O Dia Mundial de Combate à Poliomielite é celebrado neste sábado (24). No Brasil, essa data é marcada pela conscientização de manter a prevenção contra a doença que está erradicada no país desde 1989. No entanto, apesar do bom histórico das campanhas de imunização, os índices recentes de cobertura acendem um sinal de alerta entre autoridades sanitárias e profissionais da saúde. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A meta nacional recomendada para garantir a imunidade coletiva e impedir o retorno do vírus é de pelo menos 95%. Contudo, o país tem enfrentado oscilações preocupantes nos últimos anos, mantendo-se abaixo do patamar ideal e registrando quedas acentuadas que oscilaram entre 71% e 85% em períodos recentes (como nos anos de 2021, com 71,04%, e 2023, com 84,63%). O infectologista Marcos Caseiro aponta que o fenômeno da hesitação vacinal está associado a ondas de desinformação globais, que fazem com que os pais tenham medo de vacinar os filhos devido à possíveis reações. O especialista enfatiza que a queda na cobertura torna a população novamente vulnerável. "Quando cai a taxa de cobertura vacinal, você torna a população suscetível à doença. A população fica menos protegida. Então, é importante entender que a não vacinação afeta nós mesmos e também a cobertura nacional”, alerta o Dr. Fim da gotinha na imunização Uma das mudanças mais significativas na imunização brasileira é a suspensão da tradicional vacina oral contra a poliomielite (VOP), famosa pelas "gotinhas" criadas na década de 1950. Embora tenha sido fundamental para erradicar a doença pela facilidade de aplicação, a versão oral continha o vírus vivo, o que em casos extremamente raros poderia estar associado a episódios de poliomielite paralítica vacinal. As “gotinhas” eram tratadas como vacinas de apoio após a dose da injetável. Caseiro explica os motivos científicos que embasaram a mudança no protocolo nacional e que fizeram o Brasil utilizar apenas a vacina injetável, dividida em cinco doses, desde 2024 "Não era mais concebível dar uma vacina com vírus vivo, que ainda que fosse raro o efeito adverso, ele existia. Então, o Brasil hoje adota a vacina Salk. A Salk é injetável, mas é um vírus morto. Ele não tem nenhum tipo de complicação pós-vacina”, explica o infectologista. Além disso, o infectologista ressalta que desde 2018 a vacinação contra a poliomielite é obrigatória para a matrícula e rematrícula de crianças na rede pública e particular de ensino na cidade de Santos. Apesar da aposentadoria das gotinhas, o Ministério da Saúde ressalta que o icônico Zé Gotinha, personagem criado em 1986 pelo artista plástico Darlan Rosa, continua atuando ativamente nas campanhas de conscientização, não apenas contra a pólio, mas também na prevenção de outras doenças imunopreveníveis, como o sarampo. Sintomas da pólio Para demonstrar a importância da vacinação, é preciso compreender como o poliovírus afeta o organismo. Trata-se de uma doença contagiosa aguda, provocada por enterovírus, que pode infectar crianças e adultos por contato direto com fezes ou secreções expelidas pela boca. Segundo o neurologista Tiago de Paulo, embora muitos casos sejam assintomáticos, o vírus pode atacar o sistema nervoso central (SNC) em uma parcela dos pacientes, destruindo os neurônios motores. "O vírus vai para o sistema nervoso central e provoca uma paralisia flácida aguda. É como se o membro ficasse mole, você não consegue mexer esse músculo, você tem uma paralisia motora por causa disso. Ela destrói o neurônio motor da medula espinhal e compromete o controle dos músculos. Nos casos mais graves, pode até afetar a musculatura respiratória”, detalha o doutor. O especialista lembra que, embora a poliomielite esteja erradicada nas Américas desde 1994, sequelas crônicas ainda são acompanhadas em centros médicos universitários em pacientes que sofreram com a infecção no passado. Por isso, a vacina permanece como a única ferramenta de proteção eficaz e indispensável. Caso errado de pólio no Brasil Em 2022, antes da suspensão da vacina oral, um caso foi registrado como suspeita de poliomielite de um menino de três anos no Pará. A criança teve uma paralisia flácida aguda e foi detectado um vírus da pólio em um exame de fezes. Porém, ainda naquele ano, o Ministério da Saúde descartou ser um caso de poliomielite. O exame deu resultado positivo para o poliovírus vacinal do imunizante oral, e não para o vírus erradicado no Brasil em 1989. O menino havia tomado as gotinhas antes de ter recebido a injetável, ordem errada na época. Como explicado por Marcos Caseiro, esse tipo de contaminação é muito rara. Assim, dois anos depois, esse tipo de vacinação foi suspensa. Outras vacinas Além da poliomielite, a caderneta de crianças e adolescentes deve ser atualizada com doses contra hepatite A e B, febre amarela, tríplice viral, HPV, rotavírus humano, meningocócica C e ACWY, pentavalente e covid-19, assegurando a imunização completa da população infantojuvenil.