Pesquisas apontam como uma pequena amostra pode carregar informações sobre diferentes processos no organismo (AdobeStock) O sangue conta histórias que a ciência aprendeu a decifrar. Da identificação dos tipos sanguíneos ao avanço dos testes genéticos e das pesquisas sobre doenças, pequenas amostras do material que circula pelo corpo ajudaram pesquisadores a entender melhor quem somos e como o organismo funciona. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo a médica hematologista Mayara da Silva Cardoso, a partir de uma pequena coleta é possível avaliar desde a quantidade e as características das células sanguíneas até o funcionamento de órgãos, alterações metabólicas, hormonais, imunológicas e infecciosas. Também é possível estudar alterações genéticas e até fragmentos de DNA que circulam no sangue. “Quando olhamos para o sangue, não vemos apenas as células que ali circulam. Muitas vezes estamos enxergando sinais do que está acontecendo em outras partes do corpo. É por isso que se tornou uma ferramenta tanto para o diagnóstico quanto para o acompanhamento de doenças”, afirma. Ela lembra que a descoberta dos grupos sanguíneos foi fundamental na história, não somente por tornar as transfusões mais seguras, mas por ajudar a demonstrar, de forma concreta, que determinadas características biológicas são transmitidas geneticamente. “Durante muito tempo, antes dos testes de DNA, os grupos sanguíneos chegaram a ser utilizados em estudos de parentesco e genética populacional. No sistema ABO, por exemplo, herdamos uma variante do gene de cada um dos nossos pais, e essa combinação ajuda a determinar se seremos A, B, AB ou O. O sistema Rh também é determinado geneticamente, embora seja mais complexo do que simplesmente ‘positivo ou negativo’”, frisa Mayara. Atualmente, a ciência reconhece 49 sistemas de grupos sanguíneos, que reúnem mais de 400 antígenos diferentes nas hemácias. Tipos diferentes De acordo com a médica hematologista, os diferentes grupos sanguíneos não surgiram para possibilitar transfusões, mas para representarem variações de moléculas presentes na superfície das nossas células. Essas diferenças foram sendo mantidas nas populações ao longo da evolução. “Uma das hipóteses mais estudadas é a influência das doenças infecciosas. Determinados antígenos podem facilitar ou dificultar a interação de alguns microrganismos com o organismo. Um exemplo é a malária grave transmitida pelo protozoário Plasmodium falciparum: pessoas do grupo O apresentam, em média, menor risco de formas graves quando comparadas às de grupos não O”, aponta. Isso ajuda a entender por que a frequência dos tipos sanguíneos varia tanto entre diferentes regiões e populações. “Provavelmente não existe uma única explicação, mas uma combinação de seleção natural, infecções, migrações e história genética das populações”, acrescenta Mayara. Marcadores científicos Embora existam associações bem documentadas, ela faz uma ressalva: tipo sanguíneo não é diagnóstico e, na maioria das situações, não é um fator que, sozinho, determine se uma pessoa terá ou não determinada doença. “Um exemplo é o risco de trombose. Pessoas dos grupos A, B e AB tendem a apresentar níveis mais elevados de fator de von Willebrand e fator VIII e, em estudos populacionais, apresentam maior risco de tromboembolismo venoso em comparação com pessoas do grupo O. Também existem associações estudadas com algumas infecções e determinados tipos de câncer”, pontua a hematologista. Ela reforça, entretanto, a necessidade de separar associação de causalidade. “Encontrar uma doença com maior frequência em determinado grupo sanguíneo não significa necessariamente que o tipo sanguíneo seja a causa daquela doença. Na prática clínica, ninguém deve interpretar o próprio tipo sanguíneo como uma previsão individual de saúde ou doença”, complementa a especialista. "Arquivo biológico" Mayara entende que uma das áreas mais promissoras é justamente a chamada biópsia líquida, em que já foi possível encontrar no sangue fragmentos de DNA provenientes de tumores e, em algumas situações, utilizar essa informação para acompanhar a doença, identificar alterações moleculares e orientar tratamentos. “Um dos grandes objetivos da pesquisa agora é conseguir detectar vários tipos de câncer cada vez mais precocemente por meio de uma simples coleta de sangue. Existem resultados muito interessantes, inclusive combinando características do DNA circulante com inteligência artificial, mas ainda não temos um exame de sangue universal capaz de rastrear todos os cânceres com segurança. O sangue contém muitas pistas, mas não contém todas as respostas. Uma alteração encontrada precisa ser interpretada dentro do contexto da pessoa, dos sintomas, do exame clínico e, muitas vezes, de exames de imagem ou da análise direta de um tecido”. A ideia do sangue como um “arquivo biológico” é positiva, mas é preciso aprender a língua em que boa parte desse arquivo foi escrita. “Já conseguimos ler muitas páginas. Outras, a ciência ainda está tentando traduzir”, finaliza.