[[legacy_image_260057]] Com o aumento de ameaças e tentativas de massacre em todo o País, o assunto tomou repercussão entre educadores e responsáveis dos alunos, preocupados com os recentes episódios em Blumenau (SC) e na Vila Sônia, em São Paulo. Em sequência, perfis misteriosos incitaram ataques em escolas da Baixada Santista e o tema ganhou ainda mais força na região. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Muitos são especulações sobre o que leva uma pessoa a invadir uma escola para tais atos ou até um estudante atacar colegas de classe. Psicólogos da Baixada Santista afirmam que apontar o videogame como o grande vilão nesta história é um pensamento precipitado. Afinal, não há estudo que comprove a relação de causa e efeito entre dois. É esse o princípio adotado pela psicóloga de Praia Grande, Jéssica Tedesco. A especialista garante que mesmo que existam controvérsias em relação a esse questionamento, o que se tem conhecimento é que alguns estudos apontam que não existem diferenças no juízo moral entre jogadores e não jogadores de videogame. Esses mesmos estudos comprovam também que geralmente as predileções dos jogadores nem sempre se relacionam com conteúdos de violência, mas sim com o nível de desafio e competitividade do jogo, fator presente em diversas outras atividades, não só nos jogos eletrônicos. “Quando tentamos encontrar respostas para massacres e atentados violentos precisamos lembrar que geralmente esses atos se constroem de maneira multifatorial, mesmo que dentro da história do agressor tenha o contato com jogos violentos dificilmente esse será o fator determinante para a ocorrência do ataque. Isso muito possivelmente vem acompanhado de influências de outros veículos”, informa. A especialista alerta que apontar o videogame como causa é uma maneira simplista e uma forma de tentar reduzir o problema para caber em justificativas que ignoram uma grande complexidade de fatores que estão envolvidos. “Não é a fantasia de um jogo que molda um ser humano e sim a realidade de uma sociedade que normaliza a violência cotidiana, chegando algumas vezes até a cultuar práticas violentas de não respeito ao outro e de intolerância à diversidade”, diz. Mas o psicólogo de Santos Alexandre Rojas entende que os videogames que apresentam estímulos e conteúdos agressivos podem ser um dos muitos fatores que são correlacionados parcialmente à conduta brutal e violenta, mas ressalta que não é uma regra e nem uma causa-efeito direta. “Nestes casos de atitudes violentas e brutais, precisamos levar em consideração sempre outros fatores, como a quantidade de exposição em tempo aos jogos, tipo de jogo, mas importante é também observar variáveis como a história de vida e familiar do jovem, sua qualidade de vida e saúde, suas habilidades de se comunicar e expressar e seus relacionamentos interpessoais”, alega. Jéssica Tedesco a reforça que há pontos de atenção a serem considerados para que a prática de jogar videogame seja saudável. “É importante lembrar que não só os jogos eletrônicos, mas qualquer conteúdo a ser consumido possui uma classificação indicativa, cabe aos pais seguirem essa recomendação ou caso optem por oferecer o conteúdo aos seus filhos estarem presentes para supervisionar e orientar quando necessário”. O excesso precisa ser monitorado, alerta a especialista. Afinal, crianças e adolescentes precisam estar em contato com estímulos e atividades diversas. “Não é o conteúdo violento que gera atitudes violentas, mas como nossos jovens estão sendo ensinados a se relacionar com a violência, o quanto ela tem sido banalizada e incentivada”. Ela diz que o preocupante são os discursos de ódio e de intolerância à diferença que podem estar presentes no dia a dia do jovem, seja em seus contatos sociais, na criação familiar, em jogos de videogame, vídeos, filmes, séries ou qualquer outro veículo, mas principalmente na internet. Ambiente virtualO perigo também está na exposição excessiva e sem supervisão à internet. Para Tedesco, o ambiente virtual pode representar um espaço de refúgio e autoafirmação, além de propiciar a falsa sensação de segurança para práticas e discursos de ódio e violência por estarem protegidos atrás de uma tela e do anonimato até certo ponto. “Por isso que a problematização vai muito além dos videogames. Estamos discutindo a influência dos jogos quando deveríamos estar nos questionando, por exemplo, porque plataformas digitais permitem discursos de ódio e manifestações com esse teor, seja na criação de perfis, na abertura de salas de conversas, entre outros espaços em que se tem observado o extremismo e a intolerância como forma de expressão?”, questiona a profissional. Para controlar esses casos, a especialista afirma que é preciso ter uma política rigorosa para coibir essas práticas. “Pais, educadores e nós como sociedade precisamos supervisionar, acolher e orientar nossos jovens e não terceirizar a culpa para outras fontes”. Por sua vez, Rojas diz que é inegável existir um conteúdo muito perigoso acessível pela internet e que dificilmente pais ou professores conseguem controlar. O profissional explica que existem sub-comunidades e subculturas presentes na deep web ou até nas redes sociais mais usadas, que incitam a este tipo de atitudes e comportamentos. “É claro que nem todos os jovens que consomem este conteúdo serão a tal ponto corrompidos ou convencidos a ir às vias de fato, mas existe sim uma influência psicológica e manipulações, que às vezes sequer é percebida pelo próprio jovem justamente por ser consumida compulsivamente, se torna sutil e subconsciente”, relata. Como dosarPara Rojas, os pais ou responsáveis pelo jovem precisam tentar entrar um pouco no mundo dele, para que ele aceite participar do mundo mais real. Para isso, é essencial propor atividades alternativas lúdicas, desafios, mas mostrar que não poderá ser permitido um abuso sem uma supervisão. Tudo isso torna difícil manter a privacidade, conta o psicólogo. O especialista reforça que o jovem que é fechado, sempre será. Mesmo assim é necessário ele saber que os responsáveis estão perto, são parceiros, estão atentos e esperando o tempo certo deles para se abrirem e permitirem uma troca. BullyingÉ possível que exista uma relação entre o comportamento violento e o bullying, mas Jéssica Tedesco reforça que não deve ser encarado como via de regra, pois não é necessariamente determinante. “O bullying é uma prática que em sua natureza estimula a discriminação em algum nível e faz com o que a vítima possa se isolar socialmente. O perigo desse isolamento é onde essa vítima vai encontrar apoio. Tanto aquele que pratica o bullying como a vítima são jovens que querem ser ouvidos, acolhidos e se sentirem parte de algo, muitas vezes eles acabam encontrando refúgio na internet e experimentam uma sensação de pertencimento que não encontram em outros espaços de convívio social”, explica a especialista. Dentro desses espaços virtuais que eles podem encontrar esse falso apoio, é justamente lugares que promovem mais discursos de ódio, intolerância e discriminação. “Acaba criando um ciclo que precisa ser quebrado, para isso precisamos preparar os pais e os educadores para lidarem com essas questões e principalmente combater as mais diversas formas de violências presentes na nossa sociedade”.