[[legacy_image_156949]] Maior produtor de café do mundo desde meados de 1850, o Brasil viu esse setor passar no ano passado por percalços, principalmente climáticos e com os quais não lidava há décadas, segundo especialistas. O resultado foi uma alta de 73,96% nos preços do café em pó nos últimos 12 meses, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor (IPC). Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Para este ano, há expectativa de maior estabilidade nos preços devido às chuvas registradas desde novembro, que vão favorecer as próximas colheitas. Levantamento preliminar da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta que a produção deve atingir 55,7 milhões de sacas – acréscimo de 16,8% na comparação com 2021. Entretanto, de acordo com a Conab, o aumento já era esperado devido à temporada de 2021 ser de bienalidade negativa. A cultura do café é bianual – uma boa safra leva dois anos para se restabelecer. Levantamento feito por A Tribuna junto ao Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP) aponta que a saca de 60 kg do café tipo arábica teve alta de 121,74% na comparação do mês passado com o igual período de 2021. O preço saltou de US\$ 126,35 para US\$ 280,17. Segundo o economista da Instituto Brasileiro de Economia (Ibre)-FGV André Braz, essa escalada nos preços tem a ver com o inverno do ano passado. “Em julho de 2021, tivemos uma geada extensa, que castigou muito as lavouras de café no Brasil por ser uma época importante de amadurecimento do grão. Os produtores tiveram que fazer podas mais agressivas, que diminuíram a produtividade”. Braz afirma, ainda, que o fato do Brasil ser um grande exportador de café levou o mundo a ter menos oferta do produto, elevando os preços da commodity no mercado internacional. Dólar e climaO diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Celírio Inácio, considera que o aumento do dólar ao longo de 2021 também pesou nos preços do café tipo exportação. No entanto, as questões climáticas foram mais determinantes. “O aumento do preço se deu especialmente pelos problemas climáticos, como seca prolongada, algumas geadas e até chuva de granizo. A indústria teve que repassar alguns desses aumentos”. Conforme o IPC, o grupo de cafés, achocolatados em pó e chás sofreu aumento de 55,02% no acumulado dos últimos 12 meses. O analista de mercado do café Eduardo Carvalhaes diz que os efeitos climáticos do ano passado não eram vistos há décadas, muito dessa instabilidade é resultado do aquecimento global que afetou o clima no mundo todo. Carvalhaes explica que o Brasil é o maior produtor mundial de café desde meados de 1850, por isso, outros produtores “comemoravam” quedas de safra no País. Mas, agora, os problemas climáticos atingem, ao mesmo tempo, as outras nações. “Tivemos uma seca que começou no segundo semestre de 2020 e veio até novembro de 2021, quebrando as safras do ano passado e o que iremos colher agora em maio e junho”. ConilonA inflação do café chegou aos supermercados e cafeterias. Segundo o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), o café em pó aumentou 73% no acumulado de 12 meses até fevereiro, enquanto o item “cafezinho/leite” (fora de casa) subiu menos: 16,49%. O empresário Alexandre Salamone, de 41 anos, fez malabarismos para segurar o aumento no preço do café na xícara. Sócio da Santos Best Coffee cafeteria, ele diz que diminuiu outros insumos para não repassar as altas para o consumidor. “Estamos de olho na próxima safra para observar o movimento do mercado e saber o que faremos no segundo semestre deste ano”. O espaço foi inaugurado em dezembro do ano passado, mas é da linha da produção e exportação de mesmo nome, que existe desde 1991. “O que não podemos fazer é, independentemente de não aumentar o preço do café, é perder o café. O cuidado deve ser no sentido de manter a qualidade”. Segundo o analista de mercado do café, Eduardo Carvalhaes, nos supermercados os aumentos só não foram ainda maiores porque a quantidade de café do tipo conilon, também chamado de robusta, supre parte da oferta. O outro tipo, o arábica, é mais nobre e de preço maior. De acordo com ele, 80% dos cafés que vão para os supermercados são do tipo tradicional. Destes, metade é feito a partir do conilon/robusta. “Desde 1990, o Brasil investe na melhora do arábica. Até então, não éramos produtores do conilon. E a qualidade do conilon melhorou muito no País”. Ele explica que o robusta produz a mesma quantidade de café todos os anos, dependendo das condições climáticas. Hoje, segundo Carvalhaes, o Brasil é o segundo maior produtor de conilon no mundo. De acordo com o analista, o consumidor sentiu no bolso porque o café se manteve com o mesmo preço por muitos anos, devido aos torradores segurarem os preços. Outro fator é o setor de supermercados, que resiste a essas altas porque sua margem é pequena e lucra-se no volume. “O consumo brasileiro aumentou muito. Nos anos 1980, escutava-se que o Brasil exportava o café bom e ficava com o ruim. Mas o tradicional mantém padrões mínimos de qualidade e temos muito controle, tanto pela Abic (Associação Brasileira da Indústria de Café) quanto pelo Governo”.