A corrida pela inteligência artificial ganhou um novo obstáculo. Enquanto grandes empresas investem bilhões de dólares para automatizar processos, uma pesquisa revelou que a maioria dos clientes ainda não confia no trabalho realizado com ajuda da IA. Levantamento da consultoria Source Global Research, divulgado pelo jornal britânico The Telegraph, mostra que 70% dos clientes afirmam que não confiariam em um relatório elaborado com inteligência artificial. Entre as quase 3,9 mil empresas entrevistadas, 32% disseram que perderiam a confiança na consultoria caso descobrissem que o trabalho foi produzido com auxílio da tecnologia. Os dados surgem justamente no momento em que as maiores consultorias do planeta aceleram a adoção da IA para reduzir custos, automatizar tarefas e diminuir a dependência de mão de obra humana. Gigantes apostam na IA Empresas como PwC, Deloitte, EY e KPMG, conhecidas como as "Big Four" da consultoria mundial, vêm reduzindo programas de contratação de recém-formados desde a popularização do ChatGPT, ao mesmo tempo em que ampliam os investimentos em inteligência artificial. Segundo a Management Consultancies Association (MCA), mais de 75% das consultorias do Reino Unido já utilizam IA para executar parte de seus serviços. Além disso, algumas delas criaram plataformas próprias. A PwC lançou o ChatPwC, um assistente interno desenvolvido para automatizar tarefas repetitivas, enquanto KPMG e PwC firmaram parcerias com empresas como Microsoft e OpenAI. Erros colocam tecnologia em xeque Apesar das promessas de aumento de produtividade, o uso da inteligência artificial já provocou situações constrangedoras. Segundo o The Telegraph, relatórios produzidos pela PwC no Oriente Médio apresentaram citações falsas e informações que não puderam ser verificadas, obrigando a empresa a revisar parte do material. A Deloitte também enfrentou críticas após entregar um relatório ao governo australiano que continha erros atribuídos ao uso de IA. A empresa chegou a conceder um reembolso parcial pelo serviço. Os episódios reforçaram um dos principais receios dos clientes: a possibilidade de informações incorretas serem apresentadas como verdadeiras. Especialistas defendem equilíbrio Para Tamzen Isaacson, diretora da Management Consultancies Association, a inteligência artificial não deve substituir totalmente os profissionais. Segundo ela, o maior potencial da tecnologia está em atuar como ferramenta de apoio, combinando rapidez de processamento com experiência humana e capacidade de julgamento. Nova concorrência Outro desafio para as consultorias tradicionais é que empresas responsáveis pelos principais modelos de IA também passaram a oferecer serviços de consultoria. Gigantes como OpenAI, criadora do ChatGPT, e Anthropic, responsável pelo Claude, já ajudam empresas a implementar soluções baseadas em inteligência artificial, concorrendo diretamente com as consultorias tradicionais. Além disso, a expectativa é que a IA pressione os preços dos serviços. Se parte do trabalho puder ser automatizada, clientes tendem a exigir contratos mais baratos, reduzindo as margens de lucro do setor. A pesquisa mostra que, embora a inteligência artificial esteja transformando o mercado corporativo, a confiança dos clientes ainda depende da participação humana, indicando que a tecnologia, ao menos por enquanto, deve atuar mais como uma aliada do que como substituta dos profissionais.