Em pronunciamento à nação, presidente francês prometeu também ajuda rápida aos comerciantes atingidos pelos saques e diálogo com estudantes (Reprodução/X) Visando mitigar os impactos da inflação no setor energético que motivaram mobilizações com centenas de milhares de cidadãos nas vias públicas no sábado (17), o presidente francês, Emmanuel Macron, declarou nesta data que cumprirá agenda oficial na região do Golfo Pérsico a partir de segunda-feira (19) para assegurar o suprimento de gás e combustíveis. Em mensagem transmitida ao país, o chefe de Estado comprometeu-se a conceder suporte financeiro célere aos estabelecimentos comerciais afetados por pilhagens, além de manter interlocução com a classe estudantil. "Compreendo perfeitamente essa preocupação", assinalou o mandatário ao abordar as apreensões populares perante a alta do custo de vida e os reajustes nos combustíveis. Macron associou a disparada das cotações às turbulências bélicas no Golfo Pérsico, um desdobramento que, segundo destacou, não contou com o envolvimento direto do governo francês, embora o país absorva seus impactos econômicos. Organizada previamente ao início dos atos populares, a comitiva presencial do mandatário permanecerá no exterior entre os dias 19 e 21 de outubro, abrangendo etapas no Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Catar. Informações fornecidas pelo Palácio do Eliseu indicam que o objetivo central da missão é contratar lotes complementares de petróleo e óleo diesel que colaborem para atenuar as tarifas finais praticadas nas bombas do território francês. Representantes do alto escalão das companhias Engie e TotalEnergies integram a comitiva presidencial. O conflito armado, deflagrado em 28 de fevereiro após investidas balísticas promovidas por Estados Unidos e Israel contra o Irã, resultou na interrupção prática do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz por iniciativa do governo de Teerã. O canal, que estabelece a ligação entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, concentrava em torno de 20% do fluxo global de gás natural liquefeito e petróleo. O indicador Brent, parâmetro do mercado europeu, superou o patamar de US\$ 105 por barril. A pauta oficial da viagem contempla ainda debates acerca da garantia de livre navegação naquela rota marítima e o estudo de caminhos alternativos para a distribuição de petróleo, segundo o Eliseu. Levantamentos do governo apontam que o litro do diesel, cotado em aproximadamente 1,70 euro nas bombas francesas anteriormente ao irrompimento das hostilidades, alcançou valor médio de 2,36 euros nos primeiros sete dias de outubro. Como medida emergencial, a administração estatal autorizou o repasse de 10 milhões de barris de diesel alocados em suas reservas estratégicas para as distribuidoras. A transação se dará com base no valor de compra original, inferior às cotações vigentes no mercado internacional, estimando-se uma retração de 12 a 18 centavos de euro por litro cobrado dos motoristas entre 1º de novembro e janeiro, ao longo de três meses. Durante a fala pública, Macron explicou que a gestão celebrou acordos operacionais junto ao setor de distribuição a fim de assegurar o repasse efetivo da redução ao consumidor final. "Sei que os franceses esperam resultados concretos, e continuaremos a agir", assegurou. O movimento de rua ocorrido no sábado somou-se às manifestações estudantis que ocorriam desde o mês de setembro contra a infraestrutura escolar. O ato reuniu professores, universitários, integrantes de centrais sindicais e produtores rurais, unificados pelas demandas relativas ao custo de vida. Registros de confrontos, focos de incêndio e saques a estabelecimentos comerciais foram assinalados em diversos pontos urbanos do país. Diante do rastro de danos, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu vai capitanear um comitê de emergência na segunda-feira para viabilizar a liberação ágil de recursos de assistência. De acordo com estimativas preliminares divulgadas por Alexandre Bompard, que ocupa a presidência da Federação do Comércio e da Distribuição e a liderança executiva da rede Carrefour, por volta de 1 500 lojas sofreram degradações, contabilizando perdas de centenas de milhões de euros. No mesmo dia, o titular da pasta do Comércio, Serge Papin, coordenará um encontro com representantes do setor varejista, instâncias bancárias e companhias seguradoras para dimensionar as perdas patrimoniais, o rendimento das atividades operacionais e os arranjos de fomento corporativo. O presidente também fez menção direta aos movimentos conduzidos pela juventude desde setembro. Ele ressaltou que a população estudantil manifesta uma "angústia profunda" e que suas demandas exigem ser acolhidas "sem preconceito e sem minimizar as dificuldades". Um canal digital sob responsabilidade do Ministério da Educação somou mais de 100 mil manifestações registradas. Uma força-tarefa reunindo estudantes secundaristas e universitários, docentes, lideranças empresariais, corpos sindicais, gestões locais e legisladores atuará ao lado da administração pública "a partir desta semana" para a construção de medidas efetivas.