[[legacy_image_103728]] Um em cada dez adolescentes brasileiros já se sentiu ameaçado, ofendido e humilhado em redes sociais ou aplicativos. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2019, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e chamam a atenção para um assunto muito sério: o bullying. Foram ouvidos quase 188 mil jovens, com idades entre 13 e 17 anos, em 4.361 escolas de 1.288 municípios. O grupo representa 11,8 milhões de estudantes. A coleta dos dados foi feita antes da pandemia, entre abril e setembro de 2019. Segundo a pesquisa, as agressões existem também nas escolas, onde 23% dos estudantes afirmaram ter sido vítimas de humilhações feitas por colegas nos 30 dias anteriores à pesquisa. [[legacy_image_102593]] O motivo de sofrerem bullying, de acordo com os jovens, são aparência do corpo (16,5%), aparência do rosto (11,6%) e cor ou raça (4,6%). Para a psicóloga Fernanda Vasconcellos, engana-se quem pensa que o assunto é bobagem ou coisa de jovem. "Não podemos subestimar os efeitos de situações como essas. Em casos mais graves, pode-se atentar contra a própria vida ou levar os reflexos das humilhações para a vida adulta". A longo prazo, explica ela, os efeitos são devastadores. "A maioria, para fugir do bullying, passa a evitar a escola, acaba tendo uma escolaridade menor e, no futuro, empregos com salários menores. Emocionalmente, ainda ficam rastros do sentimento de incapacidade e inferioridade", diz Fernanda. Perigo Em relação à saúde mental dos estudantes, os números são ainda mais alarmantes. Um em cada cinco estudantes (21,4%) afirmou que a vida não valia a pena ser vivida. Os resultados mostram ainda insatisfação com o próprio corpo. Menos da metade (49,8%) achava o corpo normal, 28,9% se achavam magros ou muito magros e 20,6%, gordos ou muito gordos. Veja mais sobre os sintomas mais comuns Para o psicólogo Thadeu de Almeida, é fundamental olhar para o assunto com cuidado, já que uma atenção especial pode solucionar situações de bullying logo no início. “Estar atento é uma missão não apenas dos educadores, da escola, mas também da família e dos próprios colegas de classe. É preciso que se converse sobre o assunto, pois a educação é sempre o melhor caminho para vencer tabus e mudar o que está errado”. A psicóloga Natália Freitas recomenda que a conversa aconteça com a vítima e com o agressor. “Pensamos muito na pessoa que sofre com o bullying, mas quem exerce esse tipo de ação também costuma ter algum motivo por trás, normalmente triste e traumático. É preciso cuidar de todos os lados para que as relações melhorem como um todo”. Saiba mais sobre o Bullying Depoimento“O bullying é uma das formas mais traiçoeiras e letais de violência, que só depois de inúmeras demonstrações de sua brutalidade começou a ser estudada e evitada. Ele nos tira a auto-estima, afasta dos sonhos, traz sofrimento, solidão e vergonha. Essa definição de bullying não foi retirada dos manuais de psicologia ou psiquiatria. É a mais próxima que a vida ensinou à minha consciência. Eu fui vítima do bullying por quase toda a minha vida escolar (dez anos de perseguições). Eu era uma criança ‘gordinha’, com problemas motores, que não conseguia jogar bola e nem era tão ágil para brincadeiras em grupo. Na adolescência, minhas limitações motoras, sequela da hemiparesia direita (paralisia cerebral de um lado do corpo), adquirida por conta da prematuridade do meu nascimento, renderam-me o isolamento e várias gozações perversas. O bullying que sofri incluiu apelidos como “paralisado”, “coisa”, “aberração”. Era o comportamento hostil da turma, a ridicularização pública e diária e o isolamento. Mas, como eu fiz para superar o bullying? A minha primeira e grande salvação foi a descoberta da escrita como forma de manifestação por meio de letras de música, poesia e textos em prosa. Dalí por diante, as pessoas pararam de me ver como um sujeito a ser achincalhado, passando a me ver com admiração pelo talento com a escrita. Ingressei na faculdade de Direito, me tornei advogado e me dediquei às pesquisas científicas para criar uma ramificação da ciência jurídica focada exclusivamente para tratar dos casos de indenização pelos danos do bullying. Ou seja, para superar as cicatrizes emocionais, decidi criar ciência e estudar a fundo uma forma de proteger quem sofre aquele tipo de agressão”. Alexandre SaldanhaAdvogado especialista em bullying, autor de livros como Bullying, A Origem do Mau e Cyberbullying Sob a Ótica do Direito, fundador da Liga Antibullying, projeto com ativistas sociais do mundo todo