Um alvará falso foi enviado ao cliente (à esq.), e um comprovante de um dos valores que saiu do banco da vítima (à dir.) (Reprodução) O advogado João Ivaniel de França Abreu, de 71 anos, de Cubatão, na Baixada Santista, registrou boletim de ocorrência após descobrir que criminosos estavam utilizando sua imagem para aplicar golpes em clientes. Segundo ele, ao menos oito pessoas que possuem ou possuíam processos sob sua responsabilidade foram procuradas pelos golpistas. Um dos clientes acabou perdendo R\$ 47 mil. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! João contou que descobriu a fraude após começar a receber mensagens de clientes perguntando se determinadas conversas enviadas por WhatsApp eram realmente dele. “Eu tive surpresa com vários clientes meus mandando mensagens, perguntando se eu tinha enviado alguma mensagem para eles”. De acordo com o advogado, os criminosos utilizavam uma fotografia dele vestindo uma jaqueta e se apresentavam como se fossem ele. As mensagens tratavam de supostos valores que os clientes teriam a receber em ações judiciais finalizadas ou em andamento. Segundo João, os golpistas enviavam comunicações detalhadas contendo o número do processo da vítima e informações sobre a ação judicial. Em uma das mensagens, afirmavam que havia sido movida uma ação contra a pessoa, que o juiz teria proferido sentença favorável ao cliente reconhecendo seu direito à indenização e que a decisão já havia transitado em julgado, sem possibilidade de recursos pela outra parte. Na sequência, os criminosos informavam que seriam tomadas as providências para o cumprimento da sentença e para a liberação dos valores. Para concluir o procedimento, solicitavam dados bancários da vítima, como número da conta e da agência, alegando que seriam necessários para cadastrar e liberar a suposta indenização. Exemplo das mensagens que eram enviadas para os clientes do advogado (Reprodução) João afirmou que os golpistas utilizavam seu nome nas mensagens, mencionavam o nome da pessoa processada e procuravam reproduzir informações verdadeiras do processo para dar credibilidade à fraude. Um dos alvos foi um caminhoneiro, cliente de João em um processo de cobrança relacionado a um cheque prescrito. Segundo o advogado, o homem acabou fornecendo informações aos criminosos durante a conversa e teve o dinheiro que mantinha na conta bancária retirado. “Eles levaram todo o dinheiro que ele tinha. Foram R\$ 47 mil”. O valor perdido, segundo João, não tinha relação com a ação judicial. O dinheiro retirado pelos criminosos já estava na conta bancária do cliente e não era proveniente do processo, que continua em andamento e sem qualquer pagamento liberado pela Justiça. “Não tem processo nenhum resolvido”. Conforme os comprovantes apresentados ao advogado, foram realizadas diversas transferências via Pix. Entre elas, duas movimentações de mais de R\$ 19 mil e outra de cerca de R\$ 4 mil. Somadas às demais operações, as transferências totalizaram aproximadamente R\$ 47 mil. Os golpistas enviam diversas mensagens para enganar os clientes (Reprodução) Ainda conforme o advogado, os criminosos informaram valores que não correspondiam ao andamento real do processo. O caminhoneiro teria direito a receber aproximadamente R\$ 6.574 caso obtenha êxito na cobrança judicial, mas os golpistas mencionaram quantias diferentes durante a abordagem, no valor de R\$ 3.352,51. João explicou que a ação envolve um cheque prescrito recebido pelo cliente durante atividades profissionais ligadas ao transporte de cargas. Após o reconhecimento judicial da dívida, foi iniciado o cumprimento de sentença para tentar localizar bens e valores da devedora. O advogado também relatou que os criminosos chegaram a encaminhar um suposto alvará judicial. No documento, eram utilizadas referências ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) e à Federação, além do nome de um magistrado. Mas, segundo João, seus processos tramitam na Justiça Estadual de São Paulo, e não na Justiça Federal. Alerta aos clientes O advogado afirmou que costuma alertar seus clientes sobre esse tipo de situação e que não utiliza mensagens de texto para tratar de resultados processuais. “Eu nunca mando mensagem escrita para meus clientes sobre resultado de processo. Eu chamo aqui no escritório ou ligo”, disse. Dos oito clientes procurados pelos criminosos, sete identificaram a tentativa de fraude e entraram em contato com João para confirmar a autenticidade das mensagens. “Dos oito que foram contatados por essa quadrilha, só um caiu”, lamentou. Boletim de ocorrência Após tomar conhecimento dos fatos, João registrou um boletim de ocorrência pela internet. Até o momento, segundo ele, não houve retorno das autoridades sobre o andamento da investigação. Os valores somados passam dos R\$ 40 mil no golpe aplicado no caminhoneiro (Reprodução) O cliente que perdeu os R\$ 47 mil também procurou o banco para contestar as movimentações financeiras. O pedido, segundo o advogado, ainda está em análise. Além do prejuízo sofrido pelo cliente, João demonstrou preocupação com a facilidade com que os criminosos conseguem obter informações relacionadas aos processos e aos contatos das vítimas. “O que eu fico muito preocupado é a facilidade que esse indivíduo tem de fazer as movimentações em banco. E pior: como é que eles conseguem os telefones das pessoas?”, questionou. Como funciona o golpe Segundo Eduardo Ferrari, coordenador da Força-Tarefa para Enfrentamento do Golpe do Falso Advogado da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB-SP), o crime faz parte de uma engenharia social utilizada por organizações criminosas especializadas em golpes digitais. “O advogado e a advogada são aqueles que estão buscando os direitos da pessoa na Justiça e possuem um prestígio perante o cliente. Os golpistas se aproveitam dessa confiança”, explicou. De acordo com Ferrari, os grupos criminosos atuam em diferentes etapas. Em uma delas, criminosos obtêm indevidamente informações processuais utilizando mecanismos automatizados e credenciais de advogados. “A experiência tem mostrado que eles utilizam um sistema de robô que baixa os dados. Para fazer isso, se utilizam indevidamente de uma credencial de advogado. Depois, essas informações circulam entre outras organizações criminosas, que realizam as abordagens às vítimas”, afirmou. Segundo Ferrari, os dados obtidos podem ser comercializados entre criminosos antes de serem usados para aplicar os golpes, e os estelionatários costumam enviar documentos falsificados para convencer as vítimas, como decisões judiciais, alvarás e comprovantes. “Muitas vezes, eles criam documentos que possuem aparência legítima. Um advogado, ao bater o olho, percebe que não são verdadeiros, mas o cidadão comum nem sempre consegue identificar isso”, disse. O coordenador ressaltou que não há indícios de participação de advogados nos casos acompanhados pela força-tarefa. “Nós temos quase 6 mil casos registrados e não temos um único registro de advogado envolvido. O que temos são advogados vítimas, que tiveram seus dados utilizados indevidamente pelos criminosos”, afirmou. Pessoas vulneráveis são os principais alvos Segundo Ferrari, não existe um perfil específico de ataque por parte dos criminosos, mas há grupos mais vulneráveis às fraudes. “Em regra, quando o golpista consegue obter êxito, são pessoas mais desconectadas da tecnologia. Mas não só. Pessoas esclarecidas também caem, porque o golpista trabalha com a surpresa de uma notícia positiva, com a urgência e com a pressão para que tudo seja resolvido rapidamente”, explicou. Ainda conforme o coordenador, os criminosos costumam explorar a expectativa de quem aguarda uma decisão judicial ou um pagamento. “O advogado raramente leva esse tipo de informação por WhatsApp. Normalmente, ele chama o cliente ao escritório, realiza uma reunião ou utiliza os canais oficiais já conhecidos pelo cliente”, afirmou. Como evitar cair no golpe A principal orientação da OAB-SP é desconfiar de contatos inesperados, principalmente por aplicativos de mensagens. “O advogado não pede para depositar valores em contas pessoais, não pede senha bancária do cliente e não pede depósitos em contas que não sejam vinculadas ao escritório. Esses são sinais claros de golpe”, alertou Ferrari. Segundo o coordenador, sempre que houver uma abordagem informando sobre liberação de valores, sentenças favoráveis ou necessidade de envio de dados bancários, a recomendação é interromper a conversa e procurar diretamente o advogado responsável pelo processo. “Recebeu qualquer documento, mensagem ou informação sobre o processo, entre em contato com o advogado pelos canais que você já conhece. Não dê sequência ao diálogo iniciado por um número desconhecido”, orientou. O que dizem as autoridades Em nota, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) informou que não houve invasão clandestina aos sistemas, nem vazamento de dados processuais de João Ivaniel de França Abreu. Segundo o órgão, os acessos citados ocorreram mediante o uso de senhas válidas para a extração indevida de informações dos autos, com a colaboração, voluntária ou não, de pessoas externas autorizadas pelo sistema de Justiça. O TJ-SP afirmou ainda que as apurações internas realizadas pelos órgãos de segurança da informação não identificaram falhas nos sistemas do tribunal. A instituição ressaltou que mantém equipes de vigilância 24 horas por dia e investimentos permanentes em mecanismos de proteção de dados. Já a Secretaria da Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) informou que o caso foi registrado como falsa identidade pela Delegacia Eletrônica e encaminhado à Delegacia de Polícia de Cubatão. Segundo a pasta, a autoridade policial realiza investigações para apurar e esclarecer todas as circunstâncias dos fatos.