Criada para combater fraudes e agilizar resultados, urna eletrônica completa três décadas cercada de avanços tecnológicos (Vanessa Rodrigues/Arquivo AT) Há exatos 30 anos, nas eleições para prefeitos e vereadores em 1996, o Brasil viu uma revolução no modo de votar: saíram as cédulas e a contagem de votos que durava dias a fio, e entrou em cena a urna eletrônica. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O projeto técnico da urna eletrônica foi desenvolvido por especialistas de diversos órgãos, incluindo Justiça Eleitoral, Forças Armadas, ministérios da Ciência e Tecnologia e das Comunicações. Inicialmente chamada de Coletor Eletrônico de Votos (CEV), o projeto da urna tinha como objetivo automatizar o processo de votação e definir medidas para a implementação do equipamento em mais de 50 municípios. Entre os requisitos técnicos definidos, estavam o uso de números para indicar votos e o teclado similar ao de telefone. A primeira votação eletrônica no Brasil, em 1996, abrangeu todo o estado do Rio de Janeiro, as capitais dos estados e cidades com mais de 200 mil eleitores, totalizando 57 municípios e um terço do eleitorado. “Com a quantidade de eleitores que temos hoje no Brasil, demoraríamos talvez uma semana, dez dias, para conseguir fazer a apuração e a totalização dos votos. Então, sem a urna eletrônica e sem o sistema de totalização, eu acho que as eleições seriam bem caóticas”, explica a chefe de cartório da 118ª Zona Eleitoral (Santos), Michelle Lapa Cortegiano. Para ela, em relação aos trabalhos de votação em papel, não teria muito problema, porque a eleição manual, com cédulas, é mais simples de preparar. O tempo de votação seria um pouco maior, mas, no final, talvez não desse tanta diferença quanto a gente imagina. Porém, haveria mais espaço para contestação, especialmente em um ambiente político polarizado. “Os resultados seriam muito mais questionáveis, porque você pode ter eventuais fraudes no momento de apurar os votos, na contagem dos votos. É muito mais difícil garantir a lisura. Quanto maior o contato humano, maiores as variáveis que você tem e as possibilidades de existir um erro. O que nós temos hoje no Brasil em termos de voto informatizado, principalmente quando a urna apura o resultado de cada seção, é maravilhoso”, avalia. Avanços tecnológicos Até as eleições municipais de 2024, 14 modelos de urnas eletrônicas já foram utilizados. Ao longo do tempo, houve diversos avanços tecnológicos no equipamento, considerando alguns aspectos primordiais. No quesito segurança, houve a inclusão de uma arquitetura única no mundo, fazendo com que a urna apenas funcione com sistemas autênticos, aptos apenas nela, além de criptografias avançadas, lacres físicos mais resistentes, entre outros itens. Quanto à transparência, diversos mecanismos e possibilidades para avaliar a integridade e a idoneidade da votação e da apuração foram aprimorados, bem como da totalização dos votos. Houve, ainda, a inclusão da biometria (identificação pelas impressões digitais), que vem sendo ampliada gradualmente, auxiliando mesários a validarem a identidade de eleitoras e eleitores. Também existem cuidados quanto à acessibilidade - tanto que foram introduzidos recursos para pessoas com deficiência visual e auditiva, como fones de ouvidos, sintetizador de voz, teclado com sinalização em Braille, bem como intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), que surge na tela da urna. Há, ainda, a questão da eficiência: a sucessão de novos modelos tornou o processo eleitoral mais ágil, reduzindo o tempo de habilitação dos eleitores e a apuração dos resultados. Por fim, no quesito sustentabilidade, os equipamentos passaram a consumir menos energia e foram projetados para serem mais duráveis e facilmente reciclados. Evolução UE96 Primeiro modelo adotado pela Justiça Eleitoral, em 1996. Tinha teclado semelhante ao de telefone, processador Intel 386SX (40 MHz), 2 MB de memória e armazenamento em disquetes. Foi usada por cerca de 30% do eleitorado. UE98 Passou a exibir a foto dos candidatos e permitiu fiscalização dos dados inseridos nas urnas. Utilizada por cerca de 60% do eleitorado, trouxe memória flash de 15 MB, tecnologia que originou os SSDs atuais. UE2000 Introduziu em 2000 saída de áudio para fones de ouvido e melhorias táteis no teclado. A partir desse ano, 100% do eleitorado brasileiro passou a votar eletronicamente. UE2002 Ampliou os mecanismos de auditoria e marcou a primeira Cerimônia de Lacração dos Sistemas Eleitorais. UE2004 Trouxe o Registro Digital do Voto (RDV), com armazenamento embaralhado e assinatura digital dos votos. UE2006 Iniciou os testes de identificação biométrica com leitores de impressão digital. UE2008 Passou a utilizar o sistema operacional Uenux, baseado em Linux, e participou do primeiro teste piloto de biometria. UE2009 Introduziu arquitetura de segurança com criptografia dedicada e substituiu disquetes por memórias USB. Também marcou o primeiro Teste Público de Segurança (TPS). UE2010 Manteve as características do modelo anterior. UE2011 Recebeu melhorias no sistema de leitura biométrica. UE2013 Trouxe avanços no sistema operacional Uenux e no tratamento de criptografia. UE2015 Incluiu QR Codes nos Boletins de Urna e lançou o aplicativo Boletim na Mão. UE2020 Teve capacidade de processamento 18 vezes maior que a UE2015, além de tela sensível ao toque para mesários e certificação criptográfica ICP-Brasil. UE2022 Modelo mais recente, fabricado em 2023, com melhorias em processamento, segurança e interação com os mesários.