[[legacy_image_52013]] A pequena Antonella tem apenas quatro anos e está preocupada com a morte de velhinhos por covid. Ela chora e diz que não quer ficar velhinha e nem quer que a mãe ou a avó fiquem velhinhas também. Assusta, mas a situação é real. A pandemia, o isolamento social, o medo e a ansiedade chegaram ao mundo infantil e pais e avós não sabem como enfrentar o desafio de trazer respostas corretas para as dúvidas infantis. Durante a pandemia, a psicóloga infantil Marli Corrales Henriques percebeu o aumento do número de pais buscando ajuda para lidar com a instabilidade emocional dos pequenos, que também sofrem com esse momento de tristeza e angústia. Mesmo as crianças menores, que não sabem exatamente o que está acontecendo, escutam conversas e notícias ocasionais e entram em contato com temas como doença, velhice, morte. Nesta entrevista, Marli explica que a morte não deve ser encarada como um fenômeno do mundo adulto e sugere que os pais criem rituais para que as crianças encarem com mais naturalidade esse tempo difícil. Muitas vezes, a maior dificuldade para responder é não lidar bem com o assunto. “Será que aquele que está sendo inquirido sabe responder para ele mesmo essas perguntas? Voltamos para a velha e muito batida questão do autoconhecimento, fundamental para conseguir lidar com as inseguranças do outro”. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Quando vem uma pergunta inesperada e o adulto não sabe como responder, o que fazer? Uma das estratégias usadas é sempre devolver a pergunta, para entender qual é a real dúvida, principalmente quando a pergunta é feita por uma criança. Nossas respostas devem conter apenas o que está sendo perguntado, não ir além. A criança sempre nos dá pistas a respeito do que está por trás de sua dúvida. Nunca se negue a conversar, mesmo que não saiba a resposta. A pessoa ou criança necessita de um ouvinte que acolha seus medos, inseguranças e aflições. Ela não busca respostas. A necessidade de dar uma resposta é nossa. O primeiro passo é sempre nosso próprio reconhecimento em relação ao tema. Como lidamos com ele? A verdade deve ser sempre a prioridade, não fantasiar e nem minimizar a questão. [[legacy_image_54170]] Como a ideia da morte está presente no mundo infantil? O sentimento de perda faz parte do mundo das crianças, de diferentes formas e desde muito cedo. A mãe que aparece e desaparece, o pai que está longe e volta, os avós que vão e vêm... Enfim, muito do universo infantil traz a ideia de surgimento e desaparecimento. Como a pandemia ampliou esse tema no universo infantil? A pandemia nos colocou diante de várias questões difíceis de enfrentar: o isolamento, a impossibilidade de estar com outras pessoas, a doença, o medo, a solidão, a morte, muitos sentimentos conflitantes. Estamos fragilizados diante do caos vivido diariamente. A sensação de morte chegou perto: parentes, amigos, vizinhos e artistas conhecidos estão se infectando, e muitos morrendo. Percebo que estamos em alerta para a dor, para as perdas, em algum momento ela nos abaterá. As crianças também vivem, no seu cotidiano, parte das dificuldades do adulto. Quais são essas dificuldades? O avô ou a avó que ela não pode ver, aquele tio que estava sempre presente em sua vida e deixou de estar, o amigo da escola que não encontra, os professores que não vê, o recreio na escola que adorava e não vai mais. Ela não pode estar em lugares que sempre frequentou, são perdas muito importantes que ficam presentes na vida das crianças. Além disso, esses tempos de afastamento e medo estão se prolongando. Ninguém estava preparado, muito menos as crianças. Elas estão mais sensíveis, mais ansiosas, mais angustiadas, mais fragilizadas. Surgem muitas dúvidas, muitos questionamentos, carregados de medo e sofrimento. Qual é o grande desafio? O tempo todo estamos diante do ciclo da vida: nascemos, vivemos e morremos. A morte é sempre um momento muito delicado que nos remete a entrar em contato com nossas experiências. E por que, afinal, é tão difícil falar da morte? Por que não sabemos o que falar? Por que não conseguimos enfrentar a dor da perda? Por que, apesar de sabermos que é a única certeza que temos, tentamos fugir? A finitude está presente em vários momentos de nossa vida, mas como lidamos com ela? Voltamos para a velha e muito batida questão do autoconhecimento, fundamental para conseguir lidar com as inseguranças do outro. Como responder a essas dúvidas quando elas partem de uma criança? Geralmente as dúvidas maiores são como falar, como minimizar o sofrimento, e se o adulto deve entrar na fantasia da criança ou não. Temos a tendência a não falar, a silenciar, a esconder a morte das crianças, pensando que a morte é um fenômeno do mundo adulto e que ela nunca está preparada para enfrentar. Não é assim, a morte não é um fenômeno do mundo adulto, a morte faz parte da vida. A criança entrará em contato com ela mais cedo ou mais tarde. As dúvidas, na verdade, vêm dos pais? Sim, por isso é importante que os adultos façam uma revisão do conceito de morte, de perda. Como lidamos com estas emoções? Como enfrentamos o sofrimento de perder alguém? Quais são nossas crenças? A morte é o fim de tudo? Acredito na vida após a morte? Acredito no céu ou no inferno? Devemos pensar nessas perguntas e dar nossas respostas. Este é o primeiro passo para enfrentar as dúvidas, as angústias, as ansiedades e o sofrimento da criança diante da morte. Entender a minha dor e lidar com ela facilita entender e lidar com a dor do outro, a dor de uma criança. Qual a melhor maneira para lidar com o tema junto aos pequenos? Podemos começar ensinando as crianças a olhar para a natureza, para as estações, para as plantas, para as flores, para as árvores e os animais. O tempo todo estamos vivendo grandes ciclos de vida. Processos emocionais, casamentos, relacionamentos, os ciclos de crescimento e a morte fazem parte de todos estes momentos. Num segundo passo, devemos entender o que a criança pensa da morte, quais suas ideias, quais suas fantasias, quais seus medos. É ela que deve nos dar as pistas a seguir, o que realmente quer saber, o que está preparada para entender. A verdade é sempre a melhor escolha? Sim, é muito importante falar a verdade com todo afeto. Falar que a pessoa morreu, que não vamos mais vê-la, que não vai estar mais aqui, mas que sempre estará em nossos corações, em nossas lembranças. Que é assim que nós nos mantemos unidos a ela. Tentar ignorar, silenciar, fantasiar, subestimar, só vai dificultar ainda mais esta elaboração. Não adianta dizer que a pessoa foi viajar, virou uma estrelinha, foi para o céu, está junto com as nuvens, pois é importante que a criança entenda que este é um conceito que faz parte da vida. Na tentativa de aliviar a dor ou angústia da criança podemos dificultar a sua compreensão. Mas nem sempre a verdade resolve, não é? A tristeza e o sofrimento vão passar, ficam as lembranças e as saudades de momentos especiais. Os comportamentos disruptivos também podem aparecer, como a raiva, a irritabilidade, a falta de apetite ou o apetite em excesso, a regressão e a negação fazem parte do processo de luto. Tudo vai passar dependendo de como as pessoas lidam com todos esses comportamentos. Como facilitar o processo? Para que a criança possa viver a aceitação é necessário que os pais ou avós deixem o diálogo aberto e o afeto presente. A criança que passa por toda essa dificuldade com o carinho, acolhimento e a compreensão tem a tendência a se estruturar com mais rapidez e seguir a vida. A vivência e a experiência de perder alguém muito próximo são muito doídas, mas elas trazem um convite para cada um entrar em contato com o sentimento e com esse momento da natureza que traz tantos desafios. Viver o não sei, buscar suas crenças, a sua fé e desenvolver uma paz e uma harmonia em cima de um único lugar: o amor. Rituais de passagem como velórios e missas de sétimo dia, agora virtuais geralmente, ajudam? Passar ou não pelos rituais é uma boa pergunta para se fazer para as crianças. Conte um pouquinho como funciona para que ela escolha se quer participar. Se ela não quiser ir, respeite esse momento. Mas crie rituais que podem fazer sentido para ela. Pode ser fazer um desenho, escrever uma carta, criar uma história, soltar um balão. Alguma atividade que dê a noção ritualística de despedida para a criança. Isto vai ajudá-la a passar por essa etapa com mais concretude. Mas se a criança quiser participar destes rituais, esteja perto, acompanhe, acolha seus sentimentos e principalmente dê oportunidade para que ela expresse seus sentimentos. Há uma idade correta? A partir dos sete anos a criança passa a ter uma noção mais concreta do que é esse momento delicado, ela é capaz de simbolizar, não é mais necessário tornar as coisas tão concretas. A gente nasce, vive e morre em muitos momentos da vida. Importante estar junto com toda presença, todo amor, olhos nos olhos, com disponibilidade para ouvir e acolher. Fazendo isso, a vida, no seu tempo, será retomada e o sorriso volta ao rosto. O essencial é não tirar a criança dessa experiência. Tirando, disfarçando e achando que assim protegemos a criança, na verdade só estamos impedindo que ela viva um processo necessário ao seu desenvolvimento saudável. Histórias, desenhos ou livros podem ajudar? Sim, no caso de filmes infantis, por exemplo, temos alguns que podem ajudar a criança a trazer suas dúvidas a respeito da morte; o Bambi (1942), O Rei Leão (1994), Procurando Nemo (2004) e Frozen (2014) trazem o tema da morte. Além disso, podemos contar histórias próximas ao mundo dela, histórias da família, da bisavó, de tios e outros familiares. Trazer a realidade mais próxima para que ela possa perguntar, repetir e repetir e repetir novamente para poder elaborar seus questionamentos.