[[legacy_image_305868]] Indiciado pela Polícia Civil por estupro de vulnerável e por adquirir, possuir e armazenar materiais com pornografia infantil, o neurocirurgião de Santos João Luís Cabral Junior, de 52 anos, foi responsável por um paciente cuja história resultou na canonização de Madre Teresa de Calcutá. O caso aconteceu no Hospital São Lucas, em Santos, onde o médico trabalhava, em dezembro de 2008. Na época, um engenheiro, então com 35 anos, estava internado no hospital em decorrência de transtornos neurológicos causados por oito abscessos cerebrais. De acordo com especialistas, pacientes com apenas dois abscessos na cabeça têm 90% de chance de morrer. Vinte dias após a internação, o engenheiro entrou em coma, e chegou a receber a extrema-unção de um padre. Sua única chance de sobrevivência era uma cirurgia de drenagem. Nos preparativos para a intervenção cirúrgica, o neurocirurgião precisou buscar um catéter. Nesse intervalo, o engenheiro acordou e o procedimento foi abortado. Com isso, o paciente voltou para um quarto normal do hospital, onde o tratamento à base de antibióticos continuou até que ele conseguiu receber alta 45 dias depois, curado. Tempo depois, foi revelado que o engenheiro tinha recebido uma medalha e a oração de Madre Teresa do pároco de uma igreja da cidade, o qual acompanhou a recuperação do engenheiro posteriormente. Médico deu depoimento à IgrejaSegundo a revista Veja, o pároco pediu ajuda a membros da Igreja Católica da região para que conseguisse comunicar o possível milagre ao Vaticano. Mais de sete anos depois, a Igreja passou a estudar o caso. Em 2015, o papa Francisco enviou uma comitiva a Santos para investigar o ocorrido mais minuciosamente. Ao longo de quatro dias, foi organizado o Tribunal sobre a Causa da Bem-Aventurada Teresa de Calcutá na diocese de Santos, que tinha como função reunir testemunhos e documentos que comprovassem o milagre. Os participantes da reunião, sigilosa, tinham de jurar perante a Bíblia manter segredo do que foi visto e falado. Além do engenheiro e sua esposa, um padre e três médicos, entre eles o neurocirurgião Cabral Júnior, prestaram depoimento às autoridades católicas. À Veja, o médico santista revelou ter recusado, a princípio, os pedidos de freiras devotas de Madre Teresa para participar da reunião e relatar o tratamento feito no hospital. “Eu me neguei de imediato. Disse que não ia violar o sigilo médico. Para isso, elas teriam de obter autorização da família e do Conselho Federal de Medicina. Algum tempo depois, elas voltaram com os avais, e mesmo assim eu resisti”, disse o neurocirurgião na época. A resistência também foi motivada pelo fato de Cabral Júnior dizer, naquele momento, ser seguidor da religião pagã wicca, cujas crenças diferem significativamente dos preceitos do catolicismo. Um apelo do pai do médico, um ex-padre jesuíta, fez com que o neurocirurgião mudasse de ideia. Relembre o casoNo dia 26 de setembro, policiais civis de Taboão da Serra cumpriram um mandado de busca e apreensão no apartamento do médico, que fica na Ponta da Praia, em Santos. Foram apreendidos um computador, quatro notebooks, um HD externo e um celular. Questionado pelos policiais sobre o armazenamento de pornografia infantil, Cabral Junior negou as acusações e disse que seria um conceituado médico neurocirurgião, com consultório próprio e que coordena a clínica do Hospital Associação Policial de Assistência à Saúde da Baixada Santista (Apas), em Santos. No entanto, em uma breve inspeção dos conteúdos armazenados nos equipamentos apreendidos, localizaram-se arquivos de mídia com cenas de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade sexual, confirmando o crime. Segundo o boletim de ocorrência registrado, entre os vídeos encontrados, havia material produzido pelo próprio médico. Cabral Júnior chegou a ser preso, mas passou por audiência de custódia e responde aos supostos crimes em liberdade.