[[legacy_image_241220]] Um episódio recente fez com que o País retomasse um diálogo importante nos dias de hoje: relacionamentos abusivos. No último domingo (22), o apresentador da 23ª edição do Big Brother Brasil, Tadeu Schmidt, quebrou um protocolo do programa e falou abertamente sobre falas consideradas problemáticas do participante Gabriel Fop contra Bruna Griphao. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Ambos viviam um romance dentro da casa mais vigiada do Brasil e algumas falas do modelo contra a atriz se tornaram assunto nas redes sociais por ter um cunho considerado abusivo. A represália do apresentador aconteceu por conta de uma fala do brother após uma brincadeira de Bruna, afirmando que seria o homem da relação. O modelo disparou: "Sim, mas já já tu vai levar umas cotoveladas na boca". Por conta deste comentário, o apresentador aproveitou o momento em que o programa estava ao vivo para aconselhar Gabriel Fop. “Estou aqui pra fazer um alerta. Quem está envolvido em um relacionamento talvez nem perceba, ache que é normal, mas quem está de fora consegue perceber quando os limites estão prestes a ser gravemente ultrapassados”. Após recitar o comentário do brother, Tadeu foi direto e incisivo. “Gabriel, em uma relação afetiva, certas coisas não podem ser ditas nem de brincadeira”. Esse momento fez com que o assunto de relacionamento abusivo voltasse à tona e fosse debatido entre os fãs do reality show nas redes sociais. Em entrevista para A Tribuna, a psicóloga de Praia Grande, Jéssica Tedesco, explica como esses comentários são sinais de algo a ser repreendido. “Pensando no ocorrido, desta semana, dentro do Big Brother Brasil, o humor é um mecanismo da nossa psique que pode ser usado das mais diversas formas. Mas, neste caso citado, ele foi usado para subjulgar uma das partes envolvidas no relacionamento. Sendo assim, o humor estava sendo o veículo de comunicação da violência”, informa. Para entender um relacionamento abusivo, a especialista cita que é preciso compreender sua conceituação. Os tipos de violências e as formas de comunicação e aparição desses comportamentos. “Compreendendo isso, podemos abrir o diálogo para o fato de que existem muitas formas diferentes de uma relação abusiva se apresentar”. “Até mesmo pessoas que consideramos fortes, podem ser vítimas e pessoas que jamais imaginamos podem estar em algum momento apresentando um papel de abusador, já que essas posições têm muita relação tanto com fatores da subjetividade de cada pessoa quanto com fatores históricos e culturais da nossa sociedade”, explica a psicóloga. A profissional afirma que é necessário se atentar ao seguinte sinal: agressões verbais e ofensas constantes nas mais diversas formas, seja de maneira explícita, através de humor, através de indiretas ou da exposição da pessoa. “Comportamentos assim a longo prazo podem acabar prejudicando ainda mais a autoestima da vítima”. “Comportamento de agressividade na forma de falar e de agir também são sinais de alerta. É necessário um ponto de atenção com pessoas que têm problemas de regulação da raiva e que costumam aumentar o tom de voz, socar paredes, destruir objetos, entre outros comportamentos semelhantes”, comenta. É preciso analisar como os diálogos costumam se desdobrar. Jéssica explica que conversas saudáveis precisam ter como estrutura a fala e a escuta. “Conversas difíceis sempre vão fazer parte de um relacionamento e muitas vezes precisamos lidar com o desconforto para resolver alguma situação. Mas, isso não pode abrir margem para comportamentos de menosprezo dos sentimentos alheios”. “Em algumas situações a pessoa que pratica os abusos pode ser confrontada pela própria vítima ou por terceiros. Nesses casos, o abusador pode tentar algum tipo de redenção e depois se inicia o que a gente chama de ‘fase de lua de mel’, onde o agressor faz de tudo para normalizar a situação. Sendo assim, pode ocorrer o excesso de esforços para tentar tapar os buracos feitos, porém esse comportamento não se sustenta e o ciclo de abusos volta a ocorrer”, informa. Outro sinal importante é a privação de direitos e liberdades. Todos os sinais citados pela especialista podem gerar uma perda da individualidade da vítima. A profissional diz que, aos poucos, a pessoa pode deixar de estar com amigos ou abandonar atividades que gosta. “Não é raro que muitas dessas ações possam ser confundidas com proteção e cuidado. A pessoa pode pensar ‘ele quer isso para o meu bem’ ou ‘ele quer que eu mude porque sabe o que é melhor pra mim’. Mas, tudo em excesso pode fazer mal, às vezes aquilo que está sendo interpretado como afeto pode na verdade ser abusivo”, alerta. Em relação ao que aconteceu no reality show, Jéssica reforça que geralmente as pessoas em volta percebem o relacionamento abusivo antes da vítima. Para ela, os comportamentos abusivos geram incômodo para aqueles que estão de fora também. São situações que causam desconfortos para todos, porém é muito mais difícil para as partes envolvidas perceberem essa dinâmica cruel e nociva que se encontram. Já a psicóloga de Santos, Claudia Chrystina Kato Luz, explica o que configura um relacionamento abusivo e a importância de se atentar aos sinais para se libertar deste tipo de relação. “Os relacionamentos abusivos são denominados assim porque envolvem o poder que uma pessoa implica sobre a outra. Denota uma desigualdade de forças que se impõe através de violência física, moral, patrimonial e psicológica, com a intenção de alcançar determinado objetivo: a submissão e a passividade do abusado”, diz. A profissional afirma que a terminologia ainda é vinculada à agressão ou coerção física, sendo o abuso psicológico o mais difícil de ser identificado e de ser documentado. “É importante entender que, neste tipo de relacionamento, há excesso de poder e de controle que nem sempre são explícitos e que se iniciam de modo sutil”. “Geralmente acontecem em alguns grupos mais vulneráveis ao fenômeno, dentre eles: idosos, crianças, pessoas com deficiência e principalmente mulheres. Há uma necessidade de controlar o outro, e os agressores utilizam de forma consciente o abuso e a indiferença como método para se relacionar e para solucionar controvérsias”, explica. Libertação// O problema do relacionamento abusivo, segundo a especialista, é que a violência e o abuso no ambiente doméstico são mais velados, pois expõem questões íntimas e de afeto. “Para que a vítima se liberte é necessário que ela identifique o relacionamento como abusivo, ou que escute alguém que confia e que a auxilie a identificar. Partimos do princípio de que todo sujeito reconhece o que é melhor para si, e sabe aquilo que é saudável dentro do relacionamento”, alerta. A dificuldade da libertação está no fato de que o abuso comporta um ciclo. A psicóloga diz que, normalmente, o abusador costuma alterar o seu comportamento numa espécie de jogo emocional oscilando entre o romântico e o controlador. “Também costuma inferiorizar o abusado, fazendo com que se sinta confuso e culpado pela situação. Então, é importante que qualquer mudança no convívio social, promovida e incentivada por outra pessoa seja analisada e conversada com alguém neutro. Alguém de fora da esfera afetiva”, informa. Além de ouvir alertas de quem está fora da relação, a especialista recomenda que a vítima procure auxílio profissional sempre que sentir insegurança em seu relacionamento. “Relatando as dificuldades que afetam, principalmente, seu convívio social, uma vez que um dos objetivos do abusador é isolar a vítima. Para se libertar, só há um movimento: sair da relação e romper o vínculo”. Casos de feminicídio aumentam no País De acordo com dados publicados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apenas no primeiro semestre de 2022, o Brasil registrou 699 casos de feminicídio. Com média de quatro mulheres mortas por dia. O número é 3,2% mais alto que no primeiro semestre de 2021. Caso esteja enfrentando um caso de violência contra à mulher, o número 180 é um serviço de utilidade pública voltado para a causa. Por meio dele é possível realizar denúncias e monitorar o andamento dos processos.