Eles já dão chutes, fazem acrobacias, recolhem roupas sujas, abrem gavetas e conseguem buscar uma caixa de remédios depois de receber uma ordem por voz. A rápida evolução dos robôs humanoides chineses abriu uma nova frente na disputa tecnológica entre China e Estados Unidos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo reportagem publicada pelo jornal britânico The Telegraph, o governo norte-americano proibiu a importação de robôs avançados em meio ao temor de que equipamentos chineses conectados possam ser usados para coleta de dados, espionagem ou até controlados remotamente. A decisão ocorre enquanto a China acelera a produção de máquinas projetadas não apenas para fábricas e centros de distribuição, mas também para trabalhar em lojas, cafés, hospitais, casas de repouso e residências. Uma das empresas que lideram essa corrida é a chinesa Unitree. Depois de chamar atenção mundial com robôs humanoides realizando artes marciais, a companhia passou a demonstrar máquinas executando tarefas cotidianas. Em um dos protótipos apresentados, o robô apelidado de “Benben” responde a comandos de voz, recolhe roupas sujas e consegue abrir uma gaveta para encontrar a caixa de medicamentos solicitada. Por que os Estados Unidos estão preocupados? A Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC, na sigla em inglês) justificou a proibição alegando riscos relacionados aos dados coletados pelos equipamentos. Segundo o órgão, essas informações poderiam ser utilizadas por agentes mal-intencionados para monitorar cidadãos americanos, ampliar a capacidade de serviços estrangeiros de inteligência ou até permitir o controle remoto dos robôs, conforme publicado pelo The Telegraph. O deputado republicano John Moolenaar também apresentou uma proposta, com apoio de democratas, para que o Pentágono avalie restrições aos equipamentos chineses. “Não podemos permitir que esses robôs se tornem predominantes em nosso país”, afirmou o parlamentar, segundo o jornal britânico. Pequim reagiu. O Ministério das Relações Exteriores chinês acusou Washington de adotar uma “mentalidade hegemônica” e ameaçou responder com as “medidas necessárias”. A disputa pelos robôs se soma a outras batalhas tecnológicas travadas pelas duas maiores economias do planeta, envolvendo inteligência artificial, semicondutores e minerais estratégicos. China pode produzir 100 mil robôs em um ano Os números ajudam a explicar a preocupação americana. Empresas chinesas produziram cerca de 16 mil robôs humanoides no ano passado. Segundo autoridades citadas pelo The Telegraph, o país caminha para produzir 100 mil unidades em 2027. A China reúne aproximadamente 150 empresas dedicadas aos humanoides, além de uma ampla indústria de robótica e fornecedores de componentes. Cerca de 90% dos robôs humanoides comercializados no mundo no ano passado teriam sido fabricados por companhias chinesas, segundo dados apresentados na reportagem. O governo chinês também está colocando dinheiro pesado nessa corrida. Pequim destinou 1 trilhão de yuans — aproximadamente £ 110 bilhões — para fomentar a indústria de robótica. A estratégia lembra a utilizada para desenvolver a indústria chinesa de veículos elétricos, que posteriormente ganhou espaço no mercado internacional. Robôs para cuidar de idosos Existe ainda uma razão demográfica para a pressa chinesa. A população da China pode encolher cerca de 60 milhões de pessoas durante a próxima década, ao mesmo tempo em que o número de idosos cresce. Com menos trabalhadores disponíveis e sem intenção de recorrer à imigração em massa, o país aposta nos humanoides para preencher postos nas fábricas e também desempenhar funções no setor de serviços e no cuidado com a população mais velha. As empresas, por isso, tentam desenvolver máquinas capazes de fazer muito mais do que carregar caixas. A UBTech, de Shenzhen, por exemplo, já experimenta pele de silicone e expressões faciais responsivas. A intenção é tornar os equipamentos mais adequados para locais como casas de repouso e recepções de hotéis. 10 milhões de humanoides até 2035? A corrida pode transformar profundamente o mercado de trabalho. O Bank of America estima, segundo o The Telegraph, que cerca de 10 milhões de robôs humanoides poderão estar em operação no planeta até 2035. Em 2060, a projeção chegaria a impressionantes 3 bilhões de unidades. Nesse cenário, humanoides poderiam substituir aproximadamente um quinto dos trabalhadores industriais e metade da mão de obra empregada no setor de serviços. Ainda há, porém, enormes obstáculos tecnológicos. Robôs precisam aprender a executar tarefas com segurança em ambientes humanos imprevisíveis. E é justamente nesse ponto que a inteligência artificial ganha importância. Os Estados Unidos ainda possuem vantagem no desenvolvimento de IA avançada. A China, por outro lado, conta com escala industrial, subsídios públicos, grande número de fabricantes e uma cadeia de fornecedores capaz de produzir equipamentos rapidamente e com custos menores. Elon Musk também pretende entrar com força nessa disputa por meio do Optimus, robô humanoide desenvolvido pela Tesla. Um novo ‘momento ChatGPT’ Wang Xingxing, fundador e presidente-executivo da Unitree, acredita que a indústria chinesa de humanoides esteja entre dois e dez anos de viver seu próprio “momento ChatGPT” — uma virada tecnológica capaz de acelerar a adoção em massa. “Quando a tecnologia ultrapassar esse ponto de inflexão, os robôs poderão gradualmente ser implementados para uso comercial em larga escala”, afirmou o empresário, segundo o The Telegraph. A proibição americana pode dificultar os planos de algumas fabricantes. A Unitree, por exemplo, informou a investidores que as vendas nos Estados Unidos representam até um quinto de sua receita. Mas a corrida está apenas começando. Durante décadas, filmes como “Star Wars”, “Blade Runner”, “O Exterminador do Futuro” e “Robocop” ajudaram a imaginar um futuro no qual máquinas humanoides convivem com pessoas. Agora, China e Estados Unidos disputam quem conseguirá transformar primeiro essa ficção científica em uma indústria de massa. Com informações do The Telegraph