireiro insistia em conversar com sua esposa por mensagens, o que teria antecedido a discussão. O crime O cabeleireiro Denilson Nascimento Alves, de 28 anos, morreu após ser esfaqueado na frente da própria casa, no bairro Rocio, em Iguape, na madrugada de sábado (31). Alysson Augusto Alves Franco, de 27 anos, confessou o crime e foi preso em flagrante com manchas de sangue nas roupas. Após o homicídio, Alysson tentou fugir de carro e acabou localizado por equipes da Força Tática da Polícia Militar pouco tempo depois. Com ele, os policiais apreenderam objetos que foram encaminhados para perícia, entre eles celulares e um relógio com vestígios de sangue. O veículo utilizado na fuga também foi recolhido. A Polícia Científica esteve na casa da vítima. No local, foram encontrados tubos do tipo eppendorf, alguns vazios e outros contendo cocaína, material que foi apreendido para análise. Liberdade provisória Alysson teve a prisão em flagrante homologada, mas recebeu liberdade provisória após audiência de custódia. O Judiciário entendeu que, naquele momento, não havia elementos suficientes para decretar a prisão preventiva. Na decisão, o juiz considerou fatores como a ausência de antecedentes criminais, residência fixa, vínculos familiares e a possibilidade de reconhecimento de legítima defesa ou de um enquadramento penal menos grave. Também foi levado em conta um ferimento na mão do investigado, compatível com a versão apresentada de defesa contra arma branca. Alysson foi colocado em liberdade ainda no sábado, 31 de janeiro, mediante medidas cautelares, como comparecimento periódico à Justiça, proibição de deixar a comarca sem autorização judicial e restrições de circulação. Segunda prisão Na última quinta-feira (5), Alysson foi preso temporariamente em sua casa, no bairro Rocio, em Iguape, no litoral de São Paulo, após novo pedido de prisão feito pelo Ministério Público Estadual (MP-SP) ser aceito pela Justiça. De acordo com a sentença, obtida por A Tribuna, havia indícios de que ele poderia interferir na apuração do crime.