[[legacy_image_220319]] Começa neste domingo (6), no Egito, mais uma Conferência das Partes, a COP27, organizada pelas Nações Unidas (ONU) e que tem por objetivo avaliar o que avançou ou não nos protocolos e compromissos dos países pela redução das emissões de gases de efeito estufa, responsáveis pelas mudanças climáticas. A cúpula acontece ao fim de um ano de desastres climáticos e recordes de temperatura em diversas partes do mundo. Thelma Krug é vice-presidente do IPCC, uma organização científico-política criada em 1988 no âmbito das Nações Unidas pela iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e da Organização Meteorológica Mundial (OMM). Atuou como Secretária Nacional Adjunta da Secretaria de Políticas e Programas de Ciência e Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, entre outras funções que exerceu no Ministério do Meio Ambiente, sempre ligadas às questões climáticas e do desmatamento. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Esta semana saiu novo relatório do Observatório do Clima mostrando que as emissões brasileiras de gases de efeito estufa tiveram sua maior alta dos últimos 19 anos. Isso compromete a imagem do Brasil nessa conferência que começa hoje, no Egito? Mais do que nunca, hoje nossas maiores emissões estão relacionadas à emissão decorrente do desmatamento e, também, do pós-desmatamento, por conta das queimadas. Sabemos que, depois da área desmatada, ainda tem, nas áreas queimadas, a emissão de gases. Desde 2014, tivemos uma evolução lenta, saindo daquela tendência de redução significativa que o Brasil vinha fazendo desde 2004. Em 2012, tivemos os menores índices de desmatamento de florestas. A partir de 2019, a situação ficou muito agravada. Isso se seguiu em 2020 e 2021, e acredito que neste ano se repita. A senhora acredita que reverter esse quadro leve quanto tempo?O trabalho que se vai ter para colocar a Amazônia novamente nos trilhos não vai ser elementar. Vai exigir um esforço hercúleo, porque o atual governo desmantelou as instituições, como Ibama, Instituto Chico Mendes, ICMBio. Se nós olharmos para trás, o que aconteceu para se ter aquela redução significativa de desmatamento entre 2004 e 2012? Em 2004 foi construído o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), depois foi feito para o cerrado, para controle de queimadas. Esses planos eram revisados a cada cinco anos para avaliar o que funcionou e não funcionou, e identificar correções, engajamento das instituições, dos estados. Quais eram os pilares desses planos? Tem um pilar de ordenamento territorial, uma questão de zoneamento. Tem o pilar de monitoramento e controle, que foi totalmente desmantelado de 2019 para cá. Tem o pilar dos incentivos às atividades produtivas sustentáveis e, depois, ainda criamos mais um eixo, de incentivo normativo, financeiro, uma forma de manter a floresta em pé. O primeiro pilar e o de incentivo às atividades sustentáveis levam um tempo maior para implementar. A senhora diria que reestruturar os mecanismos e as instituições de controle vai levar muito tempo? Nós perdemos tudo, mas essa é a parte que eu, particularmente, vejo como fundamental. Tem que começar por aí, e isso não é fácil. Informação, temos muita, porque há dados de satélite, do Inpe e outros. Há alertas diários sobre pontos de desmatamento, de queimadas... A questão é o que você faz com essa informação. Atualmente, não se faz nada. Sair da informação para a tomada de ação tem custo alto, mas é fundamental, porque só assim você para os ilícitos. Para paralisar os ilícitos precisa enfrentar criminoso. Para enfrentar criminoso você precisa muito mais que de agentes do Ibama. Precisa de polícia mesmo. A gestão do presidente (Jair) Bolsonaro facilitou muito a ação de ilícitos. Com falta de ação...Exatamente. Primeiro, quando ele disse que não se poderia mais destruir os equipamentos usados pelos criminosos. E os criminosos puderam continuar queimando helicópteros, carros e equipamentos do Ibama. A guerra ficou muito desigual. Um item que chama atenção nesse novo relatório do Observatório do Clima é o que diz respeito à Mata Atlântica, onde também houve muito desmatamento. Isso preocupa? Foram todos os biomas. O pampa, o cerrado... Mas a preocupação maior é mesmo a Amazônia, por conta da biomassa que há ali. Apesar desse cenário, a senhora enxerga o Brasil com grande potencial ambiental para redução das emissões de gases no planeta? Eu não tenho a menor dúvida sobre isso. Há um potencial de bioeconomia na Amazônia, que pode ser muito explorada. O açaí é um exemplo disso. Se estivermos falando em uma trajetória de limitar o aquecimento global a 1,5 grau, você está falando em projetos de grande escala, que visa a retirar o CO2 (gás carbônico) da atmosfera. Isso inclui o reflorestamento, a bionergia, com captura e armazenamento do gás carbônico, recuperação de solos para que capturem os gases. Então, vejo o Brasil com grande potencial, e não só de território, para executar essas tarefas. Há, também, um grande capital científico. Capital científico?Sim, temos muito, fantástico, e que ficou muito desmotivado de 2019 para cá por conta de acusações de manipulação de dados, de desqualificar as instituições de pesquisa, que sempre foram reconhecidas nacional e internacionalmente. Isso foi um grande abalo na comunidade científica. É preciso investir em pesquisa. Basta ver o desempenho de instituições como o Butantã na pandemia. O País não evolui sem esse conhecimento. A extensão de oceano na costa brasileira também é um grande potencial para o equilíbrio do clima, não? Sem dúvida. O oceano retira da atmosfera quase 30% de CO2 produzido no mundo. Ele é o grande sequestrador desses gases. Uma outra parte da captura é feita pela biosfera terrestre. Oceano e biosfera terrestre, juntos, retiram 55% das emissões. O que se teme muito é que a poluiçãolt; dos oceanos reduza essa capacidade natural. Seguindo a trajetória que temos visto em termos mundiais, a senhora acredita que os termos do Acordo de Paris sejam cumpridos pelos países? Para se ter um aumento máximo de 1,5 grau de aquecimento, deveria ter uma rápida redução de gases de efeito estufa. Isso já deveria ter ocorrido. Para 2050, o IPCC previa que as emissões deveriam ser zeradas. O que se teme é que haja uma certa acomodação por parte dos países diante da possibilidade de surgirem alternativas que capturem essas fases da atmosfera. E há essas alternativas?A fertilização dos oceanos, o reflorestamento em larga escala e outros. Eu vejo que perdemos uma chance de ter tido uma transição suave, para fazer as coisas aos poucos, sem grande impacto para a sociedade. Agora, já se fala em grande transformação. Mas a ciência já fala em eventos extremos da natureza há muitos anos. E isso está acontecendo, e já sabemos que isso tem relação com as mudanças climáticas. Quem vive em áreas costeiras, como a Baixada Santista, vai ser primeiro impactado?Já está sendo. E não só pela mudança do clima, com chuvas mais intensas, mas pela elevação do nível dos oceanos. Isso é irreversível. Essa discussão sobre mudanças climáticas às vezes parece ainda concentrada no universo acadêmico, entre especialistas. A senhora acredita que a sociedade em geral está consciente sobre esse tema?Veja, não vai adiantar nada só uma parcela da sociedade fazer alguma coisa, e a outra não. E eu estou falando do setor público e do setor privado. Este, em particular, tem tido uma contribuição fantástica. Ninguém vai ficar fora dessa equação do clima. À medida que os próprios governos forem respondendo de forma mais assertiva, mostrando que têm essa preocupação, adotando medidas de adaptação e resiliência, as pessoas também vão se conscientizando. Eu vejo essa corrente começando por cima, não por baixo. A sociedade civil tem que cobrar essas ações e essas políticas.