O avanço do Ebola voltou a colocar autoridades sanitárias internacionais em alerta. O atual surto provocado pelo vírus Bundibugyo, uma espécie de ebolavírus, já ultrapassou 2 mil mortes na República Democrática do Congo (RDC) e continua apresentando transmissão intensa e expansão geográfica. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O balanço mais recente da Organização Mundial da Saúde (OMS), com dados até 9 de agosto, registra 4.381 casos confirmados e 2.011 mortes no país africano. Isso significa uma taxa bruta de letalidade de 45,9% entre os casos confirmados. A velocidade preocupa. A marca de 2 mil mortes foi alcançada apenas 86 dias depois de o surto ter sido oficialmente declarado, em 15 de maio. Em apenas uma semana, foram acrescentados ao balanço 579 casos confirmados e 304 mortes. A situação fez com que organismos internacionais pedissem uma intensificação urgente das medidas de controle. A OMS descreve a transmissão como intensa e em expansão, enquanto autoridades e especialistas alertam que a resposta sanitária tem enfrentado dificuldades para acompanhar a velocidade de disseminação. Segundo maior surto de Ebola da história A dimensão da epidemia já colocou o episódio atual entre os maiores registrados desde a descoberta do Ebola, em 1976. Segundo a OMS, este já é o maior surto conhecido provocado pelo vírus Bundibugyo e o segundo maior surto de doença pelo Ebola da história, atrás apenas da epidemia que atingiu a África Ocidental entre 2013 e 2016. A província de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo, continua sendo o epicentro. Ela concentra 85,8% dos casos confirmados acumulados e 80,6% das mortes registradas no país. O vírus, entretanto, não ficou restrito à região onde os primeiros casos foram identificados. Dados anteriores da OMS já apontavam registros em diferentes províncias congolesas, incluindo Kivu do Norte, Kivu do Sul, Haut-Uélé e Tshopo. Ebola já atravessou fronteira A preocupação internacional aumentou porque o vírus chegou a Uganda, país vizinho da República Democrática do Congo. Um dos primeiros episódios registrados ocorreu com um paciente procedente do território congolês que morreu enquanto recebia atendimento em uma unidade de saúde ugandense. Em maio, diante do crescimento dos casos e do risco de disseminação para outros países, a OMS declarou o surto uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional, o nível máximo de alerta previsto pelo Regulamento Sanitário Internacional. Isso, entretanto, não significa que exista atualmente uma pandemia de Ebola. No começo de agosto, a OMS informou que não havia sido detectada nova propagação internacional, mas destacou que a transmissão contínua mantém elevado o risco de disseminação regional e para outros países. Por que o surto está tão difícil de controlar? O cenário enfrentado pelas equipes de saúde é particularmente complexo. O surto ocorre em uma região marcada por crise humanitária, insegurança, deslocamentos populacionais e intenso movimento de pessoas e mercadorias. A doença também circulou silenciosamente antes de o surto ser identificado. Em maio, a OMS já indicava que o vírus provavelmente estava sendo transmitido havia semanas antes da confirmação oficial, dificultando o rastreamento dos contatos e permitindo a formação de cadeias de transmissão desconhecidas pelas autoridades. Outro desafio é a própria variante responsável pelo surto. O vírus Bundibugyo é uma espécie de ebolavírus diferente do Zaire ebolavirus, responsável por outros grandes surtos. Segundo a OMS, não existe atualmente vacina licenciada nem tratamento específico aprovado para a espécie Bundibugyo, embora candidatos estejam sendo estudados. No início de agosto, a Moderna anunciou o início do primeiro teste em humanos de uma vacina experimental desenvolvida especificamente contra o vírus Bundibugyo. Como o Ebola é transmitido? O Ebola não se espalha da mesma maneira que vírus respiratórios, como os causadores da gripe. A transmissão entre pessoas ocorre principalmente pelo contato direto com sangue e outros fluidos corporais de alguém infectado, assim como pelo contato com objetos e superfícies contaminados. Uma pessoa também pode contrair a doença ao entrar em contato com animais infectados. Depois da infecção, podem aparecer sintomas como febre, fraqueza intensa, dores musculares, dor de cabeça e dor de garganta. Em seguida, alguns pacientes apresentam vômitos, diarreia, alterações no funcionamento de órgãos e sangramentos internos ou externos. A gravidade e a elevada letalidade tornam essenciais a identificação rápida dos pacientes, o isolamento dos casos, o acompanhamento das pessoas que tiveram contato com infectados e os sepultamentos realizados de forma segura. Existe risco para o Brasil? Apesar do alerta internacional, os dados disponíveis não indicam circulação do Ebola no Brasil nem uma disseminação global da doença. A OMS considera preocupante a possibilidade de expansão para outras regiões e mantém o acompanhamento internacional do surto. A declaração de emergência mundial serve justamente para coordenar ações entre países, acelerar recursos e aumentar a vigilância antes que a situação avance. Por isso, é importante diferenciar dois conceitos: o atual surto é uma emergência internacional de saúde pública, mas isso não significa que o Ebola esteja circulando de forma generalizada pelo planeta. O sinal de alerta, porém, permanece alto. Em pouco menos de três meses desde a declaração oficial, mais de 4,3 mil infecções foram confirmadas e mais de 2 mil pessoas morreram. A capacidade de localizar rapidamente novos pacientes e interromper as cadeias de transmissão será decisiva para impedir que o segundo maior surto de Ebola já registrado alcance proporções ainda maiores.