[[legacy_image_327071]] Ser Piero é nome do meio do artista Leonardo Da Vinci. Artista revolucionário por suas obras, virou sinônimo de perfeccionismo. E é isso que espera um paciente que, longe da atmosfera dos grandes hospitais, busca reabilitação ou mesmo cuidados paliativos. O Hospital de Transição SerPiero, aberto em Santos há cinco meses, tenta consolidar essa cultura do cuidado personalizado, humano, em um ambiente diferenciado. Para isso, conta com 102 leitos e 50 funcionários, reforçando esse conceito. No comando da unidade, o CEO Marcelo Noronha. Confira trechos da entrevista: Sobre o conceito de hospital de transição: qual sua origem? Desde quando foi implementado? O hospital de transição, na Europa e nos Estados Unidos, já é uma realidade importante há mais de dez anos. Isso chegou no Brasil há algum tempo, principalmente em São Paulo e outras grandes capitais. Lá, você tem três ou quatro hospitais de um porte como o nosso, e outros nem tanto. Têm surgido hospitais de transição Brasil afora, em outros centros, E a gente, quando decidiu pôr esse projeto em Santos, estudou algumas regiões e o fez porque sabe que é uma área de presença muito forte de idosos. Como não é um hospital de doença aguda, mas de doença crônica, a maior parte de um hospital desses é idosa. A gente sabe que existem, hoje, três tipos de pacientes, que normalmente utilizam um hospital como esse: os de cuidados paliativos, oncológicos ou não; de reabilitação pós-operatório de cirurgia ortopédica e pós-operatório de cirurgia neurológica; e os pacientes que a gente chama de longa permanência — sequelados, acamados, com sondas, dispositivos, traqueostomia —, que, às vezes, estão se reabilitando, mas também são de longa permanência. E por que existe este tipo de hospital? No mundo, cada vez mais, o hospital convencional está se tornando um hospital para paciente agudo. Um paciente que teve que fazer uma cirurgia, passou por um acidente, teve um AVC e foi para a UTI, ou que tem que fazer uma cirurgia cardíaca. Uma vez que o paciente está estável, mas ainda não tem condições de ir para casa, a opção tem sido o hospital de transição. Porque tem um tratamento extremamente humanizado, uma hotelaria diferenciada, e prepara o paciente melhor para essa alta. Sobre cuidados paliativos, um tema que ainda é meio tabu, como é o diálogo com paciente e familiares? Essa é uma área crescente no Brasil. Para se ter uma ideia, neste ano, o MEC (Ministério da Educação) tornou obrigatória, na grade curricular das universidades essa matéria, que está se transformando em uma especialidade. Nesta semana, começamos um internato da Unimes: o sexto ano vai ficar com a gente o ano todo, estudando e aprendendo cuidados paliativos com os nossos médicos. Temos tido uma procura muito grande aqui, de pacientes cujas famílias vêm aqui, querer conhecer o trabalho, conhecer o hospital, para trazer seus pacientes para cá. E o custo dessa estrutura? Por ser um hospital de cultura mais leve, que não tem UTI, pronto-socorro ou centro cirúrgico, o custo para a operadora de saúde com o paciente pode ser reduzido entre 20% e 40%. Como é a relação com os hospitais, digamos, convencionais? Como é a transferência de pacientes? Cerca de 98% dos nossos pacientes vêm de outros hospitais. Raramente vêm de casa. O que acontece é que a operadora detecta que ali tem dois ou três pacientes que podem vir para cá, conversam com a família, e elas mesmas (operadoras) providenciam essa transferência, desde que tenha anuência da família ou do paciente. E, quando você fala de cuidados paliativos, o treinamento deve ser desde o médico, passando por enfermagem, fisioterapia, fonoaudiologia, nutricionista, copeira e a pessoa que vai fazer a limpeza do quarto. Toda a equipe tem que entender o tipo de paciente que a gente tem aqui. O conceito de humanização vira uma premissa básica. Como é esse trabalho de aculturação de quem trabalha aqui? O hospital está funcionando há cinco meses, com 50 funcionários. Começamos a treinar a equipe três meses antes da inauguração. Porque você precisa começar do básico: explicando cada detalhe, de uma forma mais profunda, dando exemplos dos pacientes que iriam encontrar aqui. E é muito satisfatório você ver que algumas pessoas se apaixonam pelo tema. A conversa com a família, no caso dos cuidados paliativos, é de extrema importância. A primeira coisa que deve ser feita é desmistificar que cuidado paliativo é quando não há mais nada a fazer. No cuidado paliativo, há muito o que ser feito pelo paciente. Cuidado paliativo é o tratamento que se dá a qualquer doença incurável, como hipertensão e diabetes. A abordagem da família varia de acordo com o tipo de paciente. Quando é um paciente oncológico, com um câncer terminal, que muitas vezes vem para cá para ter qualidade de vida nesses últimos momentos, a família está muito machucada, muito sofrida, não cuidamos só do paciente, mas da família também. A nossa psicóloga atende muito mais a familiares do que pacientes. Essa cultura é mais forte fora do País, não? Hoje, o Brasil, numa lista de 81 países, está em 79º em pior qualidade de morte. Ou seja: o brasileiro morre em sofrimento. Quando a gente imagina que só 5% das pessoas morrem agudamente, 95% morrem em doenças crônicas, e esse número aumenta cada vez mais em função do número de idosos, a qualidade de morte neste País é muito ruim. Precisamos mudar isso, entender que todos vamos morrer e que, quando chegar, passemos por isso sem sofrimento. E como estão as conversas com os planos de saúde? O credenciamento, para valer, começou há cinco meses. Nós temos algumas operadoras já credenciadas, e temos percebido que as coisas estão acelerando. Mas temos percebido que mais têm nos procurado, não são as operadoras locais, mas as de fora. Existe algum plano para atendimento SUS? Neste primeiro momento, não. Quem sabe futuramente. Temos uma parceria que está sendo criada com a Prefeitura de Praia Grande, mas não é SUS: é um convênio da Prefeitura com o hospital. Qual o perfil dos pacientes? Estamos com 14 pacientes internados. O perfil deles: nossa média de idade é de 82 anos. A grande maioria é de cuidados paliativos não oncológicos, com uma idade avançada, que já tem Alzheimer, Parkinson. Em seguida, paliativos oncoló-gicos. Depois, longa permanência e, por fim, os de reabilitação. Além disso, a maioria absoluta é de mulheres. E para o senhor, como é, em particular, estar à frente de um projeto com essa filosofia? Quero que este hospital mude a cara da Baixada Santista quanto aos cuidados com as pessoas. Tive uma experiência pessoal. Fiquei 50 dias em UTI com covid, fiz traqueostomia... Então, conheço o que é estar preso a um leito. Quanto foi investido aqui? Arredondando, R\$ 40 milhões. O hospital começou a ser construído no meio da pandemia. Mas levou entre um ano e oito meses e dois anos. Vocês têm projeção de quando esperam ver o hospital com 100% de ocupação? A gente tem uma projeção de que, ainda esse ano, tenhamos uma ocupação acima de 60%. E essas parcerias que estamos costurando vão ser fundamentais para isso. Como foi sua caminhada até aqui? Eu me formei em 1990. Sou cirurgião por formação. Operei até 2009, quando eu e meu sócio abrimos uma empresa de home care. O cirurgião vê muito o paciente ali anestesiado, no pós-operatório. Quando você começa a lidar com o paciente de home care, num perfil parecido com o de um hospital como esse, passa a viver outros dramas, conversar com a família... E a gente cresceu muito, e comecei a perceber os hospitais de transição crescendo muito lá fora. No Canadá, 49%dos pacientes estão num leito de transição. E a gente teve a luz de pensar nesse projeto.