Se a tendência continuar, o litoral paulista poderá testemunhar uma homogeneização da fauna, com poucas espécies dominando e muitas outras desaparecendo da memória (Pixabay) O litoral de São Paulo está passando por uma transformação visível para quem observa com atenção a paisagem sonora e visual das cidades. Cores, cantos e comportamentos típicos de algumas aves estão se tornando raros, enquanto novos hábitos surgem com outras espécies que se multiplicaram e agora ocupam espaços urbanos. A reportagem de A Tribuna consultou especialistas, que afirmam que a mudança é resultado direto da destruição de ecossistemas como a Mata Atlântica e dos impactos da urbanização acelerada. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp O biólogo Leonardo Casadei, autor do livro Aves da Costa da Mata Atlântica, explica que esse é um padrão conhecido: “Com a destruição dos ecossistemas, teremos mais espécies generalistas, que se adaptam à presença humana e à urbanização, e menos espécies especialistas, que precisam de um tipo de floresta ou de alimentação muito específicos”. Estas últimas, portanto, acabam desaparecendo das áreas degradadas. É o caso do pardal (Passer domesticus), que sofre com a competição por alimento e território e também com a predação. Segundo o biólogo Eric Comin, a redução de espaços verdes e o aumento de predadores urbanos criam um cenário desfavorável para espécies de pequeno porte. Ele cita que os gaviões, aves predadoras, registraram aumento de população em zonas urbanas devido à perda de seus habitats. Por consequência do próprio nicho ecológico, acabam caçando ninhos e filhotes de outras aves, como os pardais e até mesmo corujas. Quem está ganhando espaço Com a diminuição das áreas de floresta, certas espécies são forçadas a procurar novos ambientes, muitas vezes próximos às pessoas. Comin explica que, com a perda de habitat, ocorre um aumento de algumas espécies em áreas urbanas, praias e gramados. “Elas encontram nesses locais condições adequadas para se alimentar e reproduzir, e acabam estabelecendo novos territórios”, afirma. Um exemplo é o tapicuru (Phimosus infuscatus), ave de bico longo e curvado, parente do guará-vermelho. Adaptável, ele explora praias, mangues e margens de rios em busca de crustáceos, moluscos, caranguejos e folhas aquáticas. Embora esteja se tornando mais visível no litoral, seu avanço não significa, necessariamente, boas notícias. “A presença dele em áreas abertas é um indicativo de que estamos perdendo nossas matas. Esse deslocamento é um alerta sobre a saúde do meio ambiente”, destaca Comin. Tradicional no cerrado, mas pouco conhecido na região, o Tucano-Açu é outro que vem se beneficiando com essas mudanças. “Hoje já é registrado em Praia Grande, Itanhaém, Mongaguá e até em Santos”, comenta Casadei. Outra ave destacada é a pomba-de-bando (Patagioenas picazuro). O animal, comumente visto na orla da praia, competia pouco com a fauna litorânea no passado, mas hoje disputa território e alimento com a tradicional rolinha-roxa. Ele também menciona outras espécies que vêm ganhando espaço com as mudanças. Entre elas, estão o joão-de-barro, conhecido por suas casas de barro em postes e árvores, assim como a lavadeira-mascarada, que se beneficia de gramados e áreas abertas, e o anu-branco, que se alimenta de insetos e pequenos vertebrados encontrados facilmente nas cidades.