A medida representa um golpe para a agência sediada em Paris, fundada após a Segunda Guerra Mundial para promover a paz (Daniel Torok/White House/Divulgação) O governo dos Estados Unidos anunciou que vai deixar novamente a Unesco, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura. A retirada, revelada nesta terça-feira (22), é mais um passo da administração do ex-presidente Donald Trump no seu retorno ao poder, reforçando uma política de distanciamento de instituições multilaterais e reafirmando a agenda America First. A decisão deve ser efetivada até dezembro de 2026, mas seus impactos já começam a ser sentidos, inclusive no Brasil. Por que os EUA estão saindo da Unesco A justificativa oficial do governo americano é que a Unesco promove pautas sociais e culturais consideradas ideológicas, alinhadas a valores globais com os quais a atual administração não concorda. A vice-porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, declarou que os Estados Unidos não pretendem continuar financiando instituições que, segundo ela, promovem divisões culturais e não atendem aos interesses nacionais. Essa não é a primeira vez que os EUA deixam a Unesco. Em 1984, durante o governo Reagan, o país já havia se retirado da organização, retornando em 2003. Em 2017, sob a presidência de Trump, saiu novamente, sob alegação de viés anti-Israel. Em 2023, já no governo Biden, os Estados Unidos voltaram ao órgão. Agora, dois anos depois, a relação bilateral sofre novo rompimento. Impactos globais e mudança de forças internas na Unesco Com a saída americana, que hoje representa cerca de 8% do orçamento da Unesco (um valor já inferior aos 22% de contribuições históricas até 2011), a organização enfrenta a necessidade de reorganizar suas finanças e reforçar alianças com outros países. A China, que já ampliou suas contribuições à agência nos últimos anos, tende a ganhar ainda mais espaço de influência, o que pode reorientar prioridades internas e modificar o eixo de decisões sobre temas como liberdade acadêmica, pluralismo cultural e desenvolvimento educacional. O que muda para o Brasil Embora o Brasil não esteja diretamente envolvido na decisão americana, os efeitos dessa saída podem ter consequências práticas e estratégicas para o país. A Unesco é responsável por dezenas de programas em território nacional, e a ausência de um dos principais financiadores pode afetar tanto o orçamento quanto a representatividade política da instituição — o que influencia diretamente nas agendas em que o Brasil participa. Um dos exemplos mais visíveis é a Rede de Cidades Criativas da Unesco, da qual fazem parte 14 municípios brasileiros, como Belém, Florianópolis, Paraty, João Pessoa, Salvador, Brasília e Santos. Essas cidades recebem apoio técnico, reconhecimento internacional e participam de intercâmbio de políticas públicas ligadas à gastronomia, literatura, design, cinema e música. Caso a Unesco reduza sua capacidade de articulação ou mude suas diretrizes sob influência de novos países dominantes, esses programas podem perder força ou ser redirecionados para outras regiões. Outro ponto sensível é o conjunto de 24 patrimônios mundiais brasileiros reconhecidos pela Unesco, entre eles Ouro Preto, Brasília, o Centro Histórico de Olinda, a Ilha de Fernando de Noronha, o Parque Nacional do Iguaçu e o Cais do Valongo, no Rio de Janeiro. A eventual mudança nas prioridades da organização, aliada à redução de recursos, pode afetar o acompanhamento técnico, as parcerias de preservação e até mesmo a chancela de novos patrimônios. O Brasil também participa de diversas iniciativas ligadas à educação básica, educação indígena, promoção da diversidade linguística e acesso ao conhecimento científico, em cooperação com a Unesco. Com menos recursos disponíveis e menor influência americana em decisões colegiadas, é possível que haja alteração na escolha de projetos, na distribuição de verbas e no perfil das iniciativas apoiadas.