“Eu gosto da minha vida, gosto de viver. Perdi minha paz e a minha liberdade”. A frase do advogado criminalista Rafaell Câmara Roque, de 36 anos, resume as consequências deixadas por uma noite de aproximadamente seis horas sob o poder de criminosos em um barraco na Vila Esperança, em Cubatão, na Baixada Santista. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Dois meses depois de ter sido atraído para uma emboscada e submetido ao chamado “tribunal do crime”, o advogado afirma que continua com medo. Desconfia de ligações, não revela onde está e já não consegue manter a rotina que tinha antes do episódio. “Eu perdi a confiança nas pessoas. É um trauma muito grande, é difícil acreditar em todo mundo”, afirmou Rafaell em entrevista para A Tribuna. O medo chegou ao ponto de, durante a própria conversa com a reportagem, admitir que já não consegue ter certeza de que as pessoas são realmente quem dizem ser. Apesar disso, decidiu tornar pública a história. Segundo ele, falar sobre o que aconteceu é uma tentativa de chamar a atenção para a força do crime organizado e para a necessidade de combatê-lo. Emboscada começou com pedido de serviço O sequestro ocorreu na noite de 11 de junho. Rafaell contou que recebeu uma ligação de um homem que afirmou precisar dos serviços de um advogado criminalista. O interlocutor mencionou nomes de advogados conhecidos de Rafaell, o que ajudou a dar credibilidade ao pedido. Acreditando que atenderia a um cliente, ele aceitou ir ao endereço indicado. Rafaell afirmou ter descoberto posteriormente que o homem que fez o contato seria ligado ao PCC. A participação e a posição dos investigados na facção são apuradas pelas autoridades. Ao chegar ao barraco, o advogado percebeu que algo estava errado. A certeza, segundo ele, veio ao reconhecer, em uma chamada de vídeo, um dos homens envolvidos na disputa empresarial que havia motivado uma ação judicial conduzida por Rafaell. Para o advogado, naquele momento ficou claro que sua ida ao local havia sido planejada. Cerca de 50 pessoas teriam acompanhado ‘tribunal’ Quando Rafaell chegou ao local, havia poucas pessoas. Aos poucos, porém, o pequeno barraco começou a ficar lotado. “Inicialmente tinha umas sete e depois cada vez foi chegando mais gente”, recordou. Ele calcula que aproximadamente 30 pessoas estavam presencialmente no local, enquanto outras dez teriam acompanhado o episódio por chamadas de vídeo. Em relatos anteriores, o advogado afirmou ainda que havia pessoas embalando drogas enquanto o “julgamento” acontecia. A intenção inicial do grupo, segundo Rafaell, era conseguir o endereço do cliente que ele representava na disputa empresarial. O advogado se recusou a fornecer a informação. A partir daí, as ameaças teriam se intensificado. Rafaell afirma que ninguém o agrediu fisicamente durante as aproximadamente seis horas em que permaneceu sob o poder dos criminosos. Isso, porém, não tornou a experiência menos violenta. “(Agressão) Física eu não sofri nenhuma, ninguém encostou em mim, mas o tempo todo eles vinham para cima de mim, me amedrontar, para me apavorar, para me coagir mesmo”, afirmou. Em outro relato sobre o episódio, o advogado chegou a comparar a tortura psicológica a uma agressão física. “Em nenhum momento me agrediram, mas a agressão verbal foi muito pior do que a física”, declarou. Segundo Rafaell, os criminosos também pegaram seu celular, o obrigaram a desbloquear o aparelho e tiveram acesso a informações pessoais e conteúdos íntimos. O advogado afirmou ainda que foi obrigado a gravar um vídeo relacionado ao material encontrado no telefone e que teria sido ameaçado com a divulgação desse conteúdo caso não atendesse às exigências do grupo. Fingiu passar mal para tentar sair vivo No início, Rafaell acreditava que poderia explicar a situação e apresentar sua versão aos homens que participavam do “tribunal”. Com o passar das horas e o aumento das ameaças, porém, percebeu que a situação era muito mais grave. Segundo ele, o medo deu lugar ao pânico e à busca por qualquer estratégia que pudesse ajudá-lo a sair vivo. Rafaell estima que permaneceu no local entre 19h e 1h da madrugada seguinte. Quando finalmente conseguiu sair, disse ter sentido uma mistura de raiva, tristeza e indignação. “Estava com muita raiva, muito triste, chorando, com sentimentos de injustiça, de indignidade, de podridão, de ver o que é o ser humano, de ver o que é o crime organizado”, contou. O motivo seria disputa por empresa Segundo Rafaell, o objetivo final do grupo era obrigá-lo a abandonar uma ação judicial envolvendo uma empresa do setor pesqueiro em Guarujá. O advogado representava uma das partes em uma disputa societária. Segundo seu relato, os criminosos queriam que ele e seu cliente deixassem definitivamente o processo. “Eles só queriam uma coisa: queriam que eu saísse do processo junto com o meu cliente, para ele ficar com a empresa inteira”, afirmou. O empreendimento possui, segundo informações fornecidas pelo advogado, 440 m² em área portuária, três barcos pesqueiros, duas câmaras frigoríficas, três máquinas para limpar camarão e uma máquina de fabricar gelo. Ameaças continuaram depois da libertação Deixar o barraco não significou o fim do pesadelo. Segundo Rafaell, integrantes do grupo voltaram a procurá-lo após o sequestro para cobrar o cumprimento do que havia sido determinado durante o “tribunal do crime” e exigir documentos relacionados ao processo. “Se eu não cumprisse o que eu tinha combinado, a minha vida corria perigo, eles iam me matar”, relatou. O advogado, então, procurou o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, e entregou às autoridades informações sobre os contatos e ameaças recebidos. O caso deu origem à Operação Patrocínio Fiel, deflagrada em 12 de agosto pelo Ministério Público, em parceria com a Polícia Militar. A operação tentou cumprir sete mandados de prisão e 19 de busca e apreensão em Guarujá, São Vicente, Praia Grande e Cubatão, além de Florianópolis, em Santa Catarina. Segundo o Ministério Público, a ação buscou interromper os crimes, preservar a integridade do advogado e reunir provas para as investigações. ‘Não posso revelar onde estou’ O trauma, segundo Rafaell, transformou sua rotina. Antes do sequestro, ele conta que morava em frente à praia, praticava esportes diariamente e circulava livremente. Agora, afirma que poucas pessoas sabem onde ele está. Em relatos anteriores, Rafaell afirmou ter passado 15 dias sem dormir após o sequestro e disse enfrentar momentos de medo e pânico. ‘Quero viver muito ainda’ Mesmo diante do medo, Rafaell afirma que não pretende se calar. Para ele, tornar o caso público é também uma forma de cobrar maior enfrentamento ao crime organizado. A fé, segundo o advogado, tornou-se fundamental nesse processo. Ele se define como seguidor de Jesus Cristo, embora diga não pertencer a uma religião específica, e afirma encontrar na espiritualidade forças para continuar. “Eu me deparei com essa situação e estoub enfrentando. Não vou fugir dela. Eu vou até onde eu tiver que ir”, disse. Por trás da disposição de denunciar o que aconteceu, entretanto, está o medo de que aquela noite ainda possa ter consequências. “Não quero morrer. Quero viver muito ainda, tenho muita coisa para viver.”