[[legacy_image_323725]] Incorporada ao Sistema Único de Saúde (SUS) no final de dezembro, a vacina contra a dengue é aguardada com ansiedade, especialmente na Baixada Santista, que convive há décadas com o Aedes aegypti. Ainda não há cronograma para o fornecimento das doses nem o número destinado a cada cidade. Mas a expectativa, de acordo com o Ministério da Saúde, é de que sejam entregues 460 mil doses em fevereiro — ao longo do ano, 5,09 milhões. A aplicação será em duas etapas. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! O imunizante Qdenga não será utilizado em larga escala em um primeiro momento, pois o laboratório fabricante, o japonês Takeda, conta com uma capacidade restrita de fornecimento. O infectologista Evaldo Stanislau acredita que a vacina, fruto de muita pesquisa, chega em bom momento à saúde pública. “A vacina contra a dengue é uma necessidade de saúde pública há muito tempo. Possui um vírus atenuado que conseguiu, de alguma maneira, uma resposta equilibrada entre os diferentes sorotipos”, afirma. Ele lembra que uma das teorias para a dengue em estado mais grave é a da resposta imunológica exacerbada depois de uma primeira dengue. “Como há quatro tipos diferentes (1, 2, 3 e 4), uma das dificuldades técnicas de fazer a vacina é que ela deve ser equilibrada para proteger contra os quatro tipos, sob pena de a própria vacina ser um agente que pode estimular a forma grave de dengue. Essa é uma dificuldade técnica que essa vacina conseguiu, de certa forma, equalizar”, acrescenta Stanislau. O infectologista pontua que o objetivo da vacina é evitar, sobretudo, formas graves e internação por dengue. “Ela não vai, necessariamente, evitar que a pessoa pegue dengue, mas reduz a um patamar bem interessante as formas graves, acima de 85%. Não é um conceito exclusivo das vacinas contra a covid, mas de todas.” Critérios e ponderaçõesConforme o Ministério da Saúde, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) e a Câmara Técnica de Assessoramento em Imunização (CTAI) definirão a estratégia de utilização do número disponível, com público-alvo prioritário e regiões com maior incidência da doença para aplicação das doses. Evaldo Stanislau acredita que há uma barreira: a faixa etária da cobertura, que vai dos 4 aos 60 anos. Nesse sentido, os grupos que vão ser vacinados estão nesse intervalo. “Como é um vírus vivo atenuado, tem aquela questão de ter uma restrição para pessoas imunodeprimidas e gestantes neste momento”, avalia. Outro aspecto levantado pelo especialista é que, realizada em duas doses, a segunda é oferecida três meses depois. Dessa forma, a proteção máxima se dá 30 dias após a segunda dose. “Isso é uma dificuldade, até mesmo do ponto de vista operacional. Se estou entrando no verão, onde tradicionalmente há mais dengue, e começar a vacinar agora, a proteção máxima vem daqui a quatro meses.” Política amplaEvaldo Stanislau defende que a vacinação contra a dengue, embora de grande importância, é um dos aspectos a serem considerados numa política mais ampla de combate à doença. “A gente tem que encarar todas as doenças transmitidas por vetor (mosquito) como necessárias de um conjunto de ações. O Poder Público continua muito importante no enfrentamento dessa doença. As pessoas cuidam de suas casas, mas os ovos desses mosquitos podem crescer numa folha de um jardim público mal cuidado ou num terreno baldio. Outro aspecto: considerar o aquecimento global no aumento da circulação dessas doenças, pois os mosquitos gostam de calor e de umidade. Então, a gente está perdendo, pouco a pouco, a característica da sazonalidade”, exemplifica. Outro ponto a considerar, na visão do médico infectologista, é a mudança no perfil da população. “A Baixada Santista tem um histórico de grande exposição à dengue. Se pegar a população mais velha, vários já tiveram duas, três, quatro vezes Porém, os mais jovens não têm essa mesma imunidade.” O último aspecto diz respeito ao uso da tecnologia. “Hoje, há boas experiências com mosquitos geneticamente modificados, que não se reproduzem, Eles são lançados no ambiente e fazem um combate biológico ao mosquito selvagem e interrompem o ciclo de transmissão. A vacina é uma ferramenta essencial, mas não a única”, complementa.