A píton Jodie Foster passando por tratamento contra o câncer no zoológico de Chester (Zoológico de Chester/Pensilvânia/Divulgação) Uma píton de 4,5 metros e 40 quilos passou por um tratamento contra o câncer normalmente utilizado em humanos e, após o procedimento, voltou a se alimentar normalmente. O caso é considerado inédito pelos veterinários do zoológico de Chester, no Reino Unido. E há ainda uma curiosidade no nome do animal: a cobra se chama Jodie Foster, em homenagem à atriz americana vencedora do Oscar. Paciente nada convencional Jodie Foster é uma píton-reticulada de 23 anos. Ela recebeu esse nome quando chegou ao zoológico de Cheshire, há cerca de duas décadas. Na época, a equipe encontrou as iniciais “JF” na documentação do animal, referentes a “fêmea juvenil”. A coincidência levou à escolha do nome da atriz. O problema de saúde surgiu em 2024. Os tratadores perceberam que Jodie estava comendo menos e descobriram um fibrossarcoma, tumor maligno localizado na mandíbula. A situação era preocupante porque o crescimento do tumor tornava cada vez mais difícil para a cobra se alimentar. Tratamento adaptado Depois de removerem o tumor e parte da mandíbula em uma cirurgia, os veterinários decidiram recorrer à eletroquimioterapia. O tratamento combina o medicamento anticancerígeno bleomicina com pulsos elétricos controlados aplicados diretamente na região do tumor. A técnica permite que o medicamento penetre de maneira mais eficaz e possibilita o uso de doses menores. A equipe do zoológico trabalhou com especialistas em câncer para adaptar o procedimento à cobra. Segundo Ian Ashpole, veterinário do zoológico de Chester, a equipe acreditava que havia risco de perder Jodie e decidiu avaliar se seria possível utilizar a técnica no animal. “Até onde sabemos, esta é a primeira vez que isso foi usado em um projeto desse tipo”, afirmou. Duas mesas cirúrgicas foram unidas para realizar o procedimento na píton de 4,5 metros (Zoológico de Chester/Pensilvânia/Divulgação) Duas mesas para acomodar a paciente O tamanho de Jodie criou um desafio adicional para os veterinários. Os tratadores e a equipe médica anestesiaram a píton em seu próprio habitat antes de levá-la ao centro veterinário do zoológico. Como ela tem 4,5 metros de comprimento, duas mesas cirúrgicas precisaram ser unidas para criar um espaço equivalente ao tamanho de uma cama de casal. Durante o procedimento, a equipe também precisou controlar cuidadosamente a temperatura corporal da cobra. Foram utilizados cobertores aquecidos e ar aquecido para mantê-la estável durante a operação. A cirurgia durou 90 minutos. De acordo com o veterinário, Jodie teve uma recuperação considerada rápida. Voltou a comer Depois da retirada do tumor e de parte da mandíbula, a eletroquimioterapia foi aplicada para atingir possíveis células cancerígenas que ainda permanecessem no local. O resultado mais recente trouxe boas notícias. Em um exame realizado nesta semana, os veterinários não encontraram sinais de que o câncer tivesse voltado. O apetite de Jodie também retornou ao normal. Em imagens divulgadas pelo zoológico, ela aparece comendo um frango inteiro. A cirurgia não afetou uma das características mais impressionantes das pítons: a capacidade de desarticular as mandíbulas para engolir presas maiores do que a própria cabeça. Caso pode ajudar outros animais Para os veterinários envolvidos, o procedimento não representa apenas a recuperação de Jodie. José Alvarez Picornell, do departamento de ciência clínica de pequenos animais da Universidade de Liverpool, afirmou que os detalhes do procedimento serão publicados formalmente para que profissionais de outras partes do mundo possam conhecer o trabalho. A expectativa é que a experiência contribua para pesquisas veterinárias e para o desenvolvimento de tratamentos aplicáveis a diferentes animais. Para Ian Ashpole, ver Jodie novamente ativa e se alimentando normalmente é especialmente significativo porque, poucos meses antes, não havia certeza de que ela sobreviveria. Agora, segundo ele, a píton voltou a explorar seu habitat e a apresentar o comportamento esperado. O caso também é apontado pelo veterinário como um exemplo do avanço da medicina veterinária e da possibilidade de adaptar conhecimentos da oncologia humana ao tratamento de animais.