[[legacy_image_28953]] Está mais caro fazer reforma em casa. O cimento aumentou 12,74% em agosto, em comparação com o mesmo mês do ano passado, enquanto a argamassa subiu 9,71% no mesmo período, no varejo, segundo dados do Índice de Preço ao Consumidor (IPC), divulgado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe). Especialistas dizem que os números surpreenderam e têm muito a ver com o auxílio emergencial do governo. Em consequência, quem aproveitou o isolamento para fazer reforma acabou gastando mais. Segundo a Fipe, os reparos em domicílio ficaram 4,08% mais caros em relação ao ano passado, mesmo com a pandemia. Outros itens que registraram alta, considerados a cesta básica da reforma em casa, foram a tinta, que subiu 6,80%, tubos, com alta de 3,33%, e areia, com subida de 1,85%. O único produto que caiu, mas em tendência de estabilidade, foi o piso (-0,83%). Para a economista e coordenadora de Projetos da Construção da Fundação Getúlio Vargas-Instituto Brasileiro de Economia (FGV-Ibre), Ana Maria Castelo, foi uma surpresa que o auxílio emergencial não foi somente para a comida – também sobrou um pouco para reformar a casa. “Muitas famílias, se vendo dentro de casa, foram fazendo a reforma elas mesmas. Para diversos núcleos familiares, o auxílio foi um adicional de renda. Um extra com garantia que permitiu a elas a oportunidade de melhorar suas habitações. Esse movimento não foi antecipado por nenhum setor”, afirma ela. Classe média gasta mais O superintendente da Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco), Waldir Abreu, diz que a classe média puxou essa alta de demanda por produtos básicos porque a casa é considerada item essencial e, normalmente, há mais ajustes a serem feitos que numa residência de classe alta, por exemplo. No Nordeste, quase 70% dos empresários do varejo da construção disseram que as vendas aumentaram durante a pandemia, segundo pesquisa da FGV-Ibre, a pedido da Anamaco. “O aumento de cimento e argamassa mostra que houve reformas mesmo, pois são itens básicos nesse sentido, ao contrário de itens de pequenos reparos, que não tiverem aumento expressivo”, diz. Abreu diz que durante o auge da pandemia houve demanda consistente, que se prolongou até o fim de junho. “No segundo semestre, esse movimento é intensificado, pois historicamente há mais demanda porque as pessoas querem a casa mais arrumada para as festas de fim de ano”. Ele afirma que, nesse movimento, quem mais se deu bem foi aquele varejista especialista em produtos básicos, os mais procurados pelo consumidor. É o que aconteceu com a servidora pública Cláudia Mara Ribeiro, de São Vicente. Ela estava com dinheiro reservado no começo do ano e resolveu usá-lo na reforma do quintal de casa quando começou a pandemia. Cláudia fez orçamentos no começo da pandemia e o último em agosto, quando realizou o serviço, percebendo um aumento de cerca de R\$ 150 entre o primeiro levantamento e o segundo. “Foram feitos três orçamentos e uma das lojas ainda não havia aumentado os valores, então fechei”, conta ela. Serviço quase estável Apesar da alta dos preços dos materiais, o custo da mão de obra, no entanto, permaneceu estável. Segundo a economista Ana Maria Castelo, isso indica que há grande oferta de pedreiros, segurando o preço. “A Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) aponta que o número de ocupados caiu na quarentena, segurando o aumento da mão de obra. E há uma percepção de que as próprias pessoas é que estão fazendo as reformas ou chamando alguém já conhecido”. De acordo com o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe, os serviços de reparo em domicílio cresceram 0,87% neste ano em relação a 2019. O serviço de pedreiro teve variação positiva de 0,85%. Assecob alerta sobre pressão nos imóveis Segundo o presidente da Associação dos Empresários da Construção Civil da Baixada Santista (Assecob), Ricardo Beschizza, a indústria dos materiais reduziu os turnos na pandemia e com aumento da procura por esses produtos, os preços também subiram. Ele critica os aumentos dos insumos e lembra que a entidade alertou o Governo Federal de que, se esses preços se mantiverem, os imóveis ficarão mais caros também. “Todo mundo teve que se equacionar para passar a pandemia. Agora, é um período de retomada”. “Em São Paulo, as obras puderem continuar, no entanto, a necessidade de seguir protocolos de segurança levou a uma diminuição no ritmo dos trabalhos”, lembra a economista da FGV, Ana Maria Castelo. Procurada por A Tribuna, a Associação Brasileira da Indústria Materiais de Construção (Abramat) diz que repudia afirmações de que houve movimento intencional para fomentar desabastecimento e decorrente aumento nos preços. “Nos últimos meses, tivemos uma grande volatilidade da demanda, onde a indústria de materiais de construção por imposição da pandemia viu sua produção diminuir abruptamente para cerca de 50% em abril e maio (de acordo com pesquisa junto a associados)”, diz a Abramat. “Logo na sequência, (houve) uma retomada abrupta da demanda, com necessidade de reposição de estoques e incremento expressivo dos volumes de produção, trazendo ao setor um desafio de curto prazo de fazer uma série de ajustes internos de equipamentos, de pessoal e de aquisição de insumos que não são imediatos”, diz a Abramat. A entidade dos fabricantes diz ainda que em alguns casos houve aumento de matérias-primas, flutuação cambial e, ainda, problemas logísticos em algumas regiões que ainda estão se normalizando. O economista Waldir Abreu acha que essa situação é passageira. “Os produtos que mais aumentaram são considerados a cesta básica da construção e puxam bastante a alta nos preços”. Segundo ele, no caso do plástico houve forte exportação. “Quando foi preciso reabastecer o mercado interno, ocorreram problemas. O desconforto na construtora é maior que no varejo e, por isso, demora mais, mas acredito que bastam 60 dias para normalizar essa situação”. Dólar atinge elétricos e tubos de PVC Para a economista da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Ana Maria Castelo, há diversos fatores que explicam a alta dos preços na indústria de materiais. “Estamos falando numa indústria heterogênea. A cerâmica é mais pulverizada que o aço e cimento, por exemplo. Já materiais elétricos e tubos de PVC sofrem mais os efeitos da alta do dólar e ficam mais caros na ponta”. Levantamento da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), realizado entre 16 e 21 de julho em todo o País, mostra que os empresários da construção sentiram os aumentos de diversos materiais. Com relação ao cimento, 95% sentiram uma alta de ao menos 10% nos preços. Dentre os que apontaram subida nos preços, 36% disseram que a subida foi maior que 10%. A pesquisa mostrou que 87% sentiram alta no preço do aço, 81% no concreto, 75% no bloco cerâmico e 90% nos cabos elétricos. Mercado paulista No Estado, o maior aumento apontado pelos empresários foi nos cabos elétricos. Quase metade deles disse que os preços do insumo subiram mais de 10% durante a pandemia.