[[legacy_image_75135]] A ingestão de microplásticos (partículas menores que 5mm) ocorre de forma silenciosa pelo ser humano. Os mais comuns são o polipropileno e o PET (politereftalato de etila), originários de embalagens plásticas, tecidos sintéticos e garrafas. Ao serem consumidos na alimentação, geram depósito de micropartículas no organismo, e suas reais consequências ainda são desconhecidas. O alerta é da nutricionista Eloisa Pacheco de Almeida, formada há 32 anos pela Universidade São Camilo, e com 21 anos de atuação na área hospitalar. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Um canudinho plástico ou sacola que vai parar no mar, por exemplo, vai se desmanchando em partes cada vez menores.“Os animais marinhos mais contaminados por essas partículas são os moluscos, como mariscos, mexilhões, ostras, polvos e lulas, mas também são encontrados em crustáceos, como os camarões, e em menor proporção em várias classes de peixes", explica a especialista. De acordo com ela, pesquisadores, em 2019, analisaram a situação dos peixes dos rios Amazonas e Xingu, encontrando resíduos plásticos em cerca de 30% deles. "Porém é importante considerar que moluscos são consumidos inteiros, enquanto os peixes maiores apenas uma parte, e do aspecto nutricional o consumo dessa carne proporciona importantes benefícios à saúde, como vitamina B12, ferro, cálcio, fósforo, iodo, cobalto, ácidos graxos essenciais e ômega 3, diminuindo riscos de doenças cardiovasculares e auxiliando no bom funcionamento do sistema nervoso, portanto eliminá-los da dieta é um prejuízo", pondera a nutricionista. Estudos da Ecological Society of America, publicados em março de 2021, apontam que há sinais de microplásticos em peixes desde os anos 1950, e nenhum antes disso. Eles utilizaram amostras de peixes conservados. Todas as partículas detectadas eram fibras e representavam polímeros plásticos, como o poliéster, junto com misturas de têxteis naturais e sintéticos. O médico Bruno Pompeu Marques, do Hospital Guilherme Álvaro, em Santos, explica que quando essas micropartículas são ingeridas, elas podem ficar nas malhas e mucosa de intestino, e ser absorvidas pela corrente sanguínea, e assim acabar ficando impregnadas no fígado, pulmão, ou em outros órgãos. "Essas estruturas químicas que foram oriundas do microplástico que os animais comeram -e depois nós ingerimos esses animais- ainda têm resultados incertos sobre o mal que podem causar. Há estudos sendo feitos que mostram uma reação do nosso organismo na tentativa de expulsar, de eliminar, ou de isolar essa substâncias nocivas, e é aí que podem começar a surgir células malignas dando início a uma formação de tumor, principalmente no trato gastrointestinal", explica o médico. [[legacy_image_75136]] Água Eloisa alerta que até mesmo na água podem haver micropartículas. "O tratamento de esgoto é de suma importância para a remoção de 90% dos microplásticos através de técnicas de filtragem, porém o acesso ao saneamento básico no Brasil ainda não é uma realidade para todos, os indicadores do Ranking de Saneamento Básico 2019 demonstram que somente 46% dos esgotos produzidos no Brasil são tratados", lembra. Sabesp Em nota, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) informou que “trata a água de acordo com os parâmetros exigidos no Anexo XX da Portaria de Consolidação nº 5/2017 do Ministério da Saúde, que dispõe sobre o controle e vigilância da qualidade da água para consumo humano. A referida legislação é baseada em parâmetros definidos principalmente pela Organização Mundial de Saúde e não existe nenhuma referência nessa legislação sobre a necessidade do controle de microplástico na água captada e tratada. A Empresa tranquiliza a população para a qualidade dos serviços prestados e, neste caso, garante a potabilidade da água distribuída pelo sistema de abastecimento”. Um mal já conhecido Um composto químico chamado Bisfenol A (BPA) comumente presente em potes para armazenar comida, garrafas plásticas, latas de conserva envernizadas, e em outros itens como brinquedos de plástico, cosméticos, papéis térmicos (como os usados em máquinas de cartão de crédito), é facilmente desprendido, e acabam absorvidos pelo organismo. "Eles são desencadeadores de doenças e capazes de causar problemas gastrointestinais, alterações hormonais, déficit de atenção e hiperatividade ou malformações do embrião", explica Eloisa. Esse componente está na maioria dos copinhos plásticos de café, que, sob o efeito do calor da bebida, se soltam e são absorvidos pelo organismo. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pela resolução RDC n° 41, de 16 de setembro de 2011, proíbe o uso de BPA em mamadeiras, bicos e chupetas. Cuidados É possível minimizar os efeitos da ingestão do microplástico, sem cortes radicais. Seguem algumas dicas: se possível, prefira alimentos orgânicos, livres de pesticidas, que também apresentam bisfenol; evite consumo excessivo de moluscos; procure não comer frutas e legumes já cortados, e acondicionados em embalagens plásticas; atente para evitar embalagens que possuam o símbolo triangular da reciclagem com os números 3 e 7, que representam conter bisfenol; evite uso de potes e filmes plásticos para acondicionar alimentos, dê preferência aos de vidro, inox ou porcelana; não reutilize garrafas PET; prefira usar plásticos com a sigla 'BPA free' em copos, squeezes ou potes plásticos; utilize água filtrada por purificadores com a capacidade de filtragem de nanopartículas; não aqueça alimentos no microondas em potes plásticos não específicos para esse equipamento; [[legacy_image_75139]] Plástico amigo Com a intenção de minimizar a contaminação de microplásticos no meio ambiente, surgiu a ideia do projeto Tampa Amiga, que direciona tampas e outros materiais plásticos para a reciclagem consciente. O material é vendido e o valor revertido em alimentos para crianças carentes de escolas e creches. “Cada 900 tampinhas, em média, revertem em um quilo de alimento", conta o médico Bruno Pompeu, idealizador do projeto. Apesar da proibição de canudos plásticos em alguns estados no Brasil, o médico explica que ainda é pouco. "As pessoas são parte importante de responsabilidade nessa luta, e futuras gerações dependem das decisões que tomamos agora". Em cerca de 3 anos de existência, o projeto Tampa Amiga já recolheu mais de 35 toneladas de tampinhas do meio ambiente. “Já ultrapassamos 15 milhões de tampinhas recolhidas do planeta e encaminhadas para o uso correto, e ainda, com isso, ajudamos as crianças carentes”, orgulha-se o médico. Prefeitura Em nota, a prefeitura de Santos informou que não existe um trabalho para microplásticos, pois as dimensões são muito pequenas, o que dificulta ou torna extremamente difícil o seu recolhimento. De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente (Semam), Santos criou, em janeiro de 2017, o Programa de Identificação das Fontes de Resíduos Marinhos. Em março do mesmo ano, o Governo Federal lançou plano semelhante, e em janeiro de 2021, foi a vez do Estado anunciar um programa com esse objetivo. Em Santos, o programa desenvolveu uma metodologia própria, baseada em métodos de arqueologia, metodologia utilizada por outros cinco municípios no Brasil (Bertioga, São Luiz (MA), Ipojuca (PE), Fortaleza (CE) e Balneário Camboriú, em Santa Catarina. “Nesta primeira fase, mais de 90 itens foram catalogados, e três fontes de resíduos identificadas: frequentadores/comerciantes na faixa de areia, canais de drenagem e moradores dos canais do estuário. Em relação à faixa de areia, a Prefeitura desenvolveu o Projeto Areia Limpa e realizou treinamento com os 302 ambulantes da orla. Paralelamente, placas educativas e novas lixeiras também foram instaladas. Ações com agentes foram interrompidas por conta da necessidade de distanciamento social.”, finaliza a nota. Clique e saiba mais em ATribuna.com.br [[legacy_youtube_KPPYizxIZQo]]